A vida e a arte, um encontro eterno no espelho do tempo

Pedro Coutto

Sempre sustentei – e continuo sustentando – que a vida e a arte são uma só coisa, um só processo, um acrescentando ao outro, com a arte é claro, distinguindo o talento humano de poucos em relação a todos nós. Há muitos anos, mesmo antes de me tornar amigo de Nelson Rodrigues, quando falsos moralistas eo criticavam, negando sua obra sob o argumento de que as situações expostas no palco não eram possíveis, eu indagava: o nazismo foi possível? Se o nazismo aconteceu, o ser humano é capaz de tudo. A arte recorre aos fatos para se expressar.

Por isso, tenho certeza, ninguém, nem mesmo Shakespeare, escreveu nada que não tenha acontecido realmente. Romeu e Julieta, por exemplo, a história original foi escrita por Luigi de Comba, livro exposto até hoje em Verona, na casa de Julieta, ponto turístico, bem próximo à praça central onde se deu o duelo entre Teobaldo e Mercúcio, grandes amigos de Romeu.

Recebendo o texto de alguma forma, William Shakespeare transformou o texto em magia dramática insuperável. Centenas de outros casos ocorreram através dos séculos. Desde as peças da tragédia grega, trezentos anos antes de Jesus Cristo. Édipo, por exemplo, é uma história muito mais forte e impactante do que qualquer romance nelsonrodrigueano.

Mas porque estou escrevendo tudo isso? Para falar de Helio Fernandes, atingido este ano pela morte de seus filhos, Rodolfo e Helinho, verdadeira tragédia que ele enfrenta frontal e corajosamente, sem que tais desfechos abalem o compromisso que mantém para consigo mesmo, compromisso aliás
do qual nunca se afastou.

Compareci ao velório do diretor de redação de O Globo. Estava viajando no sepultamento de Helio Fernandes Filho, chefe de redação da Tribuna da Imprensa, onde trabalhei.

Se perder um filho significa a maior dor que pai e mãe podem suportar, calculem o que representa perder dois. No mesmo ano, 2011. Algo que inverte a ordem natural das coisas, pois o lógico é que nossos filhos e filhas nos levem à derradeira passagem tendo o tempo como testemunha e espelho.
Claro quando uso a expressão tempo e testemunha estou me referindo a Aldous Huxley. De fato o tempo é testemunha de tudo. Escrevi sobre a morte de Rodolfo, a quem só vi uma vez na missa da irmã de Hélio e Millor.

Escrevo hoje sobre Helinho. O desaparecimento antecipado de ambos torna-se um drama moderno, cilada do mesmo tempo em que existimos e procuramos ser construtivos à medida em que ele passa. Uma busca, sem dúvida, mão sei exatamente de quê, creio no fundo que procurando nos encontrar nos outros, testemunhas nossas, como somos testemunhas de todos os que conhecemos.

Não sei se a essência precede a existência, ou se a existência precede a essência, dúvida sartriana. Não importa a visão à luz da Filosofia. A meu ver, a existência antecipa-se à essência, uma vez que se não houver existência não pode haver essência. Por isso me refiro ao amigo Helio Fernandes
colocando-o ao mesmo tempo sob o prisma comum da arte e da vida.

A arte é uma forma, a vida seu conteúdo. O artista opera recorrendo tanto a uma quanto a outra. Não é um inventor, é um transformador na sua criação.
Se alguém disser que perder dois filhos na vida não é terrível, estará mentindo. Ocorreu com Helio Fernandes. É da existência, caso contrário seria impossível acontecer. Agora, se alguém acrescentar aos dois desfechos a magia da arte estará partindo para um outro plano, o da essência.

Vejo agora Helio Fernandes nos dois: tanto no da existência, quanto
no da essência. Que fazer? Apenas pensar que, um dia, nos reencontraremos
todos, um relógio sem ponteiros a nossa frente.

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