A voz irada da gentalha

Sebastião Nery

O pai, africano, foi brigar na Indochina como soldado francês. Acabou a guerra, voltou, o filho nasceu em Paris e era motorista de táxi. Um cidadão francês negro. Tinha pavor de Nicolas Sarkozy, o candidato da direita à presidência da França, nas eleições de maio de 2007:

– Sou um cidadão francês igual a ele. Sou filho de pai africano e mãe francesa. Ele é filho de pai húngaro e mãe grega judia. Mas, se ele pudesse, eu seria expulso da França como “imigrante”. Só porque sou negro. Ele é um racista. Tem horror de negro, de árabe, de muçulmano, de latino-americano. Se for presidente, primeiro vai querer proibir novos imigrantes de entrarem aqui. Depois, vai querer mandar embora os que já estão aqui. ”

Sabendo que éramos brasileiros, pôs uma musica de Gal Costa (“em homenagem ao Brasil”) e continuou seu discurso:

–  A direita aqui sempre foi maior do que a esquerda. Mitterrand ganhou em 81 e 88 porque a direita se dividiu. Unida, ela ganha. Mas a direita que nós chamamos de ‘civilizada”, como De Gaulle, Pompidou, Giscard, Chirac, não mete medo ao povo. Esse Sarkozy, não. É um herdeiro político disfarçado do racista Le Pen.O senhor vai ver. Se ganhar,vai querer repetir o que fez em 2OO5  e os imigrantes vão se revoltar e tocar fogo.

– E foi ele mesmo quem fez?

– A culpa foi dele, porque era o ministro do Interior e mandava na polícia, que chegava nos bairros negros e árabes prendendo e batendo nos jovens. Os dois meninos de 15 anos não estavam fazendo nada, apenas correram com medo da polícia e foram eletrocutados em uma cerca elétrica da estrada de ferro. A reação popular veio na hora, queimaram milhares de carros. Ele, ministro, foi lá e, em vez de acalmar, chamou o povo de “gentalha”,“escória”.E disse a uma mulher, que estava na janela com medo:

– Fique tranquila, vamos fazer o “kocher” neles. (O que fazem alguns açougues: cortam a carótida, a jugular, para o sangue escorrer.)

SARKOZY

Como em todas as eleições presidenciais da França, desde 1959 (e 1969, 1974, 1981, 1988), eu estava lá para ver  e escrever. Naquele maio de 2007  havia um surpreendente interesse pelas eleições, sem igual nos últimos 50 anos. O segundo turno seria entre Sarkozy da centro direita e Ségolène Royal do PS (Partido Socialista), apoiada por toda a esquerda.

Grande parte desse calor eleitoral vinha dos subúrbios, das periferias desempregadas, onde milhões de filhos de imigrantes não conseguiam trabalho, perambulavam pelos bares e estações do metrô.

Os filhos de africanos, árabes, turcos, latino-americanos, com a morte dos dois jovens amigos, se rebelaram, montaram barricadas nos “banlieues” (subúrbios),  queimaram milhares de automóveis e ouviram o ministro do interior, Nicolas Sarkozy, chamá-los de “gentalha”, “escória”,  e dizer que os subúrbios precisavam “ser lavados com jatos d’água”.

DUAS FRANÇAS

Na esquina, o árabe das frutas sorriu desconfiado quando lhe perguntei em quem ia votar. Hesitou, depois abriu o jogo:

– Ségolène, claro. Ela nos defende.

No restaurante Lipp, dos jornalistas, intelectuais ou turistas vadios, bem no coração do Saint Germain, os maitres, garçons, todos, brancos, franceses, começaram falando baixo, daí a pouco era quase um comício:

– Sarkozy! Se continuar essa invasão de imigrantes, não vai haver mais emprego  para nós que somos franceses.Eles trabalham mais barato.

“Eles” eram a “gentalha” de Sarkozy  que  era  preciso “lavar com jato de água”. Ganhou Sarkozy. Na reeleição, perdeu para Hollande, do PS.

O POETA NAS RUAS

Nossos jovens lotam as ruas com seus cartazes e slogans. O primoroso poeta carioca Manoel Monteiro  também estava lá com seus bravos versos:

– “Acorda, meu povo, / o sol já vai longe. Cada dia que passa / é uma nova ameaça / ao nosso amanhã”. /Não deixe a noite chegar/será tarde  demais./ Quem dorme não faz./ Para que esperar?”

Manoel Alves Monteiro tem 80 anos. E foi pra rua, foi!

 

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6 thoughts on “A voz irada da gentalha

  1. Sr Nery, por aqui temos os nossos Sarkozys.

    O Sr José Eduardo Dutra, leia-se parasita de carteirinha, teve o desplante de fazer o seguinte comentário:

    Eles que fiquem com as passeatas, nós ficamos com as urnas, num profundo desprezo pelas massas.

    Além desse inútil, pode ter certeza, temos muitos e muitos, INFELIZMENTE.

