Afeganistão: a realidade e o que passa pela cabeça do presidente Hamid Karzai

MK Bhadrakumar (Russia & Indian Report)

O que pensam de um lado o Presidente afegão, Hamid Karzai e de outro, os norte-americanos, são realidades que nunca, de fato, acomodaram-se muito amistosamente durante os últimos três anos a partir de 2009, quando houve eleições presidenciais no Afeganistão. Os EUA queriam uma “mudança de regime” em Kabul em 2009; Karzai não apenas não via com simpatia o projeto de deixar-se jogar sob o trem como, também, estava decidido a permanecer na presidência por mais quatro anos – direito que a Constituição afegã lhe assegurava. Confiança traída e quebrada nesse nível dificilmente se deixa reconquistar.

Karzai enfrenta os EUA

O vai e vem da maré das tensões entre Kabul e Washington já quase nem parecia novidade durante os três últimos anos, mas as tensões começaram a acumular-se. Karzai não compareceu à cerimônia formal, em Kabul, mês passado, quando o novo comandante norte-americano, o general Joseph Dunford, foi empossado. E não ficou nisso. Seu primeiro “contato” oficial com Dunford foi convocá-lo, dias depois, ao palácio presidencial e aplicar ao general quatro-estrelas condecorado um sabão, digamos, à vista de todos, sobre a sensível questão das mortes de civis afegãos provocadas por forças norte-americanas. Desde então, os militares dos EUA vêm agindo de modo estranho.

Na véspera da chegada a Kabul do novo Secretário da Defesa dos EUA, Chuck Hagel para seu “tour de familiarização”, recentemente, Karzai insinuou que os americanos ter-se-iam aliado aos Talibãs para prolongar a presença militar estrangeira no Afeganistão. Hagel encaixou o míssil de Karzai, mas Dunford respondeu ao golpe: pôs as forças militares dos EUA em estado de prontidão, porque, como disse, os “comentários incendiários” de Karzai criavam riscos adicionais e ameaçavam a segurança dos soldados norte-americanos no Afeganistão.

MANIFESTAÇÃO

A rixa respingou inevitavelmente para as ruas, com grande manifestação pública em Kabul que exigia o fim da ocupação ocidental e a retirada imediata, do Afeganistão, de todos os soldados norte-americanos. Mais significativamente, o Conselho Nacional Afegão Ulema, corpo de intelectuais religiosos (que aparecem na folha de pagamento do Estado) criado pelo governo e que representam todos os clérigos islâmicos do país, distribuiu declaração ácida, alertando que “os infiéis” norte-americanos seriam tratados como invasores, a menos que o governo Obama cumprisse as exigências de Karzai sobre a prisão em Bagram e as Forças Especiais em Wardak.

Que ninguém se engane: aqueles clérigos, que vivem sob patrocínio governamental, seguem a política de Karzai. Portanto, a única parte realmente surpreendente é o tom da declaração. Falaram de “infiéis” (kafirs) em referência aos EUA e aliados, o que é sinal claro que a relação entre Karzai e os norte-americanos atingiu o fundo do poço.

Os clérigos disseram, com todas as letras, que as exigências de Karzai (sobre a prisão em Bagran, a retirada da província de Wardak etc.) “são a voz da nação afegã muçulmana”, falando pelos interesses da “soberania e da independência de nosso país”. Alertava que a desconsideração, pelos EUA, das exigências de Karzai, seria vista como “ocupação do Afeganistão, e os norte-americanos serão responsabilizados pelas consequências”.

A grande pergunta é o que acontece agora com a agenda norte-americana de estabelecer bases militares no Afeganistão. Os oficiais afegãos enviam sinais confusos aos norte-americanos, no sentido de que Karzai estaria apenas se vangloriando, na esperança de surfar uma onda de nacionalismo, a qual, de volta, lhe daria o peso necessário para atravessar a formalização do controverso acordo para o estabelecimento das bases militares norte-americanas. Vai-se tornando contudo cada vez mais difícil acolher essas explicações muito elaboradas. Isso, quase exatamente, foi o que disse Nouri al-Maliki do Iraque, pouco antes de as forças dos EUA serem, afinal, expulsas do Iraque.

GUERRA PSICOLÓGICA

Considerada a experiência do Iraque, Washington, por seu lado, já começa a sugerir sutilmente que não há almoço de graça; e que, não havendo um pacto de segurança sobre as bases militares, os EUA podem rapidamente revisar o compromisso de apoiar o governo de Karzai. E há também um mal disfarçado ataque de “guerra psicológica”, com comentaristas e “especialistas” já “concluindo” que governo de Karzai desmoronaria como castelo de cartas, caso os EUA lhe puxassem o tapete.

Curiosamente, porém, Karzai não dá qualquer sinal de perturbação ante as ameaças ocidentais. Não se vê sinal de vacilação em sua confiança de que os afegãos saberão gerir muito bem os próprios negócios sem a presença dos soldados ocidentais.

Não há dúvidas de que os EUA não desistirão facilmente do Afeganistão. As bases planejadas para o Afeganistão são vitais para toda a estratégia regional dos EUA. Além do mais, se deve esperar que os EUA explorem a via dos detratores e opositores (não Talibãs) de Karzai, sobretudo os grupos da antiga Aliança do Norte, para assim isolar Karzai politicamente e quebrar a coalizão que, até aqui, lhe garantiu uma base político-militar afegã.

Karzai também sabe que Washington fará tudo que possa, não importa o custo, para garantir que o próximo governo em Kabul siga rigorosamente a agenda regional dos EUA; e que, no plano de jogo dos EUA, não há lugar para ele na liderança do Afeganistão. Mas o próprio Karzai, muito provavelmente, não vê o próprio futuro político exatamente como os EUA o veem, para o cenário pós-2014. A verdade é que há ainda pela frente, na política interna afegã, um período extremamente fluido e complexo, enquanto o país vai-se aproximando das eleições presidenciais marcadas para 5/4/2014.

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