Acabar com os ricos e com os pobres?

Carlos Chagas

Nada como uma campanha eleitoral embolada no segundo turno para despertar revelaes inusitadas. Esta semana o presidente Lula, numa espcie de desabafo emocional, declarou que jamais os ricos ganharam tanto dinheiro como agora, em seu governo. Insurgia-se contra meia dzia de vaias desfechadas contra sua carreata em favor da candidatura Dilma Rousseff, ao atravessar um bairro de manses de gente rica, em Curitiba. Dois dias depois, em Goinia, falou a mesma coisa.

Certssimo em seu diagnstico, o primeiro-companheiro confirmou o que se supunha ser uma aleivosia de seus adversrios. Realmente, banqueiros e especuladores, investidores, bares da industria, do comrcio e dos servios jamais foram to favorecidos quanto no governo do PT. Basta conferir os balanos.

O singular nesse episdio que os ricos, apesar das benesses, continuam preferindo Jos Serra a Dilma Rousseff. Confiam desconfiando do Lula, mas quando se trata da candidata, extravasam seus temores de forma absoluta. Temem que ela, eleita, possa retornar pregao inicial e longnqua do partido, de acabar com a pobreza s custas da riqueza, iniciativa mais ou menos prxima das palavras do ento primeiro-ministro de Portugal, Otelo Saraiva de Carvalho, em seu dilogo com Olav Palme, saudoso primeiro-ministro socialista da Sucia. Saraiva, no auge de seu delrio revolucionrio, disse ao interlocutor que em Portugal estavam quase chegando ao objetivo final da revoluo dos cravos: acabar com os ricos. Palme sorriu e retrucou que em seu pas estavam tentando precisamente o contrrio: acabar com os pobres…

A exploso do Lula exprime a perplexidade do atual momento brasileiro. Dilma promete acabar com a pobreza, ao tempo em que o seu mentor d sinais de voltar estratgia verbal do passado, ameaando os ricos. Seria at bom se a troca patrimonial pudesse acontecer assim, num passe de mgica, mas ningum garante que exterminando os ricos, a consequncia ser o desaparecimento dos pobres.

GUERRA BOLVIA?

Mais uma vez o candidato Jos Serra abordou a questo de nossas fronteiras, prometendo polici-las para acabar com o contrabando de armas e o ingresso de drogas em nosso territrio. Citou a Bolvia como fator principal de suas preocupaes, anunciando dura ao da polcia federal, das foras armadas e demais instituies encarregadas da represso.

O diabo que a economia desse pas-irmo repousa essencialmente na produo de coca, quer dizer, vive da cocana e sucedneos. Erigir um muro entre os dois pases, alm de burrice, seria incuo. Apelar para os bons sentimentos do presidente Evo Morales, uma iluso. Caso eleito, o ex-governador paulista ficaria sem outra sada seno fechar a fronteira com a Bolvia e botar a tropa de prontido. Qualquer incidente transformar-se-ia num caminho sem volta para o rompimento com La Paz. Depois, ningum sabe…

NO D PARA FICAREM OFENDIDOS

Agora o instituto Vox Populi a atravessar o samba. Ao contrrio do Ibope, Datafolha e Sensus, sua previso d 12 pontos de diferena para Dilma, na pesquisa contra Serra. Os concorrentes vinham diminuindo a diferena entre os dois candidatos, que j estava em 5 pontos. De repente, amplia-se o espao entre eles. Aceitar que o povo mudou outra vez, volvel que ? Contestar metodologias, desconfiar de alinhamentos ou apenas aguardar a verdadeira pesquisa, dia 31? O que fica at hilariante registrar a ofensa dos institutos sempre que se lhes revelam falhas e discrepncias.

QUALQUER DIA ELE EXPLODE

Quem parece em vias de explodir o deputado Michel Temer, candidato a vice na chapa de Dilma Rousseff. No que tenha diminudo sua participao na campanha, porque de fato ela nunca existiu. Aqui e ali o presidente da Cmara pode ser visto num palanque, mas integrar o alto comando e opinar sobre as grandes decises, nem pensar. tolerado, mesmo assim de vez em quando.

Caso a candidata saia vitoriosa, Michel aguardar ser chamado, mas jamais para preencher ministrios conforme sua escolha, muito menos da cpula do PMDB. Receber pratos-feitos, restando saber se frios, apimentados ou dormidos.

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