Aécio acuado, Serra tranquilizado. Arraes não recebeu salvo-conduto da ditadura. Mas viajou autorizado, para a Argélia, dominada por comunistas. Decepção, frustração, desilusão com Felipão e a seleção. Bautista Vidal (e Millôr), tristeza e saudade.

Helio Fernandes

Defensores, enrustidos ou escondidos, representantes do regime militar, garantem: “Arraes teve salvo-conduto em 1964, para viajar para onde quisesse”. Quase perto, mas longe do que aconteceu. Arraes estava em Fernando de Noronha (com o também governador Seixas Dória) quando chegou um general de três estrelas para conversar com ele.

O governo militar que se instalava tinha um problema difícil. Podia soltá-lo e certamente ele se transformaria num mártir, numa liderança popular antiditadura. Impensável. Seria mantido preso, a ala mais insensata dos golpistas poderia tentar assassiná-lo. O torturador amador, o que preocupava os golpistas mais sensatos. Impensável.

O general fez uma proposta que Arraes, lógico, aceitou na hora. Os termos: “O senhor está inteiramente livre, tem uma semana para viajar para onde quiser, no exterior”. Despedida até amigável, Arraes viajou para a Argélia, que acabava de se libertar da França (golpe de mestre de De Gaulle), dominada por uma ditadura comunista, chefiada por Boumediene.

Isso durou três ou quatro meses, Arraes mandando de verdade. Boumediene foi derrubado, mas o regime comunista continuou, e Arraes também. (A queda de Boumediene, que morreu em Argel de uma estranha doença sanguínea, com suspeitas de envenenamento, resultou num excelente filme, com Jean Louis Trintignant fazendo o papel do ex-ditador).

 RENAN E A TRANSPETRO

Durante as horas de tramitação da MP dos Portos pelo Senado, em alta velocidade, Renan tinha fixação nessa importantísima diretoria da Petrobras. É que há anos Sergio Machado (ex-senador pelo Ceará) é presidente, indicado por ele. Que chegou a admitir que a Transpetro teria outro titular.

Eram três amigos inseparáveis, que combinaram: os três seriam governadores do Ceará. Tasso Jereissati foi o primeiro. Depois, Ciro Gomes, mocíssimo. Quando chegaria a vez de Sergio Machado, não chegou. E dois anos depois não se reelegeu senador.

A salvação foi mesmo a Transpetro. Pelo visto, vai se aposentar lá. Ceará? Nunca mais. Confirmando a importância da empresa: mandou construir 14 navios, nem precisou consultar Dona Graça. E esta foi transformada pela Forbes na mulher mais poderosa do Brasil, acima de Dona Dilma.

Há!Ha!Ha! Dona Dilma pode demitir Dona Graça quando quiser, Dona Graça nem pode ir ao Planalto quando quer, tem que ser chamada. A Forbes não sabe de nada, vejam as classificações que sistema dava para o Eike Batista.

A IMPOPULARIDADE BATE À PORTA

Arrogante, voltada para ela mesma, ocupando quase que diariamente a televisão, com discursos chatíssimos, quer evitar pesquisas. No país, Lula está junto com ela. No PT (que é imprescindível), Lula está disparado na preferência. Dona Dilma não sabe o que fazer. E coletivamente não tem ninguém com autoridade e intimidade para uma análise. Isenta, mesmo que contrária.

PREFEITURA DE NOVA IORQUE

O já bilionário Michael Bloomberg, em 2000, resolveu se candidatar a prefeito da cidade, na eleição do ano seguinte. Formou um grupo especializado, pediu: “Quero que façam um plano para minha campanha e quanto vai custar”. Seis meses depois estava pronto, apresentaram a ele.

Examinou, o custo era de 170 milhões de dólares, fez um cheque, anunciou a candidatura pelo Partido Republicano. Contestaram, foi “acusado de corrupção”. O tribunal responsável decidiu: “Como pode ser corrupção, se o dinheiro é dele?”. Na frente nas pesquisas, precisaram de mais 50 milhões, deu outro cheque.

