A sinceridade de Beltrame e o combate s drogas e armas no RJ

Pedro do Coutto

O Secretrio de Segurana do Rio de Janeiro, Jos Mariano Beltrame, publicou artigo muito bom no Globo, sobretudo pela sinceridade em que baseou o texto, acentuando que as UPPs so um mecanismo de transio, antes de representarem uma soluo para o problema da ordem pblica no Rio de janeiro. Foi honesto e, citando livro da jornalista Miriam Leito a respeito do Plano Real, afirmou que as Unidades Pacificadoras so, de fato, o incio de uma caminhada. Perfeito.

O restabelecimento da ordem pblica, tanto na cidade quanto no estado, depende essencialmente da queda do consumo de drogas, incluindo as ilcitas, como cocana, crack e maconha, por exemplo, e as lcitas como o fumo e o uso alm da conta de bebidas alcolicas.

Beltrame referiu-se Operao Rocinha que terminou com pequeno nmero de presos, mas eis um aspecto importante com a apreenso de 262 armas de fogo e de at 122 granadas. Vejam s. Granadas so armas de uso exclusivo das Foras Armadas e da PM. A meu ver a liberao da Rocinha foi um passo decisivo, sobretudo porque demonstrou que o imprio do trfico no inexpugnvel. Pelo contrrio: vulnervel. E sua vulnerabilidade depende em boa parte da reao social dos moradores que vivem dentro dos limites da lei. No que possam estes confrontar com os bandidos. Mas basta sua rejeio para que se crie uma atmosfera contrria ao dos criminosos.

Porm isso s no ser suficiente. Eu falei em drogas ilcitas e lcitas. Mas todas so drogas. So rotas de acesso ao vcio, ao ingresso de txicos e armas ao alto dos morros e vielas de pouca luz, fuga da realidade e da responsabilidade. Neste ponto que deve entrar a ao do governo Srgio Cabral atravs de uma campanha publicitria legtima. A informao jornalstica e a publicidade institucional so armas poderosas para fazer frente s armas mortais dos agentes do medo e da explorao da dependncia alheia.

Ningum se ilude: enquanto se mantiver alto o consumo de drogas, os nveis de insegurana no vo recuar.O lucro proporcionado pelo txico entorpece a compreenso de muitas pessoas e tambm anestesiam, como os noticirios revelam, casos em sequncia de envolvimento policial. Pois h policiais que chegam ao ponto de vender armas ao crime, esquecendo que essas amanh se voltaro contra suas prprias vidas. o mximo em matria de contradio.

Acontece tambm nos presdios. Como as armas passam por seus muros? Como as drogas e os armamentos, inclusive os pesados, chegam ao alto das favelas? Como sobem as ribanceiras os usurios desses entorpecentes? Como descem os portadores do dinheiro faturado com o vcio sem serem percebidos? E, no sendo observados, partem ao encontro de doleiros que comeam a se encarregar da lavagem do comrcio imundo e entregar o produto (aparentemente limpo) rede bancria. Rede bancria, sim. Porque no pode existir outro destino.

Dinheiro no pode dormir permanentemente sob colches ou em armrios e locais improvisados. Acontece isso, porm em pequena escala. Claro. Porque grande a movimentao de entorpecentes. S na Rocinha o volume negociado por ano aproximava-se de 100 milhes de reais. Esta parcela pode ser multiplicada por 10, levando-se em conta o sinistro mercado s da capital. O estado do Rio de Janeiro possui 96 outras cidades. Um desastre. Contra o qual se coloca frontalmente o Secretrio Beltrame, com sua sinceridade e sua honestidade pessoal.

No fosse honesto, j teriam surgido denncias contra ele, como inevitavelmente ocorre. Os exemplos de corrupo so muitos. Exemplos como Mariano Beltrame, poucos. Por isso mesmo no pode vir a ser isolado no combate que organiza e move. A luta difcil, tem muitas curvas sinuosas. Mas, afinal de contas, o que fcil na vida? Nada.

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