Afinal, que serviços o ministro Pimentel prestou à empresa ETA? O caso se complica e fica parecendo que as notas fiscais apenas esquentaram faturamento da consultoria.

Carlos Newton

O cacique-deputado Mário Juruna tinha razão. Depois que inventaram o gravador, as autoridades deveriam ser mais cuidadosas, especialmente quando se aventurarem no mundo dos negócios. Hoje em dia, com os celulares funcionando como gravadores, a situação ficou ainda pior.

O repórter Thiago Herdy, de O Globo, está usando o velho sistema do Juruna para demolir a defesa do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, no tráfico de influência exercido por sua empresa de consultoria, a bem-sucedida e nebulosa P-21 Consultoria e Projetos Ltda.

Herdy conta que, na quarta-feira, os sócios da ETA Bebidas do Nordeste negaram ter contratado os serviços de consultoria do atual ministro do Desenvolvimento. A conversa com um deles, Roberto Ribeiro Dias, foi gravada pelo jornalista.

Consta aqui o pagamento de duas notas, uma de R$ 60 mil e outra de R$ 70 mil”, disse Herdy. E o sócio da empresa afirmou:
“Ih, rapaz, esse negócio é muito estranho. É valor muito alto para o trabalho que a gente tinha. Tem alguma escusa, tentaram esconder alguma coisa.( ..) Agora, com o que você me falou aí, eu já me assustei. Não é compatível para o negócio. O que a gente fazia, de vez em quando, era contrato de R$ 10 mil, R$ 15 mil para meninas fazerem propaganda em jogo do Sport com o Santa Cruz. A gente não tinha condições de fazer nada muito diferente disso”, assinalou, acrescentando que o pagamento de R$ 130 mil nem era compatível com as atividades da empresa e que não se lembrava de Pimentel prestando serviços à ETA.

Ontem à noite, uma reviravolta: o atual administrador da ETA Bebidas do Nordeste, Leonardo Lopes Coelho, divulgou uma nota de quatro linhas. Nela, informa que a empresa teria contratado a P-21 Consultoria e Projetos Ltda para “prestação de serviços de análise econômico-financeira e mercadológica de seu plano de investimentos”, por R$ 130 mil.

Pouco antes, Lopes ligou para o repórter do GLOBO, avisando que a empresa enviaria uma nota sobre a consultoria. O jornalista pediu que ele lesse o comunicado, antes de enviar a nota, o que foi feito. Questionado se o texto não explicaria a razão da mudança de versão, respondeu que não. E ainda avisou que ninguém poderia conceder entrevista com mais esclarecimentos:

“A única coisa que eu posso te falar é sobre a nota da empresa. É a única coisa que eu tenho para te falar”, repetiu. E a contratação da consultoria de Pimentel teria se realizado por meio de duas parcelas, pagas à P-21 em 2009: a primeira em maio, de R$ 70 mil, e a segunda em julho, de R$ 60 mil.

Traduzindo tudo isso: a fábrica ETA nem atuava em Belo Horizonte. A única ligação da empresa com Minas Gerais é através de um de seus sócios, Eduardo Luis Bueno, que é dono de outra empresa condenada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas por doações ilegais para campanhas políticas em 2006.

Voltando a fita do gravador do Juruna: como o sócio Roberto Ribeiro Dias confirmou que não houve prestação de serviços pela empresa de “Pimentel” e até comentou que a ETA nem tinha condições de pagar R$ 130 mil a nenhuma consultoria, fica evidenciado que as duas notas fiscais foram emitidas para esquentar faturamento da empresa de Pimentel, e sua fábrica de refrigerantes também atuaria como empresa de lavanderia. É a única explicação.

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PIMENTEL REPETE PALOCCI

Sem ter como se justificar, o ministro Fernando Pimentel repete a estratégia de defesa usada pelo então chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e que não deu certo, como todos lembram.

Pimentel diz apenas que dispõe das notas fiscais e que os impostos foram pagos, como se fosse apenas um problema de ordem fiscal, quando na verdade o que se discute é a existência de algo muito mais grave – tráfico de influência e improbidade administrativa.

A assessoria do ministro foi procurada desde o início da manhã de ontem pelo repórter Thiago Herdy, com solicitações de entrevistas e explicações a respeito das atividades da P-21. No início da tarde, informou que, provavelmente, o ministro se posicionaria por meio de nova nota oficial, a ser divulgada em poucas horas. No meio da tarde, informou que não haveria nota e que, em lugar disso, a ETA divulgaria um “release” para O Globo.

A assessoria foi novamente contactada à noite, depois que Pimentel se reuniu com a presidente Dilma Rousseff. A informação então foi que ele responderia a perguntas enviadas pelo jornal. Minutos depois, a assessoria enviou e-mail, com uma linha, repetindo as informações da nota divulgada na quarta-feira, dizendo que o ministro “confirma a prestação do serviço e reitera que as notas fiscais foram emitidas e os impostos recolhidos”.

Pimentel não quis responder por que omitiu a prestação de serviços à ETA, quando foi questionado sobre suas atividades como consultor, no início da semana. Não quis dizer se viajou a Pernambuco para prestar o serviço, ou se o fez de Belo Horizonte. Negou-se a falar com quem manteve contato durante o serviço prestado à ETA, e se seria capaz de se lembrar do faturamento médio mensal da ETA na época da consultoria. Nem respondeu se conhece Eduardo Luis Bueno, sócio da ETA e dono de outra empresa condenada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas por doações ilegais para campanhas políticas.

O ministro, se bebesse, estaria com amnésia alcoólica. Se não bebesse, estaria com amnésia política. De toda forma, seu estado inspira cuidados.

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