Ficou 12 anos, agora com 71 anos, já longe dos republicanos, não quer mais. Sucedendo ao grande prefeito Giuliani (que saiu para ser presidente, não conseguiu), é exaltado e aplaudido em praça pública.

Curiosidade; antes de assumir, tinha 13 bilhões de dólares na lista da Forbes. Sai com os mesmo 13 bilhões, na mesma lista que faz o levantamento. Quase todos podem ser corruptos. Mas quem tem 13 bilhões e financia a própria campanha, não serve a si mesmo nem a ninguém.

BAUTISTA VIDAL, QUE TRISTEZA

Não queria escrever sobre ele, como não escrevi quando o Millôr foi embora. É muita emoção e admiração que não se continha ou se resumia em palavras. Eu e ele tivemos conversas demoradas e maravilhosas. Quase toda semana me surpreendia com um artigo ainda mais profundo do que o anterior.

Não era o cientista, o engenheiro, o professor, era a inspiração permanente, a inspiração inflamada, principalmente contra a omissão e a submissão. Não entendia a vida sem combate. Talvez por isso combatesse por tantos.

Bautista e Millôr, duas saudades de agora, mais que ficarão para sempre.

ELEIÇÃO NO ESTADO DO RIO:
NEM MISTÉRIO NEM MALABARISMO

São vários os supostos ou pseudos candidatos a governador. Mas só existe um verdadeiro: Lindbergh Farias, do PT. Garotinho, que já foi potência eleitoral, caiu muito no debate (?) da MP dos Portos.

Foi o primeiro a denunciar a participação e as facilidades para Daniel Dantas. Excelente, mas precisava votar contra. Apoiando o governo, se perdeu. Os outros candidatos jamais existiram.

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PS – Conforme era previsto, nenhuma restrição ao Felipão, até elogios pelo empate difícil com a insuficiente Inglaterra. Esta já ganhou uma Copa do Mundo, em 1966, em casa. E com o gol da vitória, na final, contestado até hoje. Eu estava lá, em Wembley, 47 anos depois ainda não posso garantir se foi gol ou não.

PS2 – O filho de Adilio está fazendo um documentário sobre o Flamengo, campeão do mundo de 1981. Pode ser excelente. Três desses campeões do mundo (Zico, Júnior e o próprio Adilio) estavam anteontem na Arena da Barra, junto com mais 16 mil pessoas, vendo o Fla ser bicampeão de basquete nacional.

PS3 – Magnífica a apresentação de Neymar ao Barcelona. Foram horas e horas de exibição, carinho de centenas de crianças, aplausos de estádio praticamente lotado.

PS4 – E a entrevista, de alto nível. Nunca torci para alguém dar certo como fiz com o grande jogador. 21 anos, incrível personalidade, não se deslumbrou nem se intimidou. E no último ano, não era ele quem decidia, eram os brasileiros que bradavam: “Neymar tem que ir para a Europa”. Foi.

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8 thoughts on “Aécio acuado, Serra tranquilizado. Arraes não recebeu salvo-conduto da ditadura. Mas viajou autorizado, para a Argélia, dominada por comunistas. Decepção, frustração, desilusão com Felipão e a seleção. Bautista Vidal (e Millôr), tristeza e saudade.

  1. A logica da direita arcaica em nosso pais, e’ esta nao aceita uma MULHER, NORDESTINO OU NEGRO para presidente. LULA chegou la pensando o corrupto, recalcado gov. FHC que voltaria ‘por cima’ porque LULA seria pior que ele, dai a SEQUENCIA. Ninguem fala mais no negro para presidente, esqueceramm JB.

  2. Estatuto do Índio, do “dimenó”, do Adolescente……E quando é que vão aprovar o Estatuto do Cidadão Honesto, trabalhador e pagador de impostos??

  3. Prezado Delmiro, esse estatuto será aprovado no dia em que esse grupo for uma “minoria” em nossa sociedade. É claro que estou tomando como premissa que ainda é maioria, mas não garanto.

