Acusação de Machado a Temer é inconsistente e demonstra a má fé de Janot

Janot fez uma “livre interpretação” do depoimento de Machado

Carlos Newton

A revista Istoé revelou há dois meses que a presidente Dilma Rousseff está sendo tratada para esquizofrenia, mas deve ser outra doença, e contagiosa, porque de repente o procurador-geral Rodrigo Janot também parece ter-se contaminado e também deve estar tomando medicamentos de tarja preta, tal a confusão que tem aprontado desde a interinidade de Michel Temer. Como se sabe, seu pedido de prisão de caciques do PMDB causou surpresa e controvérsia, porque as provas eram frágeis demais, nas conversas gravadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado.  Estava prestes a ir preso e então procurou os velhos amigos e cúmplices, que tentaram consolá-lo para que não os dedurasse.  Foi o que aconteceu.

Mas o surpreendente Janot logo transformou as gravações numa trama diabólica para destruir a Lava Jato, como se isso fosse possível acontecer num país como o Brasil sem que os militares dessem um golpe para restabelecer a ordem. E imediatamente pediu ao Supremo a prisão de Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney.

PASSOU VERGONHA – É constrangedor um procurador-geral da República enviar uma denúncia desse nível ao Supremo e ser desconsiderado. O fato é que o ministro-relator Teori Zavascki nem lhe deu maiores explicações. Simplesmente negou, em poucas palavras, a absurda denúncia:

É fato que as gravações realizadas pelo colaborador revelam diálogos que aparentemente não se mostram à altura de agentes públicos titulares dos mais elevados mandatos de representação popular. E que, de qualquer modo, o Supremo Tribunal Federal, em reiterados pronunciamentos, tem afirmado que, por mais graves e reprováveis que sejam as condutas supostamente perpetradas, isso não justifica, por si só, a decretação da prisão cautelar“, disse Zavascki, que  recusou também a busca e apreensão pedida por Janot, porque o procurador não apontou atos concretos e específicos, demonstrando que os três agiram para interferir nas investigações. Traduzindo: Janot passou vergonha.

AGORA, ACUSA TEMER – De repente, nesta quarta-feira, o site de O Globo saiu com outra estranha bomba. Desta vez, ao encaminhar o pedido de delação premiada de Machado, o procurador acusou diretamente o presidente Michel Temer. Primeiro, relacionou o chefe do governo como uma das autoridades com foro privilegiado sobre as quais a delação traz detalhes. Depois, listou os possíveis crimes existentes a partir da narrativa de Machado: organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, “com envolvimento do vice-presidente da República, de senadores e deputados federais”, vejam a que ponto de irresponsabilidade chegou este procurador-geral.

Caramba! Janot não somente foi logo “envolvendo” Temer, como também atribuiu a ascensão dele à Presidência da República a uma trama diabólica para obstruir a Lava-Jato. “Os efeitos desse estratagema estão programados para serem implementados com a assunção da Presidência da República pelo vice-presidente Michel Temer e deverão ser sentidos em breve, caso o Poder Judiciário não intervenha”, advertiu Janot, ameaçando os ministros do Supremo, como se o tribunal fosse integrado por deficientes mentais.

CITAÇÃO IMPRECISA – O fato concreto, desprezado por Janot, é que, juridicamente, a citação de Temer por Machado é imprecisa e sem maior consistência. Vamos conferir a transcrição do depoimento:  

“Que, sobre a conversa gravada d 10/3 com Sarney, o depoente esclarece que, quando disse “pro Michel eu dei”, referiu-se ao Vice-Presidente Michel Temer; Que Michel Temer apoiava, na eleição municipal de 2012, salvo engano, o candidato a prefeito de São Paulo Gabriel Chalita; Que Chalita não estava bem na campanha; que o depoente foi acionado pelo Senador Valdir Raupp para obter propina na forma de doação oficial para Gabriel Chalita; Que posteriormente conversou com Michel Temer, na Base Aérea de Brasília, provavelmente no mês de setembro de 2012, sobre o assunto, havendo Michel Temer pedido recursos para a campanha de Gabriel Chalita; Que o depoente se identificou ao adentrar a base aérea; Que o automóvel utilizado fora alugado pela Transpetro junto à Localiza, não lembrando o depoente o modelo; Que o contexto da conversa deixava claro que o que Michel Temer estava ajustando com o depoente era que este solicitasse recursos ilícitos das empresas que tinham contratos com a Transpetro na forma de doação oficial para a campanha de Chalita; Que ambos acertaram o valor, que ficou em R$ 1,5 milhão; que a empresa que fez a doação – no valor ajustado – foi a Queiroz Galvão.”

TRADUÇÃO SIMULTÂNEA – O depoimento de Sérgio Machado deixou claro alguns fatos concretos e irrefutáveis:

1) O senador Valdir Raupp (então presidente do PMDB) pediu “doação oficial” de empresas ligadas à Transpetro, e não propinas para caixa dois, pois quando político fala em “doações oficiais”, é claro que não está tratando de propinas;

2) Machado é que tomou a iniciativa de procurar Temer, que então “pediu recursos para a campanha de Chalita”;

3) Temer não falou em propinas, pois Machado apenas declarou que “o contexto da conversa” é que indicava que se tratava de recursos ilícitos;

4) “Contexto da conversa” não é prova aceitável em nenhum tribunal do mundo civilizado, e o procurador Janot tem obrigação de conhecer essa realidade jurídica.

TRADUÇÃO FINAL – Fica demonstrado que Janot está agindo de forma altamente irresponsável para tumultuar o momento político e desestabilizar o governo Temer, que mal começou.

