A visita do papa Francisco ao Brasil

João Batista Libânio

Quando no Brasil reinava tranquila a maioria católica, a visita de um papa seria somente sinal de júbilo, confirmação e reforço da religião. Caracterizava-se fundamentalmente como ato religioso. Vivemos outros tempos. Além de crescer a faixa dos não crentes e de crentes sem vínculos religiosos, modificam profundamente o cenário religioso grupos evangélicos hostis às religiões tradicionais, inclusive as oriundas da Reforma. Com mais razão, opõem-se à religião majoritária católica. E a visita do papa Francisco provoca reações de desconforto, apelando para o argumento de que um Estado laico não pode favorecer e gastar por causa de tal visita.

A distinção entre religioso e civil perdeu muito da validez. Seja porque a esfera religiosa ocupa cada vez mais papel no mundo político, haja vista a bancada evangélica na Câmara, seja porque o próprio Estado necessita, não raro, do refrigério religioso para encontrar valores éticos perdidos na cultura. O Estado salva a religião e a religião salva o Estado.

Vimos na fatídica experiência do Leste europeu o que aconteceu com Estados hostis e perseguidores das religiões. Hoje, são lembranças. Mesmo a secularizada Europa convive com surtos religiosos importantes que influenciam a política. Logo após a Segunda Guerra Mundial, a Europa viu dois países ditatoriais ruírem. E os primeiros ministros que a refizeram vieram de alas cristãs e impregnados de seus valores: De Gasperi, Adenauer, Schuman.

Voltando à visita do papa Francisco. Ele transcende a simples figura de líder da Igreja católica. Paulo VI definiu bem a presença de um papa nos dias de hoje. Quando discursou na ONU, disse que se sentia representante de “humanidade”, e não da Igreja católica. A ausência do artigo antes de humanidade alude aos valores que ele pretende defender no fórum mundial de democracia.

DIREITOS FUNDAMENTAIS

No momento em que o Brasil experimenta mobilizações populares, a presença de um líder de humanidade calha perfeitamente. Ele não vem animar os jovens simplesmente para manterem-se fiéis à religião católica, mas para despertá-los para a defesa dos direitos fundamentais do ser humano contra a injustiça social, a arrogância e a corrupção dos poderes.

Desde os primeiros gestos do seu pontificado, a tônica principal bate no ponto chave da proximidade com os pobres, com o povo sofrido. E disso deu magistral exemplo ao escolher Lampedusa para a primeira viagem apostólica do pontificado. Ilha italiana do Mediterrâneo que tem sido palco de enorme tragédia humana. Os migrantes, sobretudo da África, lá aportam e recebem humilhante tratamento, sem falar dos mortos. E o papa lá esteve na primeira viagem. Algo extremamente simbólico e auspicioso para que ele continue na linha de humanidade.

A visita ao Brasil não se restringe ao mundo católico, mas ao todo da realidade brasileira, como alguém que vem reforçar o que as ruas estão a pedir na linha da justiça, da igualdade, da honestidade, da rejeição dos privilégios. Cada dia ele tem mostrado que não quer privilégios, mas viver o mais simples possível no cargo que ocupa. Precisamos de um exemplo como esse!

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4 thoughts on “A visita do papa Francisco ao Brasil

  1. Faltava justamente um jesuíta frugal,disciplinado e austero, como são todos os soldados da gloriosa Companhia de Jesus, fundada pelo grande guerreiro Santo Inácio de Loyola. Quem conhece sua história, sabe quem são seus seguidores e dos que são capazes para refrear as paixões mundanas dos povos e tentar reconduzi-los à Imitação de Cristo. Abraços fraternos.

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  3. Estamos vivendo um momento muito feliz da igreja católica, não só no Brasil mas como em todo o mundo, já que o mundo se reune em um lugar (o Brasil)para reascender sua fé e esperança de uma humanidade mais cristã, apartir de um homem escolhido por Deus (o Papa).O rebanho do Senhor estava precisando de um novo pastor que o conduzisse de uma maneira mais firme na oraçã,na caridade, na humildade,na justiça e no amor.Esse momento já chegou.

  4. Não, tomara que quem está andando e pregando seja o Francisco franciscano, e não o jesuita. Como disse Napoleão em suas memorias, “A Companhia de Jesus não é uma entidade religiosa, é militar” Precisamos de padre, não de soldado.

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