A vitória de Beltrame na Rocinha abala o comércio dos tóxicos

Pedro do Coutto

O êxito total da operação, articulada, coordenada e executada sob orientação do secretário José Mariano Beltrame, revelou amplamente três estágios do crime no Rio de Janeiro, todos eles extremamente críticos: a amplitude do comércio de grande número de pessoas, de várias faixas de idade, em consumir drogas. Não se atina bem por que. Nem elas próprias
sabem.

Por isso mesmo, a vitória de Beltrame mostrou em primeiro lugar que é
possível enfrentar-se o tráfico, como o dirigido por Nem no plano mais próximo, o da revenda. Mas há outros planos ainda mais complexos e misteriosos. Muito importante a entrevista que ele próprio deu à repórter Ruth Aquino, que se encontra nas páginas da revista Época, que circulou na tarde de sábado, véspera da invasão da maior favela do Rio.

É uma síntese do labirinto. Porque ninguém poderá acreditar que ele e seu bando agiam isoladamente. Nada disso. Faziam parte de um esquema que começa com o contrabando de drogas e armas, salta para o consumo, implanta uma estrutura de comércio e daí passa o produto para as mãos de doleiros encarregados de entendimento com o sistema bancário. Não há
dúvida quanto a isso. Nem poderia. As armas e os entorpecentes e alucinógenos vêm pelo mar, pelo ar, através de fronteiras rodoviárias e ferroviárias. Perfeito. Mas como chegam ao alto dos morros da cidade?

Só é possível por dois caminhos finais: por vans e automóveis ou por intermédio de pedestres que sobem as ladeiras que levam às fontes do crime.
Sobem transportando os instrumentos da morte e da devastação humana e descem com a renda que o tráfico proporciona. Para onde vai o dinheiro? Os chefões acima de Nem não se preocupam nem um pouco. O dinheiro é traduzido em dólares, numa parte, e na outra vai para os bancos.

Os dólares, nesse rastro sinistro, destinam-se ao mercado paralelo, ilegal, não autorizado pelo Banco Central, mas que existe em larga escala como todos sabem. A outra parte, a que vai adormecer em contas bancárias, é movimentada internamente através das máquinas de lavagem. Lojas comerciais que não possuem atividade dinâmica, casas de crédito espalhadas por aí que vivem às moscas. Não é difícil identificá-las.

Difícil, entretanto, é identificar o mergulho da ilegalidade no universo de
grandes empresas. Mas não impossível. O Ministério da Justiça e a Polícia Federal devem se dedicar também ao exame de alguns balanços. São publicados nos jornais, como a lei determina. Claro a ilegalidade não vai emergir no papel. Mas sim por intermédio de sintomas de expansão.

Afinal de contas, como disse o físico ítalo-americano, Enrico Fermi,
o que existe aparece. Porém, o mais importante dessa guerra que depois de cinco anos, Mariano Beltrame começa a vencer, é agir forte e racionalmente para reduzir o nível de consumo. Enquanto isso não for concretizado, substitutos de Nem vão sair da sombra e surgir nas primeiras páginas.

Porque o que sustenta o tráfico e seus assassinatos e assaltos é o consumo.
É preciso, portanto, estudar suas causas, quais os motivos da alienação e insatisfação que levam ao uso de drogas. São fortes sob o ângulo psicológico, já que ninguém à toa caminha para a sua destruição com reflexos nos familiares à sua volta. O consumidor não deve ser reprimido. E sim compreendido. O traficante é outro departamento. É um agente mortal. Assim não se considerasse, ao lado dos entorpecentes e alucinógenos, não compraria as armas para sua proteção e destruição dos que ameaçam o sucesso de sua tarefa já por si destruidora.

Beltrame e os policiais honestos venceram a batalha da Rocinha. Agora têm de vencer a guerra.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *