A teoria é uma; a prática, outra.

Carlos Chagas

A presidente Dilma Roussef decidiu sancionar numa só solenidade as leis da Comissão da Verdade e da proibição de sigilo eterno para documentos oficiais. Na teoria, tudo bem. Um dia de festa. Mas na prática, como funcionarão esses dois novos dispositivos legais?

Para a Comissão da Verdade começar a funcionar, o palácio do Planalto precisará nomear seus sete integrantes, que durante dois anos investigarão as lesões aos direitos humanos praticadas durante o regime militar por agentes do poder público. O ponto alto dos trabalhos, prevê-se, acontecerá com os depoimentos de antigos militares e policiais denunciados como torturadores, sequestradores e assassinos.

Qual o comportamento da comissão se eles começarem a tentar justificar seus atos relatando supostos crimes praticados por suas vitimas? Caso incriminem o chamado “outro lado”, ou seja, de quantos apelaram para a luta armada e também sequestraram, assaltaram e até assassinaram agentes do estado?

A finalidade da Comissão da Verdade não é punir, sequer encaminhar ao Judiciário pedidos de punição. É apenas elucidar, revelar e denunciar os implicados. Mas farão o quê, os sete membros, diante de acusações contra os que pegaram em armas contra o regime militar? Proibirão a imprensa de assistir os depoimentos? Extirparão dos autos os nomes e as práticas do “outro lado”?

Com relação ao fim do sigilo eterno de documentos oficiais, outro nó vai aparecer: e se as autoridades às quais se dirigirão os pedidos de abertura desses documentos informarem que eles foram destruídos? É importante para a memória nacional, por exemplo, conhecer os arquivos da guerrilha do Araguaia, em todos os seus detalhes. Ou, mesmo, todos os papéis da guerra do Paraguai. Por que não o conteúdo dos abomináveis decretos-secretos dos tempos do general Garrastazu Médici?

A resposta de que foi tudo destruído pode gerar dúvidas, mas como contesta-la? Fica óbvio, assim, que uma coisa é a teoria, outra a prática. A festa no gabinete da presidente Dilma deve ser feita com cautela, sem muitas celebrações, pois o caminho parece árduo, tanto para a Comissão da Verdade quanto para os pesquisadores de documentos até agora mantidos em sigilo eterno.

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ATENÇÃO REDOBRADA 

Desde sábado que uma nova preocupação  toma conta do país: a saúde do ex-presidente Lula. Já escrevemos  que a vida é sempre mais estranha  do que a ficção. A ninguém seria dado imaginar que o primeiro-companheiro se visse à voltas com um câncer, especialmente situado em seu maior instrumento político,  a garganta. Os prognósticos médicos são otimistas, não há necessidade de cirurgia, mas sofrer ele vai, com a quimioterapia, pelo menos durante três meses. Doença igual foi enfrentada pela presidente Dilma Rousseff, e ela superou todos os traumas de um  câncer igualmente pernicioso, o linfático. Concorreu e elegeu-se. O Lula tem repetido que a vez, em 2014, é de a sucessora  candidatar-se a um novo mandato.   A situação, agora, deixa tudo no ar.

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CAIU A MÁSCARA

 Noticiam os jornais de ontem que as forças armadas inglesas iniciaram sua retirada do território da Líbia, onde estiveram não para fazer turismo, mas para assessorar e até lutar em favor dos rebeldes agora vitoriosos.

Certamente entrando com boa parcela do sofisticado armamento que os adversários de Muamar Kadaffi utilizaram em sua revolta, de canhões de última geração a fuzis, caminhões e até tanques. O diabo é que a OTAN e seus penduricalhos juraram que sua ação se restringiria aos bombardeios, o que não foi pouco. Jogaram mísseis não para proteger os revoltosos das tropas do ditador, mas para destruir as próprias, quer dizer, as tropas. E onde quer que estivessem, não apenas no território rebelado, mas na capital líbia e outras cidades dominadas pelo governo afinal deposto. Numa palavra, caíram as máscaras.

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CANALHAS

Por certo existem coisas muito piores. Receber uma bala perdida no meio da rua, por exemplo. Ser assaltado dentro de casa. Sofrer de uma doença terminal sem condições de recuperação. Assistir a morte de um ente querido. Até estar desempregado sem condições de subsistência.

Feita a ressalva, nem por isso o cidadão comum deixa de ficar indignado e de sofrer fortes prejuízos quando, de repente, falta energia em sua residência ou em seu local de trabalho. Se o indigitado vinha trabalhando há dias num texto de grande importância e, em um minuto, a falta de luz atinge e queima seu computador, perdeu tudo. E vai reclamar para quem? As companhias de eletricidade encontrarão mil desculpas, quase todas fajutas, para justificar a interrupção. Um urubu bateu no transformador. Um raio caiu nas linhas de transmissão…

Um dia, no futuro, essas desídias serão punidas, porque no fundo de tudo trata-se de descaso e incompetência diante das comunidades que pagam imposto e honram as contas de luz, já que a contrapartida é o corte imediato. À primeira falta de energia, demissão dos diretores dessas companhias. Na outra, afastamento dos governantes…

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