A vida obscura do cisne negro da poesia brasileira

O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis, tornou-se conhecido como o “Cisne Negro” de nosso Simbolismo, seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”. Procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social, características contidas no soneto “Vida Obscura”.

VIDA OBSCURA
Cruz e Sousa

Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres,
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste no silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
(Colaboração enviada por Pa
ulo Peres – site Poemas & Canções)

12 thoughts on “A vida obscura do cisne negro da poesia brasileira

  1. “O mundo para ti foi negro e duro.” Cruz e Souza foi um poeta negro e em Vida Obscura deixa transparecer todo o sofrimento diante de preconceitos, revela a dor do homem negro. Ele foi vítima de muitos preconceitos por causa de sua pele negra. Belissimo poema. Este poema foi uma das questões de um ENEM

    • Preta Gil está impactada com as agressões à cor da sua pele. Foi muuito agredida na internet, tal como Taís Araújo, Maju e outras belas negras.
      Isto em 2016! Imagina na época de Cruz e Souza e Lima Barreto, que era mulato.

      Meu irmão, que tem pele muito branca, sentiu as dores de Barreto no livro digital que comprou. E fez muitos comentários sofre o sofrimento dele.

      E hoje, em que tudo é permitido, em que se fala o que quer?

      Uma penitência: durante algum tempo tive também um certo preconceito, embora o Pedro, empregado do meu pai me fosse muito querido com seus mais de 1,90m de altura. Pedro era bom, muito bom. E a isto fomos acostumados, a olhar para o negro com condescendência, não como igual.

      São iguais, cabeças de melão! IGUAIS!

      Ontem, por acaso, assisti à reprodução do programa com a Bianca Ramoneda em que Lázaro Ramos era o entrevistado. Brilhante, engraçado, ator maior.

      Lá nos EUA, Michelle Obama fez o mais belo discurso na campanha de Hillary e se emocionou ao falar que escravos construíram a Casa Branca e hoje suas duas belas filhas brincam nos jardins da casa que habitam como filhas de Obama.

      Quase chorou. Ou chorou?

      É uma covardia o que fazem com as atrizes negras, uma covardia o que fazem com os negros em geral, deveria haver um tipo de punição específica para o racismo que não seja a cadeia.

      Precisava ser alguma coisa que os humilhasse, os fizesse se sentir menores.
      O quê? Também não sei.

      A pensar.

      PS: Nada falo sobre Lima Barreto e Cruz e Souza porque não tenho intimidade com a obra de ambos.

      A ‘escola’ também faz das suas.
      Romantiza as agressões sofridas por escritores como Lima Barreto, que morou perto de mim, meu irmão me disse.

      A casa pode não ser a mesma, não sei, mas há uma construção no antigo endereço do escritor.

      Deveria ter plaquinha na porta: “Aqui viveu Lima Barreto etc etc etc”.

      Ah: e Cruz e Souza é nome de uma rua.

      E tudo o que queriam é ser reconhecidos por suas obras.

      Foram reconhecidos, mas, pra eles, muito tarde. O sofrimento veio antes.

  2. Não entendo porque Preta Gil vem com essa de preconceito. Gilberto Gil, seu pai, nunca sofreu dessa moda de hoje – preconceito. Lázaro Ramos – também assisti a entrevista dele, nunca se queixou de preconceito e entretanto, as filhas de ambos são praticamente de pele branca.A gente precisa analisar quando há racismo, quando se quer IBOPE.
    Ofélia, te admiro muito. Você é uma pessoa culta esclarecida, vai me entender. Quando alguém chama macaco uma pessoa de pele escura é racismo e quando chama um branco de macaco ou macaca?!

    • Acho Carmen, que é porque não existem macacos brancos, existem? Não tô lembrada. Ou se existem eu nunca vi um. Ou esqueci. Ou macaco branco é uma raridade. A maioria tem aquela cor marrom, da antiga série Jim das Selvas.

      Bom, a gente não pode provar que a Preta e as demais foram ofendidas, mas elas dizem que foram. Como saber?

      Ah, Carmen, deve ser ruim ler que se deve voltar pra senzala. Mais pelo ser escravo do que qualquer outra coisa, porque os senhores da terra bem que gostavam das formosas negras. Ainda que a passeio.

      É uma ofensa racial, não sei como reagiria se fosse negra e me chamassem de macaca. Ou me jogassem uma banana, como aconteceu a um jogador (não lembro quem) em campo. “É conforme”, como disse o Sabino. Mas deve doer.

      Talvez melhor seja crer no que nos diz Antonio Rocha. Que na próxima encarnação os que ofendem os negros nascerão negros.

      Talvez seja essa a melhor justiça.

      Fico feliz que você esteja aqui, na TI. Outras entram e desaparecem. Gosto de ler você, Carmen, não vá embora.
      Um abraço

  3. Lima Barreto sofreu muito preconceito racial; foi preterido algumas vezes para exercer cargos públicos.Machado de Assis,era mulato, conviveu num ambiente humilde – Morro do Livramento – não sei se sofreu preconceito. Dizem seus biógrafos que disfarçava seus traços negros, cabelos crespos, lábio inferior carnudo, nariz achatado” pelo uso de “pince-nez, barba” Mas sabia valorizar sua competência.

  4. 1) Grande Cisne Negro Poeta da Literatura Brasileira, Cruz e Souza, reverências !

    2) Desculpem abordar a polêmica sob outro ângulo. De acordo com a Espiritualidade, os racistas na próxima reencarnação voltarão na cor e condição social que tanto criticaram. É a Lei de Causa e Efeito.

    3) Licença: em 27 de julho de 1931, nasce em Esmeralda, MG, o crítico literário Fábio Lucas, autor entre outros de “Crítica sem Dogma (1983)”.

    4) Fonte: BN, Agenda, 1993.

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