  4. ESCREVO POR AQUI PORQUE NÃO ENCONTREI OUTRO MEIO, MAS NÃO PRECISA PUBLICAR ESTE COMENTÁRIO.
    Caríssimo HÉLIO FERNANDES, sou uma jovem jornalista e venho fazendo há 3 anos uma série de entrevistas com pessoas que viveram a ditadura. Recentemente, inclusive, foi repercutida aqui a informação (errada) veiculada pelo jornal “O Globo” de que Casaldáliga apoiava o novo Papa. E eu comentei que as coisas não eram bem assim, já que eu havia falado por telefone com ele e ele também havia feito críticas a Francisco pela colaboração com a ditadura Argentina. Relembro isto agora, por que Casaldáliga foi o mais recente entrevistado da série que citei no início. Estive lá com ele no Araguaia, assim como estive com várias outras pessoas que lutaram bravamente contra o medo instalado em 64. Todas as entrevistas dessa série podem ser vistas pelo link que vou colocar abaixo, que é do site que mantenho. Entre os meus entrevistados, além de Casaldáliga, estão: Dr. Hélio Bicudo, Carlos Eugênio Paz, Aluízio Palmar, Brigadeiro Rui Moreira Lima, Dr. Modesto da Silveira, dentre outros. Essa série vai virar livro, que pretendo publicar ano que vem, quando se completarão 50 anos do golpe. O livro se chamará “O problema é ter medo do medo”, em homenagem ao Casaldáliga, que me disse essa frase. Haverá um capítulo destinado à censura na imprensa e estou sondando vários jornalistas. Meu sonho é que um de meus entrevistados para este capítulo seja o HÉLIO FERNANDES, o homem mais vezes preso na história do Brasil. Deixo abaixo o link das entrevistas que já fiz, na esperança de haver alguma chance de eu ver este sonho realizado. Abraços.

  5. NEOBUGRES DESCOBREM A AMÉRICA
    Janer Cristaldo

    A Polícia Federal descobriu um líder indígena do Amazonas, habitué de cerimônias com autoridades como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua sucessora, Dilma Rousseff, não é índio. Para a PF, Paulo José Ribeiro da Silva, 39, o Paulo Apurinã, fraudou o Rani (Registro Administrativo de Nascimento de Índio), RG indígena emitido pela Funai. É o que conta a Folha de São Paulo.

    Até parece novidade. Neste país em que os escândalos andam em cachos, o apurinã é apenas a ponta do iceberg. Depois que terras e cotas foram distribuídas a negros e índios, suas populações cresceram como cogumelos após a chuva. Corrupção no Brasil é meada. Basta puxar um fio e vem o novelo todo junto.

    Em 2010, o IBGE registrou o crescimento de 205% na população indígena do país. Para chegar a este número, o Instituto somou aqueles que se autodeclararam indígenas e os que vivem em terras indígenas, que tiveram pergunta à parte. Os índios, hoje, somam oficialmente 896,9 mil pessoas, de 305 etnias, que falam 274 línguas indígenas. Em 1991, os índios somavam 294 mil. O número chegou a 734 mil no Censo de 2000, 150% de aumento na comparação com 1991. Em apenas nove anos, triplicaram suas populações. Nem muçulmano consegue tal taxa de fertilidade na Europa.

    Descobriram mais tribos no país? Nada disso. Os índios é que descobriram a América. Ou melhor, os brancos que descobriram que ser índio é melhor. Vamos à notícia. Após um ano e meio de apuração, Paulo Apurinã e sua mãe, Francisca da Silva Filha, 56, foram indiciados sob suspeita de falsificação de documento público.

    Entre os indícios de fraude, diz a PF, estão a ausência de dados genealógicos e de estudos antropológicos, além de depoimentos de índios que negaram a origem dos dois. A própria mãe de Silva, em depoimento à PF, disse ter tirado os nomes indígenas dela e do filho – “Ababicareyma” (mulher livre) e “Caiquara” (o amado) – de um dicionário de tupi-guarani. Eles não falam a língua apurinã. A propósito, ouvi recente entrevista do apurinã recém-saído do forno. Usa um “di” carioca demais para um autóctone da Rain Forest.

