A violência está relacionada e identificada com o torcedor?

José Reis Barata

Não. Dificulta e mesmo inviabiliza lidar com a violência apresentada com essa estrita relação, ou seja, diretamente ligada a um outro sentimento, uma paixão popular, o futebol.

Não é uma mera questão de nome, de palavras, mas, da perfeita identificação do fato no contexto dos assuntos humanos. Só por aqui pelo Nordeste é que alguém batizada como Fernanda se identifica é chamada e conhecida como Mariquita até pelos seus mais próximos.

Fica patente que a violência não pode ser relacionada com o papel de torcedor, mesmo da torcida organizada do futebol, e a autoridade policial dispõe e tem competência e meios (teoricamente) para formalizar denúncia de quadrilha quando couber. A experiente autoridade policial anota fatos e julgamentos que, mesmo a qualquer leitor desatento, contradizem ligar violência ao futebol.

A violência publicada transporta consigo uma série de considerações e discussões que, se desprezadas, induzem a interpretações equivocadas e, com estas, mais erros ainda, erra-se duplamente: ignora-se a verdadeira natureza da coisa e se ignora, também, a própria ignorância.

Talvez seja, de logo, possível imaginar o quão verdadeiro é que o homem se sente “mais homem” quando faz de outro o instrumento de sua vontade. Nota-se em seguida que a violência é instrumental. Homens sozinhos, sem outros para apoiá-lo, nunca tiveram poder suficiente para usar da violência com sucesso. Daí que a tendência do delinquente é a formação de quadrilha ou bando.

Poder (questão de não menor teor de complexidade) e violência sempre aparecem juntos, sendo que aquele sempre é o fator primário e predominante. Não, portanto, são o mesmo. São opostos, o que leva à verificação que o oposto de violência não é a não-violência. O absoluto de um exclui outro.

Que a violência é a exteriorização da raiva parece não ser questionável, também que pode ser patológica ou irracional, o que vale para qualquer outro sentimento humano. No entanto, quando se atenta contra objetos substitutos, torna-se extremamente perigosa, posto que irracional. Aparece quando surge uma ocasião que reúne pressupostos para que se suponha que determinadas condições poderiam ser mudadas, mas, não o são, isto é, quando nosso senso de justiça é ofendido.

A violência sempre é tentadora nessas condições, em função de sua “imediação e prontidão”.

A raiva e sua consequência, a violência, pertencem às emoções naturais do humano, verificando-se por isto mesmo, a impossibilidade de extirpá-las, pois, implicaria em desumanização ou castração.

Nas ações grupais desaparece de pronto o individualismo, ensejando uma sólida coerência grupal. O cometimento de uma ação irrevogável, destruindo atrás de si a ponte para a sociedade respeitada, é a senha para admissão na comunidade da violência.

A violência, por sua eficácia, é racional quanto aos fins. Serve para dramatizar queixas e jogá-las no colo da atenção pública. Então surgem como efetiva provocação nas mãos de minorias discordantes que de outro modo jamais seriam notadas. Nesse sentido denunciam sistemas onde não há ninguém a que se possa inquirir. Estágio conjuntural burocrático vital que se vem acentuando junto com as revoltas violentas que eclodem não somente no entorno de estádios de futebol, nas ruas, praças e avenidas do mundo.

Do dito, exigindo não muita reflexão, parece aceitável dizer que: afastados os casos de criminosos patológicos, é um sentimento natural; qualquer grupo político favorece o uso da violência; existem circunstâncias estimuladoras que as oportunizam; não guarda relação direta com o futebol, quando partindo de agentes organizados que demonstram uma forte insatisfação por se notarem sem vez, sem voto, ou seja, ignorados em escandaloso descompasso com o reconhecido poder que possuem, mas não desfrutam. Exigem o poder, e jamais será afastado o comum uso da violência extremada no futebol, mero tipo, enquanto não se lhes concederem uma via pacífica de exercício – não mera fantasia – organizado do poder nos clubes.

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