A terceira Intifada contra a frente EUA-Israel

Rami G. Khouri (www.counterpunch.org)

Ainda não se pode saber tudo que realmente mudará, nas condições objetivas, nos meses à frente, depois de os palestinos terem tomado a iniciativa de requerer às Nações Unidas que reconheça um estado palestino nos territórios que Israel ocupou em 1967 e garanta aos palestinos seja o estatuto de estado-membro pleno, ou de observador.

O movimento pode revelar-se como ganho substantivo para o povo palestino, como vitória apenas simbólica, ou como considerável risco de retrocesso, se EUA e Israel converterem sua ácida retórica vingancista em políticas ainda mais duras. Ainda que se deva esperar para poder avaliar com mais clareza o real impacto da iniciativa dos palestinos, parece não haver qualquer dúvida de que, desde já, em vários sentidos, vivemos uma etapa histórica.

O principal importante desenvolvimento, que historiadores futuros registrarão, é que essa última semana de setembro de 2011 marcou o momento em que o conflito entre árabes e Israel foi estruturalmente transformado em conflito entre árabes, de um lado e, de outro, EUA-Israel – por causa do modo explícito e profundo como o governo dos EUA assumiu o lado de Israel.

Os EUA historicamente sempre tentaram, sem grande sucesso, mas com empenho, manifestar apoio à sobrevivência e à segurança de Israel enquanto, simultaneamente, tentavam mediar uma solução para o conflito que levasse ao nascimento de um estado palestino em parte, pelo menos, das terras ocupadas em 1967.

Esse movimento de equilíbrio, por menos convincente que tenha sido, foi formalmente extinto: foi morto a tiros, vários tiros no coração, por um esquadrão-da-morte constituído de políticos dos EUA que dispararam saraivadas de tiros contra o frágil e já fracassado personagem que um dia atendeu pelo nome de “os EUA como mediadores”.

Os EUA optaram por defender Israel e o fizeram de duas maneiras importantes: [1] O presidente disse claramente que a Casa Branca preza mais os direitos de Israel que os direitos dos palestinos; e [2] o Congresso dos EUA, dominado pelos republicanos, assumiu que representa não só a vontade do povo dos EUA mas, também, a vontade dos sionistas.

Israel passou, da fase em que considerava o próprio bem-estar nacional e a restauração de tempos ancestrais como “cidade na colina”, para a situação de hoje, quando toda a segurança dos israelenses passou a depender exclusivamente de os israelenses controlarem o Congresso dos EUA.

O novo conflito, no qual o mundo árabe vê-se confrontado pelo par EUA-Israel, não será disputado por meios militares, como aconteceu desde 1947, no ‘velho’ conflito entre árabes e Israel. Esse novo conflito encontra os árabes e seus apoiadores, aliados e amigos, já explorando meios políticos e outros meios pacíficos para resistir e simultaneamente desafiar  EUA-Israel pelas vias pelas quais o mundo inteiro desafiou a África do Sul do Apartheid, há décadas.

Tudo isso, porque os EUA já mostraram, acima de qualquer dúvida, que encampam a posição de Israel nas questões existenciais de reconhecimento do estado, soberania e direitos nacionais, que são o cerne do conflito entre Israel e os palestinos e, também, do conflito mais amplo entre Israel e os povos árabes.

Esse novo ator político coletivo (EUA-Israel) posicionou-se claramente na oposição, contra vasta gama de sentimentos universais e morais, além de legais, em todo o mundo, que veem o reconhecimento de um estado palestino como o melhor meio para pôr fim às fracassadas negociações bilaterais ‘mediadas’ pelos EUA; e que querem garantir justiça e segurança para os dois lados daquele conflito.

EUA-Israel, esse ente recém-criado, nasce isolado e é visto como autor de crimes pela maioria dos povos do mundo. Não é visto como “nova Jerusalém”, pela qual EUA-Israel às vezes tenta fazer-se passar; a nova entidade EUA-Israel está sendo vista como “nova África do Sul do Apartheid”.

Igualmente importante é o segundo evento histórico de setembro: palestinos, árabes e o resto do mundo democrático já não têm medo de fazer frente a EUA-Israel. O imenso poder de EUA-Israel já nada intimida os que discordam ou estão decididos a resistir contra seus excessos e a condenar os crimes que cometem contra palestinos e outros árabes.

O fato de que um líder palestino sem representatividade popular, muito fraco, em termos políticos, como Mahmoud Abbas, tenha resistido às pressões fortíssimas, ameaças e tentativas de suborno às quais Israel-EUA submeteu-o ao longo das últimas várias semanas indica que já entramos na 3ª Intifada.

A 3ª Intifada será disputada contra a posição política de EUA-Israel, não mais contra exclusivamente a ocupação israelense. As implicações de palestinos e outros estarem desafiando EUA-Israel serão imensas; e precisarão de tempo, para poderem ser avaliadas com clareza.

Se se combinarem iniciativas como o requerimento à ONU; desobediência civil popular; e resistência de massa contra Israel em todas as arenas nas quais haja contato entre Israel e árabes – nas fronteiras, na Cisjordânia, em Gaza, em Jerusalém Leste, dentro de Israel e nas embaixadas de Israel em todo o mundo –, é provável que se vejam pressões significativas para que se formule e construa algum outro mecanismo, inteiramente novo, para tentar resolver por vias pacíficas o conflito entre árabes e Israel. E a opção pacífica é sempre preferível.

O Oriente Médio vive dias históricos em todos os fronts: 1. dentro dos países árabes; 2. nas relações da Turquia na região; 3. no conflito entre árabes e Israel; 4. nas interações entre os países árabes e os EUA; e talvez, de alguma forma, também; 5. em novos papéis para Europa ou Rússia.

Serão necessários anos, para que se sintetizem esses cinco domínios. Quando acontecer, poderemos, provavelmente, revisitar esse setembro de 2011 e vê-lo como ponto de mudanças cruciais na atuação de todos esses atores chaves.

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