    “Esses documentos foram adquiridos mediante fraude com colaboração de uma funcionária da Funai”, afirmou Sérgio Fontes, superintendente da PF no Amazonas, sobre os registros obtidos em 2007. Nem só Paulinho lucrou com a fraude. Com a flamante identidade, sua mãe entrou como cotista no curso de turismo da Universidade Estadual do Amazonas.

    Ora, não é de hoje que a imprensa vem denunciando a fábrica de índios no país. Em maio de 2010, Veja publicou reportagem sobre a nova indústria, com ênfase ao estado do Pará. Em Santarém, tentou-se criar uma etnia indígena, a dos boraris, que viviam em Alter do Chão, a praia mais badalada do Pará. Com pouco mais 200 pessoas, a etnia assimilou a cultura dos brancos de tal forma que desapareceu no século XVIII. “Em 2005, Florêncio Vaz, frade fundador do Grupo Consciência Indígena, persuadiu 47 famílias caboclas a proclamar sua ascendência borari. Frei Florêncio ensinou-lhes costumes e coreografias indígenas”, dizia a revista.

    Segundo a reportagem, o auto-intitulado “cacique” Odair José, de 28 anos, reclamou do fato de Veja tê-lo visitado sem anúncio prévio. “A gente se prepara para receber a imprensa”, disse. Não houve guia que apitasse antes, como no caso de meus amigos franceses. Seu vizinho Graciano Souza Filho afirma que “ele se pinta e se fantasia de índio para enganar os visitantes”. Basílio dos Santos, tio do “cacique”, corrobora essa versão: “Não tem índio aqui. Os bisavôs do Odair nasceram em Belém”.

    A revista destacava ainda que os falsos boraris queriam uma área de 800 quilômetros quadrados para apenas 47 famílias. Bem maior do que o reservatório previsto da hidrelétrica de Belo Monte – hoje sob cerco dos bugres, orientados por funcionários da Funai e religiosos do Cimi – que terá 500 quilômetros quadrados e beneficiará mais de 20 milhões de brasileiros com energia de matriz limpa. Se a reserva dos falsos índios fosse mesmo criada – dizia a Veja – 800 pessoas poderiam perder o emprego nas empresas instaladas na região.

    O novel apurinã flagrado pela PF não é desconhecido dos leitores. Em novembro de 2011, os jornais noticiavam um crime hediondo cometido por Paulinho. Comentei o assunto neste blog.

    Por estar carregando um cocar, o pseudobugre foi barrado por um fiscal do Ibama quando tentava entrar na área de embarque do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Após discutir com policiais federais, ele acabou detido por desacato, algemado e levado à sede da Superintendência da PF Amazonas. Segundo Sebastião Souza, agente ambiental federal do Ibama, o indígena não poderia embarcar levando seu cocar, alegando que ele era feito de penas de animais silvestres e não tinham o “selo” do Ibama. Os jornais falavam então em líder indígena. O Ibama esqueceu de apitar antes da entrada de Paulinho.

    Porta-voz do Mirream (Movimento Indígena de Renovação e Reflexão do Amazonas), o Silva da selva ganhou notoriedade em 2009, após liderar invasões de terras públicas para assentar índios sem teto, quando enrolou até mesmo aquele outro Silva, o do planalto. Em outubro de 2011, presenteou Dilma e Lula com cocares – que provavelmente tampouco tinham o selo do Ibama – na inauguração de ponte sobre o rio Negro.

    Mas a cocar dado não se olha o selo. As fotos empenachadas circularam, como símbolo de integração, em todos os jornais. “O meu cocar está com a Dilma”, disse o pseudobugre à Folha, nesta semana. Vai mal a Presidência da República, quando seus serviços de informação desconhecem a real identidade dos papagaios de pirata do Planalto.

    De lá para cá, a Mulher Livre e o Amado enganaram o país, o presidente do país e a imprensa toda do país. Até nuestros vecinos querem participar da boquinha. Em 2008, Roseli Maria Luiz, coordenadora das Ong Recovê, levantou provas de que paraguaios e bolivianos se passavam por índios e moravam em aldeias da região de fronteira, onde a Funai fazia os famosos estudos antropólogicos que futuramente pode resultar em demarcações.

