A voz e a vez dos anjinhos

Carlos Chagas

Quem se der ao trabalho de analisar em conjunto e não isoladamente os depoimentos dos cinco primeiros advogados dos réus do mensalão chegará à conclusão de terem defendido cinco anjinhos. Arcanjos e querubins expostos à sanha satânica do Ministério Público.

Nenhum dos patronos admitiu o mensalão, palavra, aliás, evitada por todos, pouquíssimo pronunciada. José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Marcos Valério e Ramon Hollerbach foram apresentados como inocentes e injustiçados. Não aconteceu o que se presume acontecerá durante a semana e nas próximas, a acusação de uns sobre outros mensaleiros como forma de saltarem de banda. Isso vai se verificar quando os bagrinhos entrarem em campo, aqueles que imaginam poder safar-se sustentando haver cumprido ordens, sem saber de nada.

Ouvidos com a máxima atenção pelos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, os advogados exerceram o milenar direito do contraditório. Terão se entendido antes, nos dias que se seguiram ao libelo do Procurador-Geral da República. Acertaram os ponteiros, esperançosos de vir o relógio a registrar a vigésima quinta hora, única que, em sã consciência, poderá abrigar a total absolvição de seus clientes.

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DO PLENÁRIO PARA A CADEIA???

Na hipótese de alguns ou muitos mensaleiros virem a ser condenados à pena de prisão, coisa que só ocorreria lá pelo fim do mês, são remotas as chances de saírem direto do plenário para a cadeia. Isso porque as sentenças, para transitarem em julgado, precisarão ser publicadas no Diário da Justiça. Entre a condenação e a publicação, no mínimo 24 horas devem decorrer. Cada condenado terá tempo, aliás mais do que justo, para arrumar sua malinha e despedir-se dos familiares.

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A FORÇA DO JÚRI

Não foi Henrique II, da Inglaterra, que inventou o júri, já frequente na França, ainda que sem o sentido pleno de decisão judiciária. Mas foi o Plantageneta que deu a 12 cidadãos de conduta ilibada a prerrogativa de decidir, no Tribunal do Rei, sobre a sorte dos réus. Até então os julgamentos se faziam de forma diferente, com o juiz ou com Deus decidindo, já que se admitiam, até Henrique II, as sentenças por confronto armado entre as partes ou pelo ferro em brasa, que o acusado se obrigava a segurar: se queimasse, era culpado…

Esse episódio fundamental na História do Direito se conta a propósito do mensalão. O que serão os onze ministros do Supremo Tribunal Federal senão um júri especialíssimo, livre para decidir pela condenação ou absolvição dos acusados. Não se poderá alegar, assim, pressão e intromissão do rei, nem solução pelo Ordálio, que transplantado para os tempos atuais equivaleria dar a vitória a quem mais dinheiro possuísse. Ainda bem.

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“MAS SOU O CHEFE DELE…”

O leitor que decifre o sentido oculto dessa historinha. Estava no auge do prestígio Bernard Montgomey, feito marechal-de-campo, vencedor de El Alamein e chefe dos exércitos ingleses que invadiram a Alemanha e logo ajudariam a derrotar o nazismo. Presunçoso e arrogante, foi perguntado pelos jornalistas a que se devia aquela fulgurante trajetória de guerreiro. “Escrevam aí: é porque eu não bebo, não jogo, não fumo e não prevarico!”

Winston Churchill, ainda primeiro-ministro, ficou com ciúme. Chamou os jornalistas e disse: “Podem publicar que eu bebo, jogo, fumo, prevarico e sou o chefe dele…”

Quem será quem, em nosso cenário político?

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