  2. O plebiscito dos espertalhões vai tropeçar na revolta da rua e desaparecer no sumidouro que engole malandragens eleitoreiras

    Augusto Nunes

    O plebiscito sobre a “reforma política” é o mais recente lançamento da usina de pirotecnias eleitoreiras instalada pelo bando de vigaristas, ineptos e gatunos que está no poder há mais de dez anos ─ e lá quer ficar para sempre. Atarantados com a revolta da rua, a presidente Dilma Rousseff e seus conselheiros trapalhões imaginam que a manobra malandra vai esvaziar o pote até aqui de cólera que enfim transbordou para as ruas de centenas de cidades. Versalhes reencarnou no Planalto.Os espertalhões não demorarão a descobrir o tamanho da encrenca em que se meteram.

    As multidões sem medos nem donos já não suportam a impunidade dos corruptos, o apodrecimento dos sistemas de saúde e educação, a gastança debochada dos exploradores da Copa do Mundo, o cinismo dos políticos profissionais, a institucionalização da trapaça, da tapeação, da promessa que não descerá do palanque. Em sua essência, as palavras de ordem reiteradas nos atos de protesto, encampadas pela imensa maioria do país que pensa, exigem a imediata interrupção da Ópera dos Canalhas.

    Os mágicos em ação no picadeiro do Planalto acham que, com um plebiscito malandro, vão mandar os manifestantes de volta para casa, livrar a chefe de vaias desmoralizantes, inverter a curva perturbadora desenhada pelas pesquisas, reeleger Dilma Rousseff no primeiro turno e correr para o abraço. Vão todos quebrar a cara. A esperteza da hora será tragada pelo mesmo sumidouro onde jazem, agonizam ou sobrevivem com injeções bilionárias de dinheiro público tantos projetos delirantes, invencionices diversionistas, façanhas imaginárias, milagres de araque, maluquices perdulárias e ideias natimortas.

    Um balanço ligeiro informa que, até agora, o legado do governo lulopetista já inclui

    o Programa Fome Zero,
    as três refeições por dia,
    o fim da pobreza,
    o extermínio da miséria,
    o Programa Primeiro Emprego,
    o trem-bala,
    a Ferrovia do Sarney,
    a ressurreição da rede ferroviária em ruínas ,
    a transposição das águas do Rio São Francisco,
    a rede nacional de hidrovias,
    as 6 mil creches prometidas em 2010,
    as 6 mil casas na Região Serrana do Rio prometidas em 2011,
    os 6 mil agentes especializados na prevenção de enchentes,
    os 6 mil médicos cubanos,
    o sistema de saúde que Lula considera “perto da perfeição”,
    a importação do SUS pelos Estados Unidos,
    a recuperação das rodovias federais,
    a autossuficiência em petróleo anunciada em 2007,
    a entrada na OPEP a bordo das jazidas do pré-sal,
    a chegada da Petrobras ao topo do ranking das maiores empresas do ramo,
    a vaga no Conselho de Segurança da ONU,
    o poderio econômico do Mercosul,
    a conquista do Nobel da Paz por Lula,
    a candidatura de Lula a secretário-geral da ONU,
    a esquadrilha de caças franceses,
    a fórmula milagrosa que rebaixa qualquer crise econômica a marolinha,
    os pitos telefônicos de Lula em George Bush,
    as advertências de Lula a Barack Obama,
    a Copa do Mundo de matar argentino de inveja,
    a Olimpíada de assombrar dinamarquês,
    o colosso de “obras de mobilidade urbana” legado pelos dois eventos esportivos,
    o terceiro aeroporto de São Paulo,
    os 800 novos aeroportos distribuídos por todo o país,
    a reforma e ampliação dos aeroportos das capitais,
    os recordes de popularidade estabelecidos por Lula e Dilma,
    o controle social da mídia,
    a regulamentação da mídia,
    a promoção de Dilma a superexecutiva onisciente,
    o doutorado em economia da doutora em nada,
    o PT detentor do monopólio da ética,
    o partido que não roubava nem deixava roubar,
    fora o resto.

    A lista será ampliada pelo plebiscito que é mais que uma tentativa de golpe: é também a confirmação de que os chefões do lulopetismo e seus comparsas não conseguem ou não querem ouvir a voz da rua. Essa espécie de surdez invariavelmente eleva em milhares de decibéis o som da fúria. E acaba consolidando a certeza de que governantes como Lula e Dilma só ouvem com nitidez a palavra de cinco letras que, gritada em coro pela multidão, costuma prenunciar o final infeliz: basta.

  3. A voz irada, caro Nery, está ficando “insegurável”.
    E a estupidez da canalhada … só faz aumentar.
    O resultado disso? Parece um filme velho …
    Mas, poderá ser um filme novo. O sociólogo catalão Manuel Castells crê que “o Brasil vai influenciar países vizinhos a se manifestarem” …
    A Reinado da Mentira e da Corrupção pode estar com seus dias contados.
    Obrigado, Nery, por tudo!!!

  4. Eu acho que tenho a solução para o Brasil…
    Devemos restaurar a monarquia.
    Após algum tempo, novamente mudaremos para a REPUBLICA, e agora sim…
    Com tudo de errado que foi feito, poderemos, pela não repetição, chegarmos ao nosso glorioso futuro!!!!!!

  5. Sarkozy,agora está colhendo os “frutos” de sua política patética.
    Os franceses,sempre foram tidos e havidos,como liberais,mas não é bem assim.
    Alguns são maravilhosos,outros são fétidos,assim como esse sarkozynho.
    Mas,está passando da hora,de nossa voz irada,ir para as ruas,também.

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