    “São muitas as denúncias que temos de falsos índios que fazem documento no Brasil e recebem benefícios, fruto de nossos impostos”, afirmou Roselina ocasião. “As denúncias são muitas, mas o problema é levantar a documentação”. Em janeiro deste ano, dizia o antropólogo Edward M. Luz, mestre e doutorando pela Universidade de Brasília, ao ser interrogado pelo eventual fim do processo de demarcação das terras indígenas:

    – Boa pergunta. Quem sabe? Como estão as terras indígenas hoje? Quando eu ainda estava na universidade em 1996, já ouvíamos falar que mais de 95% das sociedades e povos indígenas no Brasil já tinham suas terras demarcadas. Na verdade não existe hoje uma sociedade indígena que não tenha uma terra demarcada. Todas as sociedades tem suas terras demarcadas e reconhecidas no Brasil. Existe mais de 600 áreas demarcadas totalizando aproximadamente 14% do território nacional. Quando eu saí da FUNAI em 2008, haviam 250 demandas por novas demarcações de terras indígenas. Em 2009 já eram cerca de 360 demandas, em 2011 foram mais de 450 novos pedidos e suponho que o número atual já ultrapasse 500 novos pedidos. O que isso representa? Se não houve aumento no número de comunidades indígenas o que isso nos revela?

    – Pasmem senhores, o que aumentou foi o número de pessoas se passando por índios, reivindicando terras indígenas. São grupos de movimentos sociais se passando por indígenas. O que está ocorrendo no Brasil é uma desapropriação agrária escondida sob o manto do ressurgimento étnico. É uma reforma agrária às avessas. Só para se ter uma ideia do que estou falando, eu como antropólogo, já vivenciei diversas situações onde supostos indígenas reivindicavam terras. Como já falei, quase 14% do território nacional está demarcado para povos indígenas e, recentemente, uma deputada federal do Amapá subiu à tribuna para dizer que é uma vergonha que este país tenha até hoje demarcado apenas 1/3 das terras indígenas. É só fazer um cálculo simples. Se 1/3 equivale a 14% do território nacional, o pleito pode chegar a pelo menos 42%. Isso mostra que a demanda de interesses desses grupos é absolutamente irreal, absolutamente desproporcional. Não há uma lógica proporcional entre a população brasileira e a população indígena. Mesmo que sejam hoje cerca de 800 mil indígenas existente no Brasil. Um pleito de mais de 40% do território brasileiro em detrimento aos quase 200 milhões de brasileiros. Eu já sabia que o pleito era de aproximadamente 25% do território a ser demarcado como terras indígenas, o que já era absolutamente desproporcional, e veja que agora já se fala em mais de 40%. Por isso não se sabe onde isto irá parar.

    Não vai parar, professor. Assim como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) transformou o Brasil em um país negro em 2005, jogando negros e mulatos num mesmo saco – isto é, destruindo o mulato, como fizeram os Estados Unidos – em breve a Funai acabará descobrindo que o Brasil é um país índio.

    Assim como os neobichas estão descobrindo o casamento com véu e grinaldas, os neobugres descobriram a América e não irão largar o osso.

  6. O caso Waldir Ximenes, 49 anos depois

    Blog de Jamildo – JC – Online, 30/03/2013

    Túlio Velho Barreto, cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

    Há uma foto bastante emblemática da saída do governador Miguel Arraes do Palácio do Campo das Princesas em 1º de abril de 1964, no momento em que ele era conduzido à prisão, após ter sido deposto pelos militares que lideraram o golpe civil-militar em Pernambuco.

    Nela, pode-se ver seu cunhado, Waldir Ximenes, então presidente da Companhia de Revenda e Colonização (CRC), dirigindo um fusca, tendo ao lado um militar, e, no banco de trás, o governador deposto, escoltado por um segundo militar.

