Ações tópicas não atingem as raízes da violência no Rio e S.P.

Pedro do Coutto

Os trágicos acontecimentos no Rio e na cidade de São Paulo revelam nitidamente que ações tópicas, superficiais, não chegam às raízes da violência e não são capazes de conter os réus reflexos na sociedade. Basta dizer que bandos criminosos passaram até a atacar a Polícia Militar e a invadir delegacias. Uma guerra cotidiana entre a lei e as investidas assassinas contra ela.

As UPPS, no Rio, sem dúvida, marcaram um avanço. Reduziram a criminalidade. Porém não foram suficientes para conter a escalada do crime, cada vez mais intensa. Porque recebe cobertura direta e indireta da corrupção.

Os redutos do tráfico, de onde partem as ações, encontram-se fortemente armados. Como os seus integrantes recebem armamentos até de uso militar exclusivo? Sempre se disse que tais artefatos da morte e da mutilação vêm de fora. É verdade. Mas como chegam ao alto dos morros? Como chegam aos becos e labirintos de São Paulo? São transportados por portos, aeroportos, estações rodoviárias e ferroviárias até esses locais. E não só isso. As munições são respostas regularmente. Sem as munições, armamentos não funcionam. Logo, existe um sistema organizado nas duas capitais.

Por que não há identificação sobre tal mecanismo? Bastaria uma pesquisa cotidiana. Identificada a trilha, não haveria maior problema para seu bloqueio. Neste ponto a corrupção atua, entra em cena. Sem neutralizá-la, todos os demais esforços vão resultar em poucos efeitos positivos. Mas como tudo é relativo, as populações ameaçadas sentem um alívio. Mas não é suficiente isso. Não pode haver conformismo ou conservadorismo em torno de um tema tão vital.

A crise se propaga, atravessa as décadas, ameaça o futuro. Sim. Porque basta comparar o que era o Rio, por exemplo, há 50 anos, e o que é hoje. Os apartamentos nos andares térreos desapareceram dos edifícios, por exemplo. O hábito de sair à noite diminuiu acentuadamente, inclusive como recente pesquisa do Datafolha revelou. São Paulo e Rio são outras cidades atualmente. Qual a saída?

Difícil encontrá-la. certamente. Mas nem por isso os governadores Sérgio Cabral e Geraldo Alckmim devem deixar de se empenhar para chegar a um ponto de ação efetivo. O consumo de drogas mantém-se elevado. O tráfico de armas também. As condições urbanas decaem. Falta até iluminação pública. Em vários casos, políticos se antepõem a ela. Porque no dia em que for instalada, a reivindicação de áreas pobres desaparece e os deputados e vereadores ficam sem motivo para lançar promessas. Em inúmeras situações é inevitável, e até legítima a iniciativa dos vereadores e deputados estaduais que dependem do executivo para desenvolver sua atuação comunitária. Tudo bem.

Mas os governadores e prefeitos podem enfrentar o peso dos pedidos ajustando-os a seus programas voltados para as comunidades. Claro que por si tal projeto não será capaz de resolver o impasse enorme em que nos encontramos. Mas reduz.

Outra forma de combater o crime é fortalecer ao máximo a iluminação pública. Se forem realizadas pesquisas sérias, seja pelo IBOPE, seja pelo Datafolha, as autoridades vão se deparar (e identificar) milhares de áreas de sombra onde incidem as maiores partes dos assaltos, roubos de carros, furtos, assassinatos, invasão de residências. Na verdade, ninguém está efetivamente seguro nas duas principais metrópoles do país.

A corrupção nos altos escalões, como as desencadeadas por Carlos Cachoeira e Fernando Cavendish, soma muito para a subversão da ordem urbana. Tornam-se exemplos capazes de incentivar o crime e os criminosos. Estes sentem-se psicologicamente amparados pelos exemplos dos ladrões de casaca, para citar uma das obras de Hitchcock. Se lá em cima, estão roubando, indagam os agentes da violência, porque não posso roubar também? Este argumento voltado para a autojustificativa é falso, mas seus efeitos reais. Rio e São Paulo atravessam um labirinto.

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