Acusados, os tucanos se defendem

Carlos Chagas 

Ainda que a Polícia Federal tenha pedido trinta dias para apurar quais os autores do boato a respeito da extinção do bolsa-família, no fim de semana que passou, cresce no palácio do Planalto a impressão de  o bico dos tucanos haver acionado a tramóia.  É cedo para acusações, em especial se forem injustas, mas a lógica no governo segue a célebre máxima dos inquéritos policiais: a quem interessa o crime? No caso não há mordomo, nem mesmo um cadáver, pois o bolsa-família até ficou com mais saúde depois desse  atentado, que não terá sido o primeiro,  nem  será o último.

A reação é forte no PSDB, diante dos primeiros  rumores de que poderia ter partido de seus responsáveis esse infantil e  perigoso assalto. Dizem Aécio Neves e seus seguidores terem sido eles, no governo Fernando Henrique, os inspiradores da  política assistencialista. Como, então poderiam querer sabotá-la, se já declararam muitas vezes que o bolsa-família continuará quando eles retomarem o poder?

Os tucanos não acusam, mas sugerem ter partido dos aliados da presidente Dilma tamanha crueldade para com os menos favorecidos. Gente do PMDB, insatisfeita com o descaso recebido do governo? Ou companheiros sequiosos de afastar a sombra da reeleição, empenhados em fazer do Lula o candidato ideal para 2014?

São absurdas essas hipóteses, como irreal também é a suposição de ter havido uma combustão espontânea nas sofridas massas que precisam do bolsa-família para sobreviver. A Polícia Federal tem demonstrado competência nas sucessivas investigações em que se vê empenhada, ainda que desta vez necessite de muito esforço. Em pelo menos doze estados a multidão dos menos favorecidos ganhou as ruas em desespero, tornando-se difícil controla-la. Culpar as redes sociais pelo acontecido é o mesmo que punir o termômetro por causa da febre.

A conseqüência política dos acontecimentos do último fim  de  semana é óbvia: mais se acirrarão os ânimos entre governo e  oposição. Golpes desferidos abaixo da linha da cintura provocam, no mínimo, seus contrários.

SUBINDO  UM DEGRAU

Por conta da humilhante aprovação da medida provisória dos Portos pela Câmara e pelo Senado, curvando-se a maioria às imposições do Executivo, a reação no Congresso é de buscar mais independência e menos submissão. A primeira idéia, defendida até mesmo pelos presidentes das duas casas, é de aprovar até julho o tantas vezes sustentado mas nunca realizado Orçamento Impositivo, ou seja, todas as emendas individuais apresentadas por deputados e senadores devem ser honradas pelo tesouro, impossibilitando-se contingenciamentos, delongas, negativas  ou simplesmente o dar de ombros da presidência da República. Se aprovada a emenda constitucional, seria impossível não cumpri-la.

Uma coisa é o plano do ser e outra do dever ser,  como  sustentavam juristas e filósofos alemães do Século XIX, o tal “Zein” e  “Zollen”,  que fazem a alegria dos estudantes de Direito.

O que acontecerá, no entanto, se o Orçamento Impositivo for aprovado e, na hora de liberar o dinheiro, o governo informar ou alegar que não tem? O presidente da República estaria incurso em crime de responsabilidade e sujeito a um processo de impeachment? Ou alegaria que para cumprir as exigência dos políticos, precisaria cortar despesas em educação e saúde? Para que lado penderia a opinião pública numa tal situação? Imprimir papel-moeda ou desrespeitar o Legislativo? Seria bom que  Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros pensassem bem, antes de desencadear o processo…

O BARÃO, OUTRA VEZ

Mais uma de Aparício Torelli,  o inesquecível Barão de Itararé. Ele havia entrevistado João Cândido, o “almirante  negro”,  líder da Revolta da Chibata, quando os  marinheiros se revoltaram nos navios de guerra da Armada e  ameaçaram a República com seus canhões. Tiveram suas reivindicações atendidas, caso contrário bombardeariam o litoral do Rio de Janeiro.

Receberam  anistia, rendendo-se, mas em seguida foram criminosamente punidos. João Cândido ficou louco, tantos mal-tratos recebidos, quando concedeu ao Barão prolongadas entrevistas.  Só saiu a primeira reportagem, pois logo depois oficiais de Marinha invadiram o  escritório do jornalista, levaram-no para um ermo, na Barra da Tijuca e o amarraram  num poste, obrigado a engolir as páginas do jornal. Libertado, retornou ao trabalho, mas colou um cartaz na porta de sua sala de trabalho: “Entre, sem bater…”

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2 thoughts on “Acusados, os tucanos se defendem

  1. Nem precisa investigar muito. O corrupto Eduardo Cunha ( pau-mandado do Cabraladrão ), já não havia avisado à Presidente que viria chumbo grosso?
    Aí está!

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