    Ximenes, como era conhecido, era, igualmente, conselheiro político informal de Arraes e, naquele dia, participara de longas reuniões no Palácio ao lado do prefeito do Recife, Pelópidas Silveira, e do superintendente da Sudene, Celso Furtado, entre outros aliados.

    O grupo passara o dia analisando os últimos fatos e possíveis desdobramentos, até que, finalmente, foi dada voz de prisão ao governador e ordem para que todos deixassem o Palácio. Ximenes não foi preso na ocasião, mas não escaparia dos porões da ditadura.

    Funcionário do Banco do Brasil (BB), Ximenes assumiu a CRC após a posse de Arraes, em 1963. O órgão fora criado, em 1958, ainda no Governo Cid Sampaio.

    Mas, segundo o professor da UFPB Gustavo Ferreira da Costa Lima, em estudo sobre o tema, foi na gestão de Ximenes que a CRC passou a encarar “de forma bastante ampla a estrutura agrária”. Para tanto, ampliou o acesso ao crédito rural e atuou de forma “bastante dinâmica e diversificada” no setor de revenda, áreas tidas como estratégicas para a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores do campo.

    Por sua atuação à frente da CRC, e pelo fato de ser um dos mais próximos auxiliares de Arraes, Ximenes foi sequestrado, preso e torturado já em abril. Na ocasião, nem sequer os familiares sabiam onde ele estava e das torturas sofridas.
    Isso só foi possível após várias denúncias, que geraram um inquérito, logo engavetado. As torturas registradas ocorreram nos dias 18, 20 e 21/04/1964, no Regimento de Obuses, em Olinda.

    Mas, segundo familiares, pode ter se prolongado. O fato é que quase o mataram. Isso fica evidente após a leitura do corajoso laudo do médico Lalor Motta, que dá detalhes das torturas a que Ximenes foi submetido.

    Com efeito, o referido exame físico em Ximenes só foi realizado em 15/06/64, após sua transferência para o Hospital Geral do Exército (HGE), e conclui que ele “foi vítima de graves lesões traumáticas”.

    Além disso, traz detalhes das sessões de tortura, que incluía horas de espancamento no “pau de arara” e inúmeros choques elétricos, e aponta as lesões provocadas, incluindo duas vértebras quebradas, um rim deslocado e nervos das mãos afetados. O laudo foi feito a pedido de médicos do HGE, que não quiseram receber Ximenes sem o registro do que ocorrera antes, com receio que ele viesse a morrer ali, tal era o seu estado.

    As torturas deixaram sequelas físicas e, ainda em 1966, foram denunciadas no livro Torturas e Torturados , de Marcio Moreira Alves, que, para escrevê-lo, entrevistou médicos e militares que estiveram com Ximenes no HGE. E, pela descrição do caso, parece estar baseado, também, no laudo de quatro páginas do médico Lalor Motta, então professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Recife, hoje, UFPE.

    Depois, no dia 09/10/64, Ximenes ainda seria exonerado do BB por meio de decreto da Presidência da República.
    O caso Ximenes é semelhante ao do padre Henrique, já analisado pela Comissão Estadual da Memória e da Verdade.

    De fato, assim como o padre Henrique era um dos mais próximos colaboradores de Dom Helder é possível dizer o mesmo de Ximenes em relação a Arraes. E como a ditadura não podia atingi-los, diretamente, sequestrou, torturou e matou o padre Henrique e quase fez o mesmo a Ximenes. Portanto, a Comissão só completará plenamente sua missão se casos como o de Ximenes forem esclarecidos e trazidos a público.

  7. Minha informação na época da saída do Arraes do Brasil foi que o embaixador argelino no Brasil conspirava com o general Boumedienne para derrocar o Ben Bella, precisava retornar urgentemente para ocupar um cargo no futuro governo e negociou com os militares brasileiros para poder retornar a Argel com o Arraes sem despertar suspeita. O Ben Bella caiu logo em seguida e consta que o citado embaixador ocupou um alto cargo no início, pelo menos, do novo governo. O governo Boumedienne fez bons negócios posteriormente com a ditadura brasileira no campo dos hidrocarburos.

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