A sessão dos sonhos impossíveis

Carlos Chagas                                                     

Dos 81 senadores, só 9 se comprometeram a integrar a Frente Nacional contra a Corrupção, liderada por Pedro Simon, formalizada segunda-feira. Jamais se viu burrice tão grande quanto a manifestada pelos outros 72. Porque agora serão  tidos como  membros da Frente Nacional pró-Corrupção. Bastaria terem aderido na hora.  Como resultado, tomariam do senador gaúcho a liderança do movimento e poderiam conduzir o processo como bem entendessem, quem sabe indicando Renan Calheiros ou Romero Jucá como dirigentes maiores …                                                     

Faltou massa encefálica no Senado. Poderiam ter-se lembrado de episódio acontecido em Minas, logo que Tancredo Neves foi eleito governador, em 1983.  Secretário de Planejamento, Ronaldo Costa Couto procurou  Tancredo para transmitir uma péssima notícia: parte da bancada mineira na Câmara havia assinado proposta para a criação do Estado do Triângulo, separando-se das Gerais. Em  vez de ficar preocupado, o novo governador riu maliciosamente e disse estar resolvido o problema.  Como?  “Ora, no dia seguinte à aprovação do projeto, nós pedimos para aderir…”                                                       

Mesmo minoritário  e impotente, o grupo recém-formado vai dar trabalho. Quando cada um de seus integrantes ocupar a tribuna para apoiar a presidente Dilma e a campanha contra a corrupção, o que farão os 72? Não  poderão retirar-se do plenário, como fizeram  há dois dias. Muito menos pedir apartes para enaltecer a corrupção. O silêncio,  terceira opção,  será tão cruel como as duas anteriores. Bem feito!                                                        

Quanto a esperar consequências do Exército Brancaleone que acaba de se constituir, é outra história.  Nada de concreto sobrevirá de sua retórica. Nem a CPI se formará, muito menos será  desmanchado o clima de má vontade das bancadas governistas diante da presidente Dilma, se ela persistir na prática de afastar corruptos e até de  demitir ministros envolvidos nas denúncias de irregularidades nos setores a eles entregues. Mesmo correndo  o risco de vir a ser tida como a Segunda-Feira dos Sonhos Impossíveis, valeu a recente  sessão do Senado.                                                        

Para ficar registrado esse instante em que um raio fugaz iluminou o Congresso, vai o nome dos 9  senadores que se opuseram  à corrupção: Pedro Simon, Cristóvam Buarque,  Paulo Taques, Randofe Rodrigues, Jarbas Vasconcelos, Ricardo Ferraço, Ciro Miranda, Ana Amélia e  Eduardo Suplicy.  

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CRONOGRAMAS                                                        

Perdeu o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, excelente oportunidade para cobrar da presidente Dilma Rousseff detalhado cronograma a respeito da realização das obras do PAC. Ou de uma relação de planos referentes ao combate à inflação. Quem  sabe uma lista sobre as próximas iniciativas para impulsionar o crescimento econômico?                                                        

Ao invés disso, o deputado  potiguar  exigiu o cronograma da liberação de verbas para as emendas individuais ao orçamento apresentadas pelo PMDB…

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A VEZ DAS  CLAQUES                                                        

Ontem e hoje houve inflação de ministros depondo nas comissões da Câmara e do Senado.  Paulo Passos, dos Transportes, nas duas casas. Pedro Novais, do Turismo, também.  E mais Mário Negromonte, das Cidades, e Isabeli Teixeira, do Meio Ambiente.                                                          

Um denominador comum marcou os depoimentos: cada ministro levou sua claque. Mesmo diante de bissextas  indagações incômodas, estavam todos preparados.   A conclusão é de que do  mato ministerial não saem coelhos.  Os indagados a respeito de irregularidades em seus setores disseram desconhecê-las. Todos reafirmaram sua confiança na presidente Dilma. Em suma, aplausos para o dr. Pangloss, aquele professor para quem  o  mundo era tão perfeito e  funcionava tão bem que os narizes haviam sido feitos para acomodar os óculos, e as pernas, para vestir  meias… 

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VELHO MUNDO NOVO                                                        

Nem haverá que duvidar de  estar a violência em franca ascensão, entre nós. Talvez só perca para a corrupção.  Basta atentar para o noticiário apresentado nas telinhas, de manhã, de tarde, à noite e até de madrugada.  Nossos telejornais dedicam cada vez mais tempo a assassinatos, estupros, sequestros, assaltos, roubos, contrabando e tráfico de drogas. Muito mais   do que informações a respeito de políticas públicas, desempenho dos governos, vazios sociais e crises econômicas. 

Mesmo a falência dos sistemas de educação e  saúde  perde para o sangue  que espirra dos cada vez mais sofisticados aparelhos de TV.   Não há nada a opor ao conteúdo jornalístico oferecido à população, em especial por dar audiência e reverter em publicidade, mas, convenhamos, o Brasil não é só isso.

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