A técnica e a política na arte de governar

Sandra Starling

A pergunta ganha força ante as tensões crescentes entre a administração federal e o Congresso Nacional: o governante de perfil técnico obtém melhores resultados que o governante de perfil político? As travessias no oceano que separa o palácio do Planalto e as Casas congressuais têm mostrado que a índole técnica da presidente Dilma Rousseff pode até servir de escudo para resistir às pressões da esfera política, mas impõe riscos à eficácia da ação governativa.
A pendenga entre o Poder Executivo e os quadros legislativos que lhe dão sustentação tem como causa o perfil da chefe de Estado. Pouco afeita às pressões políticas, a presidente Dilma alia a feição técnica a um estilo de mando centralizado. Começam aí os obstáculos.

Nem sempre o olho da governante enxerga o que se passa no meio ou no fim da linha, tão portentosa é a estrutura. A centralização decisória causa paralisia de programas, atrasando o cronograma administrativo; chefias superiores e intermediárias são tolhidas de operar a todo o vapor em seus espaços e têm receio de receber um puxão de orelhas quando decidem de maneira autônoma. Ao modo centralizador da presidente soma-se outro tipo de controle, exercido por quadros indicados pelo PT. Formam as milícias de conexão direta entre o palácio do Planalto e o partido.

Regra geral, os técnicos defendem a ideia de que as estruturas do Estado sejam entes imunes às injunções políticas e orientadas pelos princípios constitucionais da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Incomodam-se com traços que apontem para a politização da administração.

A base da argumentação tem lógica. Acontece que a política permeia as frentes do Estado, particularmente nos sistemas democráticos. Economia e política andam juntas. Os governos costuram o tecido das administrações com técnicos, políticos e empreendedores privados, fazendo cruzar os três universos e criando núcleos de dirigentes intercambiáveis. Esse é o “modus operandi” dos nossos tempos.

“GRUPISMO”

No caso do Brasil, faz-se ainda mais necessária a junção da política com a administração, principalmente quando se arrolam os vetores de nossa cultura: o patrimonialismo, o fisiologismo, o grupismo, o familismo, entre outros. Governar sem estender os braços à representação política é apostar no embate.

A integração cooperativa entre os Poderes Executivo e Legislativo seria mais viável num cenário de partidos políticos programáticos ou no parlamentarismo. O presidencialismo de cunho imperial, como é o nosso, propicia um superpoder à figura do mandatário. Vestido nesse manto, o governante acaba se distanciando da realidade. Partidos orgânicos e doutrinários seriam menos suscetíveis às coisas da velha política.

Como esse horizonte é pouco visível, resta esperar que nossos representantes contenham o ímpeto de jogar lenha na fogueira. A presidente Dilma, por sua vez, há de entender que, se não arrumar ministros-bombeiros mais eficientes, a combustão continuará a ser vista do terceiro andar do palácio do Planalto.

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3 thoughts on “A técnica e a política na arte de governar

  1. Nossa Senhora… que artigo espetacular esse da Sra. Sandra.

    “Os governos costuram o tecido das administrações com técnicos, políticos e empreendedores privados, fazendo cruzar os três universos e criando núcleos de dirigentes intercambiáveis. Esse é o “modus operandi” dos nossos tempos.”

    A questão, então, é ter um administrador que apare as arestas de toda essa soma de elementos e devolva à população soluções administrativas perfeitas. É conciliar a arte e a técnica administrativa em prol do desenvolvimento do país como um todo, cortando tendências aos benefícios de certos grupos econômicos e igualando oportunidades aos grupos sociais.

    É tarafe titânica a qual todo candidato deve estar preparado. E é isso que o eleitor deve perceber em seu candidato.

  2. Artigo brilhante!!! Mas sua essência é científica. Na prática, o que vemos? Eis um (apenas um …) exemplo:
    Dilma apoia Sérgio Cabral.
    Dilma apoia Lindbergh, pois este é apoiado por Lula.
    Sérgio Cabral quer impor Pezão para governador.
    Lula (já disse isto) não impedirá a candidatura do Lindbergh, que é do … PT.
    Lindbergh não abre mão da sua candidatura a governador.
    Sérgio Cabral ameaça o PT, aqui no Rio.
    Sérgio Cabral diz que Dilma ficará sem palanque no Rio, se ela apoiar Lindbergh.
    Sérgio Cabral ameaça colocar sua tropa à serviço do Aécio Neves (!!!), pois seu filho é um “Neves”. Contra o Lindbergh.
    Agora … brava, corajosa e inteligente Sandra.
    Quem entende mesmo de “técnica em política” é o Lula. Foi até o Paulo Maluf (lá na casa dele), beijou as mãos do Jáder Barbalho(em Belém), anda de mãos dadas com o Lupi(que o chamou de ladrão e canalha na tv), alia-se à família Sarney (que xingava com os maiores adjetivos) … Lula é o presidente do Clube do Fazemos Qualquer Negócio. Todos estão ricos. Toda a família Sarney está rica. Lulinha está rico. Barbalho e Maluf …sem comentários. Há muitos e muitos mais, bem sabemos.
    O artigo merece nosso reconhecimento, Sandra escreve muito bem e sempre aborda com inteligência seus temas. Mas este …

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