A visão de um tucano montado num touro

Carlos Chagas

Faltasse uma prova  de que os tucanos perderam a capacidade de voar, não falta mais. Em Barretos, São Paulo, no fim de semana, compareceu o presidente do PSDB e candidato mais forte do partido à sucessão presidencial, Aécio Neves. Montado num touro, em homenagem à Festa do Peão, o senador chegou a dizer que naquela oportunidade iniciava-se a caminhada até o palácio do Planalto. Só que o governador Geraldo Alckmin não compareceu. Muito  menos o ex-governador José Serra.  Nem mesmo o ex-presidente Fernando Henrique. Da bancada do partido no Senado, sua figura maior, Aloísio Nunes Ferreira, também não. Nem os outros.

O racha no ninho dos tucanos vem de muito tempo, marcado pela  presunção dos paulistas, que se julgam donos  e gestores absolutos da legenda. Como deixar que um mineiro  assuma sua liderança e, pior ainda, o governo do país, se por hipótese sair vitorioso nas urnas?  Assim, o melhor  para os paulistas é cortar o mal pela raiz. Não  puderam, ou não quiseram,  impedir que Aécio assumisse a presidência do PSDB. Talvez imaginando obstar-lhe a trajetória no comando da esquadrilha, tornando maior a queda quanto mais alto suas asas alcançarem.

Na verdade, os paulistas preferem ate mesmo arriscar a perspectiva de vitória, sempre pouco clara, mas não deixar um mineiro na liderança.  Lembram a empáfia dos barões do café na República Velha, ainda que naqueles idos de quando em quando apoiassem um mineiro para presidente da República, ainda que sempre compromissado  com os interesses dos cafezais. Os tempo mudaram mas o controle das indústrias e dos bancos permaneceu e agigantou-se em São Paulo. Como esses mineiros podem ter a ousadia de  contestar o Alto Tucanato, expressão moderna dos potentados de antanho?

Tanto Geraldo Alckmin quanto José Serra e,  ninguém se espante, até Fernando Henrique, julgam-se herdeiros naturais da candidatura.  Se algo novo apareceu, como Aécio Neves, melhor  abatê-lo enquanto ainda na pista.  Importa-lhes menos conquistar o palácio do Planalto, se a alternativa for assistir instalado lá um tucano não paulista. Quem abrir um livro de História verá que a arrogância de Washington Luís em não aceitar Antônio Carlos Ribeiro de Andrada para sucedê-lo,  mais do que servir para eleger Julio Prestes, precipitou a revolução e o exílio para os dois paulistas. Como também quinze anos  de ditadura gaúcha.

Barretos constitui um marco na campanha do ex-governador de Minas. Não dá mais para ser enganado. Ou parte para  abrir   espaço nos outros estados,   sem  maiores atenções aos emplumados tucanos paulistas,   ou encontrará sérios obstáculos para alçar voo. Essa visão ele talvez tenha tido quando instalado no dorso de um touro pachorrento e lerdo.

DOIS TESTES

As centrais sindicais, inclusive a CUT, programam greve geral para a próxima sexta-feira. Fica difícil imaginar sucesso no movimento, que imaginam ser nacional, menos pelo desgaste que as atingiu desde a posse do Lula, mais porque o trabalhador deixou de sensibilizar-se por reivindicações fantasiosas como a redução das jornadas de trabalho.  O operário quer ganhar mais e sabe que só trabalhando conseguirá melhorar seu salário. De qualquer forma, é bom aguardar a manifestação.

Para uma semana depois, no Sete de Setembro, as redes sociais começam a convocar o povo sem rosto, não propriamente os baderneiros mascarados,  mas quantos jovens e velhos sintam-se incomodados e indignados com a qualidade de vida que lhes fornecem o governo e o Estado. Desde junho que esses protestos vem acontecendo  com sucesso inegável, não obstante os execráveis excessos. Terá a Nação oportunidade de comparar quem mais influi na realidade: as centrais sindicais ou as redes sociais? O importante é que não se unam, sequer no infinito, como as duas paralelas da Física.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

One thought on “A visão de um tucano montado num touro

  1. Pingback: A visão de um tucano montado num touro | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *