A voz perdida do Papa Leão XIII

Lucas Alvares

Émile Berliner, engenheiro americano de nome francês e sangue alemão, em um estalo de dedos determinou que seus técnicos pusessem em funcionamento o mais novo equipamento de gravação. As paredes da Capela Sistina, que ainda escutavam o canto dos castrattos – jovens cantores que tiveram seus ductos deferentes cortados durante os primeiros anos para que mantivessem a voz infantil – silenciaram para o registro de uma oração:

– Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus…

Um pontifício pigarrear interrompeu o registro, que foi reiniciado:

– Et benedictus Fructus Ventris tui, Jesu…

Leão XIII

Era 1903. Não existia máquina que cortasse uma faixa musical ao meio. Por interregno de uns cem anos, o Sound Forge estava fora do ar. Com muito jeito, o camerlengo pediu ao velho homem, de 93 anos, que reiniciasse sua Ave Maria tridentina. Do começo. E foram gravadas mais duas ou três vezes até que Berliner, discretamente judeu, em um novo estalar de dedos – e sem fones de ouvido – aprovasse a gravação. O disco seria mandado prensar em Londres. Não em cera de carnaúba, como os nossos, mas em goma-laca.

Algum tempo depois, Berliner deixaria de trabalhar para a Gramophone londrina e migrou de vez para os Estados Unidos, onde se tornaria pioneiro dos motores aeronáuticos. Quanto aos discos, desapareceram de Roma e a voz que perdurou em seus sulcos se calou para sempre meses depois.

UM PAPA DE COROA

No decorrer do século, encontraram o rosto de seu dono em um filme de 1896, a abençoar exoticamente os espectadores cercado por um séquito de arcebispos de preto. Sua benção tinha algo de mística. Sentava no trono, andava de liteira e usava coroa – eufemisticamente chamada de “tiara papal”. Fora cardeal aos 43 anos. Ao se tornar padre, já era doutor em teologia.

Vincenzo Gioacchino Rafaelle Luigi Pecci Prosperi Buzzi, o Cardeal Pecci, foi também eminência parda do Vaticano em tantos papados quanto sua longa vida pôde presenciar antes do próprio. Assumiu o pontificado com o pomposo título de Leão XIII, nome que remetia a altivos soberanos eclesiásticos que perseguiram, condenaram e mandaram para a fogueira inimigos do papa séculos antes. E mesmo no trono, na liteira e com o nome ameaçador, foi um dos mais dóceis bispos de Roma.

Ditou suas “Encíclicas Sociais”, onde condenava o capitalismo e lançava as bases da democracia cristã. E consequentemente da chamada Doutrina Social Católica, uma das mais valorosas invenções do pontificado, que alimentou a paradoxal aliança entre setores da Igreja e a dialética marxista. Marxismo que, diga-se, também fez questão de excomungar, sem contudo discordar energicamente de seus diagnósticos.

Como um médium, só botava branco. E flertou com a Ordem Franciscana, muito embora fosse um acadêmico sem tanto gosto pelo monastério. Foi, antes de tudo, exercício diário de caridade e ator de um dos mais longos e bem-sucedidos pontificados da História.

OS DISCOS DE BERLINER

Os discos prensados por Berliner foram encontrados na Inglaterra tempos atrás e enviados de volta para seu local de gravação. Foram apresentados nos anos 90 com toda a cerimônia como um dos mais antigos registros de voz ainda preservados e, em especial, como documento de uma personalidade de vulto.

O Papa Leão XIII comportava-se, na simplicidade de seus filmes e discos, como um franciscano sem efetivamente tê-lo sido em toda a sua formação como sacerdote e teórico. Afinal, mais do que um dístico,”Paz e Bem”, representadas na estranha e algo tétrica saudação de Leão XIII a seus fiéis nas pálidas imagens do século XIX, são duas palavras que representam um estado de espírito, um propósito, um “programa de governo”.

O Cardeal Bergoglio, jesuíta e missionário por definição, ao abarcar valores que os votos de vida simplória e desapego material proporcionam, age com a grandeza e o sentido histórico que seu antigo par observou em seu mandato como personagem da saga humana. Dialoga, abre mão, barateia, customiza sem personalizar excessivamente. Acena com propostas democráticas que se contrapõem a seu suposto beneplácito à ditadura argentina nos anos 70. Age com o carisma dos vencedores e, ao mesmo tempo, carrega o olhar plácido de quem se martiriza sem nem conhecer ao certo o porquê. É contraditório como todos os papas.

Se o “Papa de Hitler” era “Pio”, a Companhia de Jesus é o oposto à causa fransciscana. É a opulência da PUC-Rio, do Colégio Santo Inácio. Mas é, também, uma trajetória bem-sucedida de universalização de dogmas e práticas. Ao que se propõe, uma multinacional de sucesso. Seu real grau de influência ao, pela primeira vez, atingir o papado é assunto em aberto.

Mas Francisco, sábio ao enxergar os ensinamentos do “franciscano de liteira”, pode ditar um novo paradigma a uma instituição que perde fiéis a cada girar de ponteiro. Mais do que dialogar, é preciso reformar. Fazer do “plano de governo” encrustado no nome que escolheu um propósito dioturno de transformação e difusão de sua mensagem. Afinal, muitas encíclicas e bulas foram lançadas urbi et orbi em tantos séculos.

Mas encíclicas verdadeiramente sociais, como as de Leão XIII, só tivemos as dele. Que Francisco observe que, embora não seja um partido político, uma instituição de caráter transformador como a Igreja Católica poderá desviar uma economia “insustentável” do caminho de sua própria destruição.

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