A vitória que o povo do Egito não conquistou, apenas entreviu. 80 milhões de habitantes, há 30 anos triturados por ditadores. Foram para as ruas, protestando, revoltados. Emparedaram Mubarak, entronizaram os militares que o mantinham.

Helio Fernandes

É a eterna luta dos que por acaso chegam ao Poder, nas mais diversas circunstâncias, vão mudando um “pouquinho” de cada vez, dominam com compromissos falsos, promessas enganadoras, falam das coisas que o povo gosta de ouvir. Afinal, é sempre o que pedem, ou melhor, o que o cidadão deseja e aceita como uma dádiva: considerá-los como salvadores, aqueles que vão proporcionar o que sempre desejaram.

Isso serve para Mubarak e o Egito, mas também para ditadores de outros países, principalmente nessa região habitada pelo “povo árabe”. Como ditadores que só querem o Poder e suas maravilhosas vantagens, não se incomodando com o povo, vão acomodando e se eternizando, com esse mesmo povo em silêncio.

Excluída a parte religiosa, fundamental, principal e colossal nesses países, que só sabem e só podem ficar no poder através dessa influência religiosa, vão mistificando de todas as maneiras. No Egito, o povo foi para as ruas em pequeno número, levantados imediatamente pela internet, se transformou num problema não apenas para o Egito, envolvendo praticamente o mundo inteiro.

Todos os vizinhos do Egito (com exceção de Israel, que tem uma democracia singular) vivem em ditaduras. Com os mesmos ditadores, ou então herdeiros. No próprio Egito, Mubarak já se preparava para passar o cargo ao filho Gamal.

Aliás, o auge, o apogeu, a farsa da “eleição de setembro”, se revela por inteiro no episódio do filho Gamal. Mubarak, sem nenhuma resistência ou protesto, anunciou: “Gamal assumirá depois da eleição de setembro”.

Ditador compenetrado, com 80 anos de idade e 30 de Poder absoluto, só tinha confiança nele mesmo, e no filho. Usava esse SETEMBRO DA ELEIÇÃO, como forma de parecer conciliador. Tentou até o fim usar esse setembro da eleição, tão democrática que com 6 meses de antecedência já se conhecia do vencedor.

(Conhecemos bem esse processo, tivemos duas ditaduras escancaradas e outra oculta, que foi [seria] a primeira pelo VOTO DIRETO. Em todos os estados, os “líderes” entregavam as cédulas fechadas com a explicação: “É só colocar na urna”. Alguns perguntavam: “Como vou saber quem é o meu candidato?” Resposta dos marqueteiros da época: “Se o VOTO É SECRETO, como é que você quer saber quem o candidato?”)

Pode ser até alguma decisão proveitosa. Não acredito. Nada chegou ao fim, a não ser o destino do próprio Mubarak. Como está há seis anos com câncer e cientistas respeitados garantem que a depressão aumenta o Poder destruidor do câncer, hoje, quem estará num processo de depressão maior do que o já ex-dirador?

Perdeu o Poder, a Liberdade, a fortuna acumulada (roubada). E aos 81 anos, se sobreviver, sabe que não terá a menor possibilidade de recuperar qualquer coisa.

Não acreditem em nada do que está sendo anunciado como VITÓRIA DO POVO DO EGITO”. Não ganharam nada, ou melhor, perderam tudo. E o mais lamentável, malévolo, exemplo perigoso para o futuro: “Os militares estão assumindo para cumprir as duas principais reivindicações do povo”. Primeiro timidamente, depois levadas em massa para as ruas pelo estímulo da internet.

Quais essas duas reivindicações? 1 – Fechamento do Congresso. 2 – Nova Constituição. Como era exatamente o que os militares queriam e pretendiam, Mubarak não concedia, porque sabia que perderia Poder para eles. Aí afastado Mubarak, fizeram  logo.

Com a garantia (?) de que “não seria preso nem teria os bens congelados”, os militares formaram uma Junta Militar, (que chamaram de Conselho) e fecharam o Congresso. O povo vibrou, “estão fazendo o que pedimos nas ruas”. Como é fácil enganar o povo, mesmo em massa, nas ruas. (Aliás, os poucos que ficaram foram retirados).

O segundo ponto da exigência, a nova Constituição, será CUMPRIDO pelos militares. Haverá uma outra Constituição, lógico, será NOVA. Mas segundo eles mesmos garantem: “Será apresentada em setembro”. Não disseram se antes ou depois da eleição democrática (?) desejada, mas já inteiramente desmoralizada depois de 13 dias do povo nas ruas.

Durante os 6 meses que vão de agora a setembro, governarão sozinhos. Se tiverem tempo disponível, e se considerarem importante, tratarão de alguns pontos da Constituição que mostrarão em setembro.

Mas como governarão sem prestar contas a ninguém, anteciparão itens da NOVA Constituição. 1 – Prisão para os que incitarem o povo à rebelião. 2 – E como isso ocorreu com influência e interferência da internet, alguma surpresa se for cerceada ou censurada?

***

PS – Toda aquela região de ditadores, apesar do Poder exercido por um tempo realmente incalculável, está assustada. (Esse susto construirá alguma coisa? Nada. Mas alguns dias, estarão satisfeitos).

PS2 – Não quer dizer que renunciarão, serão mais atenciosos e complacentes? (Nem usarei a palavra democrática, muitos não concordarão).

PS3 – De qualquer maneira, a situação de complicou. Mubarak saiu, ficaram os generais que o apoiavam. Isso é vitória? Serão meses e meses de incerteza e sofrimento. E sem saber o que acontecerá. Esta é a realidade.

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