Abominvel mundo novo

Carlos Chagas

O Ano Novo comea daqui a poucas horas e no vamos atormentar a pacincia do leitor com filigranas partidrios, ministeriais ou at presidenciais. Melhor aproveitar o cio do fim de ano com tema mais importante. A vida, de amanh em diante.

Reparou o leitor nos detalhes do seu dia-a-dia? Pois . A gente acordado e levanta da cama por conta de um desses irritantes relgios de cabeceira que ignoram nossas variveis horas de sono, ficam apitando e, sem que tenhamos manifestado nossa opinio, interligam-se com um programa de rdio ou de televiso, daqueles que nesta manh no nos interessam. Pouco importa a essa mquinas diablicas, por sinal chinesas, se tivemos insnia ou no, durante a noite, e se gostaramos de ficar mais quinze minutos deitados.

A parafernlia da mquina de fazer caf emite sinais os mais variados, solta fumaa e, se no estivermos diante dela no momento certo, espalhar pelo mrmore da pia bebida fria ou pelando. Ao abrir a geladeira para pegar um mamo, bom no esquecer a porta aberta por mais de um minuto, seno ela comea a imitar a radio-patrulha, com detestveis e interminveis bips. Partindo do princpio de que preferimos banho frio, deixamos de ligar o chuveiro eltrico, mas, se precisarmos ligar, cuidado: ele fatalmente far cair o disjuntor e cortar toda a eletricidade da casa.

Na hora de sair, ser preciso apertar mil teclas em cdigo para acionar o alarme, mas no h um dia na semana em que, errando o dedo indicador, no recebamos um aviso da empresa de segurana sobre j estarem vindo gorilas para enfrentar um ladro inexistente.

Na garagem, um horror. Primeiro, a maquininha que abre o porto automtico, sempre em desacordo com nossas intenes, vida por emperrar a grade e levar-nos chave manual. Quando no nos atingem ainda em meio retirada. No veculo, um vestibular inteiro de ciberntica: a tecla que abre a porta, a outra que liga o motor, a que baixa o vidro e a que aciona o ar refrigerado, todas funcionando apenas se estiverem de bom humor. O rdio, Deus nos livre. Jamais acertamos a emissora das notcias, agredidos com mil botes que tocam msica caipira e anunciam produtos que, de raiva, jamais compraremos.

No caminho para o trabalho, comea a luta entre mocinhos e bandidos. Onde estaro, hoje, os pardaizinhos camuflados que nos obrigam a trafegar a cinquenta quilmetros por hora, com a opo de multas de duzentos reais a cada poste?

No escritrio, as mil chaves para abrir a porta que qualquer meliante ter aberto antes. H que ligar o computador, mesmo velho, e tem incio as estaes do calvrio. O motor escondido no cho, as teclas de ligao, as de ingresso da Internet e, se no tiver havido um desarranjo que apagou a memria e mudou o tipo das letras, seguir-se- a inglria luta para abrir os e-mails enviados durante a noite. Anncios aos montes de miraculosos produtos para evitar a ejaculao precoce, para performances sexuais dignas do Casanova, para assinar tais ou quais jornais e para manter encontros com maravilhosas garotas de programa que, se acionarmos a tecla para apreciar suas fotografias, mostraro aos remetentes o nmero de nossas senhas e de nossas contas bancrias.

Se precisarmos tirar algum dinheiro do banco, ou fazer transferncias, a hecatombe universal. No fim, verificaremos no haver saldo, em meio a mil taxas de servios que pagamos por depositar nosso dinheiro nos bancos, aqueles que tempos atrs pagavam juros pelos nossos depsitos.

Intervalo para o almoo, que precisamos deglutir na prpria mesa de trabalho. Se pedirmos, via Internet, um sanduche de ovo frito sem bacon, a certeza de que vir um misto quente com bacon e sem ovo frito.

Haver que escrever, no caso dos jornalistas, o artigo dirio para os assinantes, mas as agncias encarregadas de distribu-los fatalmente avisaro haver recebido versculos da Bblia ou contos erticos do Marqus de Sade em vez do texto combinado.

Nesse meio tempo tocou mil vezes a mais diablica das mquinas inventadas pela humanidade, o telefone celular. Quem fala, o Carlos? Aqui a Margarida. Voc no gostaria de trocar de provedor? No adianta dizer que estamos no trnsito ou ocupados com uma gravao, porque a malsinada interlocutora ligar de novo perguntando se chegamos bem ou se gravamos um comentrio criticando o governo Lula.

O tempo passa, recebemos pelo correio montes de propaganda incua. Pedidos para ingressarmos na ONG que tenta salvar as barbas do camaro do Mar Vermelho e a memria de Ramss II. Como descobriram nosso endereo um mistrio, mas fica pior quando os prprios entram em nosso computador para indagar se vamos festa do centenrio da descoberta dos besouros que no voam ou quermesse para a recuperao dos gatos cegos.

Se precisarmos sair para um entrevista ou conversa com alguma autoridade, o fim do mundo. Exigem, no Congresso ou fora dele, identificaes, cartes de identidade, declaraes de fidelidade a este ou aquele partido poltico, gravata, meias pretas e provas de que votamos no candidato preferido do nosso interlocutor.

Depois, a volta para casa. Na caixa do correio, notificaes do Imposto de Renda para apresentarmos os recibos de despesas mdicas da dcada de oitenta. Exigncias da Previdncia Social para comprovarmos haver trabalhado 40 anos nesta ou naquela empresa, apesar das evidncias impressas em livres que a gente cultiva, no sei se por egomo, vaidade ou maldade. A ameaa de deixarmos de receber nossas miserveis aposentadorias. Alm de convites aos montes para a inaugurao de novos centros comerciais, exposies de artistas desconhecidos e fabulosas chances de enriquecer depositando mensalidades a preos mdicos.

O elevador no funciona, h que subir oito andares. Depois, o mdico se queixa de que no fazemos exerccio. A chave no entra na fechadura. As teclas do dispositivo anti-ladro confundem-nos com o prprio, voltam a apitar e precisamos provar aos seguranas que somos os proprietrios. O lanche deixado pela empregada no forno de microondas queimou, ela esqueceu de deslig-lo. No dia seguinte, comear tudo de novo.

Por conta desse abominvel mundo novo, percebemos porque Scrates, Plato e Aristteles brilharam tanto na busca do conhecimento e da sabedoria. Tinham muito tempo para pensar…

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