A vaca molhada

Sebastião Nery

No restaurante grã-fino, um conjunto brasileiro tocava e cantava. Um piano elétrico, uma bateria elétrica, uma cantora elétrica. O rapaz do piano, de olhos fechados. O rapaz da bateria, de cabelos assanhados. A menina do microfone, bela e pálida, de quadris trêmulos.

Tocaram e cantaram duas horas. Absolutamente uma só e mesma música. De quando em quando, a letra mudava. Mas o ritmo, o tom, o acompanhamento, o clima, era um só. Um samba-rock andrógino, estridente, monocórdico. Transnacional. Parecia que só eu prestava atenção.

De repente, como nos filmes de mistério, deu-se o espanto. A moça do microfone, toda branca, longo vestido branco, começou a cantar, em português, o maravilhoso “Faca amolada”, de Milton Nascimento:
“Agora vai ser, vai ser, vai ser faca amolada, faca amolada”…

Mas ela cantava assim:

“Agora vai ser, vai ser, vai ser `vaca molhada’, `vaca molhada'”.

***
NOVA YORK

Ninguém notou. Era em Nova York, 1980. Eu estava lá para assistir ao começo da campanha eleitoral. A “vaca molhada” era o próprio Estados Unidos, sacudido pela crise do petróleo, o desemprego, a inflação, o dólar se derretendo e o assalto do Irã à embaixada americana. Estavam numa desesperança aflita, numa neurose coletiva. Um amigo economista me dizia:

Os americanos estão desesperados atrás de um líder para a crise. Eles estão com medo. Uma hora dessas, este país, tão rico e poderoso, pode acordar dentro de um impasse econômico-financeiro. Quanto mais poderosos, maior o perigo. Isso aqui é uma barragem cheia, na chuva, sem ter para onde escoar água. Exploraram tanto os outros países, criaram uma economia tão egoísta, tão imperialista, que o mundo não tem mercado para consumir o excesso de sua produção. O centro da crise é este. Não têm mais a quem vender o excesso de produção e, se pararem de produzir, explodem.

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TED KENNEDY

Vinte anos antes, na campanha de l960, tinha visto John Kennedy derrotar Nixon exatamente por isso, como mostrei terça-feira: porque o país estava atrás de um líder. Era evidente que esse líder não era o presidente Carter, com aquela cara de noviça rindo de um pecado que não era só dele.

Em 1980, em Boston, lançando sua candidatura pelo Partido Democrata, o senador Ted Kennedy parecia imbatível quando nos dizia:

“Como disse meu irmão John em 60, a todos nos une a convicção de que ou nos salvamos todos juntos ou ninguém se salvará. Estamos atravessando um momento muito delicado. Se não fizermos agora o que deve ser feito, os problemas crescerão e talvez cheguemos ao ponto de mais grave perigo que jamais tivemos em toda a História. O verdadeiro perigo que temos à frente não é o externo, que existe e exige nossa atenção”.

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OBAMA

O programa de Ted era um pequeno livro: “Esta época, esta geração”:

1 – “A História nos ensina que esta nossa geração não pode dar-se o luxo de dormir à sombra de sua própria liberdade. Em muitos países pobres, a morte está sempre junto da cama das crianças. Existem países na América Latina em que 80% das crianças morrem até os cinco anos. 60% de nossas famílias não podem pagar aluguel nas áreas urbanas das grandes cidades. E temos mais armas de fogo que cidadãos”.

2 – “O verdadeiro perigo está dentro de nós mesmos, das pessoas, da cultura. Sei que estou dizendo coisas que já foram ditas. Antigamente, para nós, esta esperança obstinada chamava-se o sonho americano. Hoje, não pode mais ser um sonho apenas nosso, porque nenhum país, por mais forte, pode andar para a frente sozinho. Chegou a hora de construir algo de novo”.

O Partido Democrata preferiu insistir com Carter, ganhou Reagan do Partido Republicano. John Kennedy em 60, Ted Kennedy em 80, Barack Obama em 2008: a busca de um líder era a mesma. E o discurso dos três também foi o mesmo. Mataram John. Vetaram Ted. Vão tolerar Obama?

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SEMPRE MATANDO

Em quarenta anos, de 68 a 2008, elegeram e reelegeram Nixon, elegeram e reelegeram Reagan, elegeram e reelegeram Bush pai, elegeram e reelegeram Bush filho. Quatro assassinos públicos. Quatro presidentes da guerra, pela guerra, para a guerra. Mataram milhões e milhões pelo mundo.

E continuam matando. A imprensa internacional, e a nossa também, servas, servis e serviçais, já quase não contam mais os mortos. De violências, torturas, pouco falam. É como se fossem exercícios de guerra.

“Em 2008. o Iraque tinha pelos menos 400 prisões secretas, onde são praticados crimes como torturas, estupros e execuções, diz deputado iraquiano Mohammad al Dainy, que visitou 13 instalações, documentando testemunhos de abusos sofridos por presos, entre eles mulheres e menores”.

“Nas instalações que visitou, muitas delas controladas por soldados norte-americanos, havia até 700 presos confinados em uma única cela. Tudo documentado em vídeo e comunicados oficiais. Mostrou as provas à Cruz Vermelha e a autoridades de direitos humanos da ONU”.

E Obama não cumpriu a promessa: “A mudança está chegando”.

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