Com adverte o grande jurista Ives Gandra Martins, que se diz preocupado com “a criação de uma crise seletiva por parte do bom procurador-geral”, não é qualquer solicitação que deve ser examinada em função dos elementos apresentados, “sem que sejam considerados outros aspectos, principalmente o do evitar uma crise nacional”.

Mas o procurador Janot está desconhecendo tudo isso, em seu afã de destruir Michel Temer, para que haja novas eleições e o poder continue com seus amigos do PT. E la nave va, cada vez mais fellinianamente.

23 thoughts on “Acusação de Machado a Temer é inconsistente e demonstra a má fé de Janot

  1. Há advogados e rábulas; para estes, exame de ordem; para QI (quem indica) a ordem dos tratores não altera o viaduto…(ou a ordem dos fatores não altera o produto)…

  2. No Antagonista
    ————————————
    Renan é do PT
    Brasil 16.06.16

    Sérgio Machado disse que Michel Temer retomou o comando de seu partido, em 2014, para controlar os 40 milhões de reais repassados do PT para o PMDB.

    Andréia Sadi, dois anos atrás, quando ainda estava na Folha de S. Paulo, mostrou claramente que o rolo foi armado por Renan Calheiros e Aloizio Mercadante, e que Michel Temer teve de interceder para salvaguardar as outras correntes do PMDB:

    Negociação envolvendo o repasse oficial de recursos financeiros do PT para o PMDB abriu uma crise entre os dois partidos, os maiores da coligação pela reeleição da presidente Dilma Rousseff.

    Sem aval do comando peemedebista, o presidente do Senado, Renan Calheiros, costurou o recebimento de uma ajuda de campanha de R$ 35 milhões (…)

    O vice-presidente da República, Michel Temer, foi informado da exclusão da maioria do partido no repasse e exigiu que fosse feita uma distribuição igualitária para todos os candidatos da sigla.

    Segundo relatos ouvidos pela reportagem da Folha, a negociação com Renan foi acertada com Aloizio Mercadante, ministro da Casa Civil. Por meio de sua assessoria, o ministro negou que tenha tratado do assunto com Renan ou com qualquer liderança do PMDB: “A Casa Civil não trata das finanças de campanhas, sendo este um tema exclusivo dos partidos” (…)

    Um peemedebista da cúpula da legenda explica, sob a condição do anonimato, a “dependência” da doação intermediada pelo PT: segundo ele, o empresário doa com mais facilidade “para quem manda’’. Auxiliares do comitê presidencial afirmam que a ordem é ajudar, mas só depois que conseguirem resolver a campanha nacional.

  3. Caro CN,
    Não vou comentar o seu artigo porque ele é simplesmente irretocável. Faz muito bem à alma , em meio a tanta sujeira e irresponsabilidade , ler um texto original , um pensamento livre de raiz ,uma mente que não se afasta dos fatos ,e que continua compromissada , antes de qualquer outra coisa, com o Brasil.
    Um grande abraço

  4. Que estabilidade institucional pode ter um país onde correm 193 processos ocultos ? Quem garante que não teremos mais novidades?
    Não adianta colocar uma plaquinha ” Sob Nova Direção ” em casa de Noca ! A Carmen Lúcia é a única que está enrolada.

  5. A bipolaridade se faz notar: ontem, Janot era bestial; hoje, é uma besta. Cá não temos analistas, temos torcedores. Agradou, aplausos. Não foi assim ? Vaias, apupos, xingamentos …

  6. O Janot, Renan e tantos outros, que vieram da gestão petista, fazem parte da herança maldita deixada pelo PT.
    O que se percebe é que o PGR e o PT estão fazendo de tudo parra desestabilizar o governo Temer. O General Pimentel tem toda a razão quando disse: O Presidente interino, não chega a ser o líder que sonhamos, mas é ele a esperança disponível para travessia desse período negro da nossa história política e garantir num clima de relativa paz as eleições gerais de 2018.

  7. Não votei no PT e portanto nem no Temer, mas acho que o país precisa dar uma estabilizada. Não sei quais as reais intenções de Janot ao divulgar estes depoimentos de Machado envolvendo o atual Presidente, mas deveria vir acompanhado de provas, senão pode-se encarar como só como uma maneira de tumultuar o Governo e o já combalido país.
    Não sei como anda a relação de Renan e Temer, mas está na mesa de Renan um pedido de impeachment de Rodrigo Janot, que depois do pedido de prisão feito por este ao Presidente do Senado, um aceite ao tal pedido fica mais fácil, e quem sabe conte até com uma forcinha do Temer.
    Conjecturas.

  8. Recordar é viver… O único Senador que defendeu o impeachment do Janot, de forma ardorosa foi o Collor….. Vejam o que o Alma Honesta 14.0 falava do Collor, enfim se reuniu a ” monarquia ‘…

    Em novembro de 1978 candidatou-se e foi eleito deputado estadual pelo MDB. Com a extinção do bipartidarismo e a consequente reorganização partidária, filiou-se ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), sucessor do MDB. Entre 1980 e 1981 foi o deputado estadual líder da bancada do PMDB na Assembleia do Estado de Alagoas.

    Na época, o prefeito da cidade de Maceió era Fernando Collor de Mello, alvo de ferozes críticas do PMDB. Em seus discursos na Assembleia, Renan chamava o prefeito de “príncipe herdeiro da corrupção”.

  9. Artigo com ótimo encadeamento lógico, por isso mesmo informativo. Não basta trazer a notícia, é preciso interpretá-la sob a luz dos fatos. O resto é tergiversação. E é a correta interpretação que nos interessa.

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