A segunda etapa do movimento contra a corrupção

Carlos Chagas

Sucesso,  mesmo, obtiveram as marchas contra a corrupção, realizadas ontem em 28 cidades do país. Em algumas, mais, em   outras, menos,  a população compareceu para protestar diante das lambanças praticadas à sombra dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. Propostas concretas foram apresentadas, como o fim do voto secreto no Congresso, a manutenção das prerrogativas do Conselho Nacional de Justiça e a  aplicação da lei ficha-limpa em todas as eleições, a partir do próximo ano. Para não falar na necessidade de só cidadãos de reconhecida probidade e capacidade serem  nomeados para  ministérios e empresas públicas.

Vai tomando corpo o que nasceu apenas como grito de indignação e revolta da sociedade civil diante dos descalabros do mundo  oficial. Algo como aconteceu na campanha das “diretas já”, em 1984. Mesmo com o Congresso rejeitando naquele ano a emenda Dante de Oliveira, o caudal não foi contido e até hoje votamos para presidente da  República. Mesmo que demore, parece óbvio estarem sendo obstruídos os desvios e  desvãos do mau uso da coisa pública. 

Importa que não pare nas estruturas  oficiais essa manifestação ampla. Porque, no reverso da medalha, a corrupção é geral e irrestrita no arcabouço  privado. Para que existam corruptos tornam-se necessários corruptores.  Por que não atingi-los numa segunda etapa desse movimento nacional?

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ABSURDO  INOMINÁVEL

Deviam ser presos e condenados a trabalhos forçados  pelo  resto da vida os responsáveis pela aquisição e autorização do uso de pistolas de choque elétrico pelos funcionários do  Detram do Distrito Federal. Não sendo policiais, o que torna a situação ainda pior, esses agentes logo começarão a disparar raios  diabólicos sobre motoristas suspeitos de cometer infrações de trânsito em Brasília.

As pistolas paralisam por cinco segundos  o cérebro dos indigitados  cidadãos,  ignorando-se as seqüelas daí decorrentes, a curto, médio e longo prazo. Tudo porque um veículo avançou o semáforo ou seu condutor foi flagrado dirigindo embriagado.

Como se já não bastassem as  abomináveis  maquininhas de gás de pimenta distribuídas a policiais encarregados de manter a ordem pública, a moda agora será imobilizar quem o Detran  imaginar  responsável por tumultuar o fluxo de automóveis pelas avenidas da capital  federal.

Logo virão sucedâneos,ainda que ninguém pense em criar  as “pistolas da honestidade”, que quando disparadas farão  os corruptos confessarem suas lambanças.

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OS MILHÕES DE DEMITIDOS 

Terá sido sem querer, não por maldade ou sabotagem, que o Ministério do Trabalho acaba de colocar em frangalhos todo o aparato publicitário que vem desde o primeiro  ano de governo do Lula, tentando demonstrar que quase não há desemprego no Brasil.  Pelos números oficiais, entre 2007 e 2010, nada menos do que 72 milhões de trabalhadores perderam  o emprego.  Só no corrente ano de 2011,  já foram demitidos 12 milhões.

Claro que o governo responde com respeitáveis estatísticas de criação de novos  postos de trabalho, mas agora a gente não precisa mais verificar nos movimentados  cruzamentos de avenidas que o desemprego desmente a propaganda. Além da legião de infelizes vendendo óculos,  panos de chão e bolas de plástico, sem contar os  que simplesmente pedem esmola,  agora somos  informados pelo ministério do Trabalho do horror que o desemprego atinge parte dos assalariados. Porque 12 milhões de cidadãos postos  na rua da amargura não é brincadeira, mesmo se parte deles encontrar novo  trabalho.  

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PIRATARIA 

Caíram as máscaras, mais cedo do que se previa. Com o coronel Kadafi ainda solto e  comandando a resistência, o governo  provisório da Líbia acaba de destinar para a França  35% do petróleo lá produzido. Imagina-se que outro tanto irá para a Inglaterra. Os novos donos do poder naquele país comprometeram-se a pagar em  petróleo a ajuda militar recebida para a deposição do ditador. Quer dizer, cada míssil  jogado  em Trípoli, cada bomba lançada no país, cada sortida de centenas de aviões enviados   pelas  potências européias tinha seu preço. Não foram utilizados em prol da democracia e em nome da liberdade, pois constituíram um bom  negócio.

Muito bom, aliás…

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