A trombeta dos estúpidos.

Jacques Gruman.

Três semanas atrás e quase ninguém havia ouvido falar de Rafaela Silva. Nascida no ventre da pobreza, encontrou no judô um canal para driblar o destino de seus amigos, muitos deles assassinados antes dos vinte anos, e, por que não ?, gostar mais de si mesma. Venceu barreiras financeiras e foi a Londres, parte do time olímpico brasileiro. Tinha todo o direito de sonhar com vitórias que a vida lhe negara. No entanto, incensada pela cartolagem e iludida pela mídia histérica, contou com os ovos que ainda estavam dentro da galinha. Perdeu uma luta na fase eliminatória e, criticada nas redes sociais, perdeu também a compostura. “Vai se foder, vai caçar o que fazer, seu filho-da-puta”, disparou, descontrolada, respondendo a um internauta.

“Vergonha ou não, foda-se ! Eu vim aqui representar o Brasil. Melhor isso do que cair na boca do povo, sua vagabunda”, espumou para outra crítica. Espírito esportivo é isso aí … Não justifica, no entanto, o que veio em seguida. Um tal Urubu Palheta partiu para a ofensa racista, lama nos monitores: “Lugar de macaca é na jaula”. A derrota no tatame e as reações ofensivas de Rafaela aos seus críticos não justificam a injúria racista. Não me surpreendi. Nosso país é profundamente preconceituoso. Despeja, ao contrário do que diz a lenda, uma enorme carga de violência contra os desiguais e, não raro, segrega, expulsa, esmaga. Brasileiro cordial é ficção de má qualidade.

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MITT ROMNEY 

Como que para comprovar que não estamos sozinhos no pódio da discriminação e do descontrole, o candidato republicano à presidência dos EUA, Mitt Romney, abasteceu o noticiário com uma coleção impressionante de gestos oportunistas e insinuações racistas. Em visita a Israel, buscando imagens que lhe rendam votos da importante comunidade judaica americana e doações milionárias para a campanha eleitoral, cedeu todos os dedos para a direita israelense. Apoiou, sem o menor constrangimento, uma ação militar contra o Irã. Defendeu o reconhecimento de Jerusalém como capital eterna e indivisível de Israel. Atribuiu a supremacia econômica do Estado judeu sobre os palestinos a uma suposta “vantagem cultural”.

As sandices são tão medonhas que merecem um olhar mais apurado. Antes de mais nada, chama a atenção que um candidato a eleição presidencial de um país vá buscar recursos financeiros e apoio político em outro. Imaginem por apenas um minuto que Lula ou FHC tivessem feito a mesma coisa. Ou que Jango tivesse recolhido o mitológico “ouro de Moscou”. A grita não seria pequena, e com toda a razão. Por que o beija-mão em Benjamin Netaniahu não provoca comoção?

Palestina ocupada

Em frente. Uma aventura bélica no Irã é música no ouvido da indústria armamentista e pode trazer uma catástrofe de proporções improjetáveis no Oriente Médio. O regime clerical iraniano é repressivo, discrimina minorias religiosas, persegue homossexuais, mulheres e adversários políticos. Merece o repúdio, claro e veemente, dos democratas e progressistas. No entanto, o mesmo repúdio deve se estender a uma intervenção imperialista. Seria mais uma “guerra justa”, ao estilo da invasão do Iraque, que sugou US$ 3 trilhões dos cofres públicos ianques, matou centenas de milhares de iraquianos e destruiu o país.

A defesa de Jerusalém como capital una e definitiva de Israel é uma concessão aos maximalistas israelenses. Faz vista grossa às sucessivas políticas governamentais do Estado judeu para reduzir a população palestina da cidade, entre elas a criação de obstáculos para a renovação dos documentos de moradia. Ignora a discriminação orçamentária que os árabes israelenses sofrem na cidade em áreas essenciais como educação e urbanismo. É uma proposta duramente criticada por setores importantes da sociedade israelense e, se implementada, reduziria a pó as chances de um acordo de paz com os palestinos. De olho nos votos e nos cifrões, Romney finge que não vê nada disso.

Por fim, a campeoníssima. Atribuir as diferenças econômicas entre Israel e os territórios palestinos à “cultura” é estupidez  misturada com racismo.

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PALESTINA OCUPADA

Depois de 45 anos de ocupação da Cisjordânia, da Faixa de Gaza e de Jerusalém Oriental, a economia palestina sobrevive, sufocada, por milagre. É um desprezo à inteligência comparar entidades/situações heterogêneas. Israel controla, rigidamente, o fluxo de pessoas e mercadorias entre as áreas palestinas, através de uma rede com cerca de 500 checkpoints, barricadas e outros tipos de barreira.

Cerca de 80% do Vale do Jordão, antes uma espécie de celeiro para os palestinos, passaram para controle israelense, que ali constroem colônias, instituem zonas militares e “reservas naturais” inacessíveis aos palestinos. Somente entre 2000 e 2007, mais de meio milhão de oliveiras palestinas foram destruídas por colonos israelenses. Estes mesmos colonos que consomem 4,3 vezes mais água, recurso escasso, do que os palestinos.

Relatórios da ONG Human Rights Watch já denunciaram várias vezes a discriminação sistemática dos palestinos por sua “raça, etnicidade e origem nacional”, privando-os de eletricidade, água, escolas e acesso a estradas, essas últimas muitas vezes de uso exclusivo de israelenses, especialmente colonos. É essa a diferença “cultural” a que se refere Romney ? A América profunda fala através de sua boca torta.

(artigo enviado por Mário Assis)

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