Agências de comunicação não conseguem bloquear casos como o da Delta

Pedro do Coutto

Artigo magnífico da jornalista Susana Singer, a ombudsman da Folha de São Paulo, edição de domingo, definiu nitidamente os limites entre as sombrias manobras de agências de comunicação e de relações públicas quando tentam chegar às redações de jornais e revistas na tentativa (vã) de evitar a publicação de reportagens a respeito de escândalos que protagonizaram. Claro, com o comprometimento evidente de administradores públicos.

No Brasil, infelizmente, o tesouro nacional é assaltado dia e noite pelos corruptos e corruptores dos dois lados. Susana Singer parte da revelação de escutas feitas pela Polícia Federal sobre diálogos de Carlos Ramos Cachoeira e Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta, buscando um caminho para chegar a editores da própria Folha de São Paulo e da Revista Veja. Um desastre, todos sabem, pois as reportagens saíram com amplo destaque.

Jornalista há 58 anos, tive conhecimento de lances semelhantes, todos remetidos ao fracasso. Mas no seu decorrer causaram a demissão de vários profissionais que se deixaram envolver. Não há alternativa para chantagens e chantagistas. Impossível qualquer diálogo. Pois quando um redator ou editor cai em tentação, a falha é logo percebida.

Mas para administradores públicos e particulares, que não conhecem a engrenagem da imprensa, agências de comunicação e relações públicas iludem, ao firmarem contratos, assumindo o compromisso impossível de evitar a publicação de matérias negativas. Isso representa uma tentativa em si criminosa, uma confissão antecipada de atitude ilícita. Não há como impedir que jornais publiquem assuntos que desagradem os que se envolvem em negócios escusos e descem ao porão do comportamento humano.

Confissão das duas partes, uma vez que ambos os lados estão buscando dispor de propriedade que não é sua e cuja direção é absolutamente independente de vontades externas. Um evidente abuso de confiança, uma farsa. Os administradores públicos que firmam tal tipo de contrato não percebem que estão caindo nas mãos do Ministério Público e das próprias agências que prometem mundos e fundos, sabendo, de antemão, que não podem cumprir nada daquilo a que falsamente se comprometem.

Os grandes jornais como O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Valor e uma revista como a Veja, são lidos atentamente por observadores e comentados por ombudsmen de alto nível, como Susana Singer. Não passa nada que não se perceba.

Não só nas páginas como nas colunas sociais e econômicas. Isso de um lado. De outro, evitar que alguma matéria saia, neste caso é algo que somente pode ser determinado pelos proprietários dos jornais. E, atualmente, nem por eles. Porque se forem atender a “apelos” estranhos, desmoralizam-se diante dos próprios editores.

Porém, contratos firmados continuam incluindo tais cláusulas imundas. Fui testemunha de algumas situações constrangedoras no Correio da Manhã. Todas levaram à demissão dos que tentaram envolvimentos de flanco, vamos chamar assim.

Ingenuidade ou burrice? O ato de concordar com práticas sinuosas ou é uma coisa ou outra. Ou então algo pior: tentativa de corrupção prévia e dupla. Não desejo dar conselhos a ninguém. Apenas sugerir a leitura da matéria de Susana Singer, elucidativa e definitiva. Ninguém consegue evitar a publicação de nada. Os que se propõem são simples estelionatários. É por essas e outras que órgãos públicos assinam contratos, as empresas de comunicação não as cumprem, e eles não podem deixar de pagar pelo vazio. Suas assinaturas estão lá. Vale o que fica escrito. Uma arma imoral.

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