Agora é o ministro Fernando Pimentel que tem de explicar seu faturamento como consultor. Será que isso não acaba nunca?

Carlos Newton

Quando Antonio Palocci caiu da Casa Civil por seu invulgar desempenho político-empresarial, pelo menos cinco ministros do governo federal também tinham empresas de consultoria que continuavam ativas em pleno exercício do cargo. São eles: Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Comércio e Indústria), José Eduardo Martins Cardozo (Justiça), Moreira Franco (Assuntos Estratégicos), Leônidas Cristino (Portos) e Fernando Bezerra Coelho (Integração Nacional).

Dados da Receita Federal mostravam que, à época, as empresas em nome desses cinco ministros estavam com o registro “ativo” para atividades de consultoria.

Agora surgem as denúncias do repórter Thiago Herdy, de O Globo, revelando que Pimentel faturou pelo menos R$ 2 milhões com sua empresa de consultoria, a P-21 Consultoria e Projetos Ltda., em 2009 e 2010, entre sua saída da Prefeitura de Belo Horizonte e a chegada ao governo Dilma Rousseff.

Os dois principais clientes do então ex-prefeito foram a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) e o grupo da construtora mineira Convap. A Fiemg pagou R$ 1 milhão por nove meses de consultoria de Pimentel, em 2009, e a construtora, outros R$ 514 mil, no ano seguinte. Nada mal.

Pimentel não é nenhum Palocci, mas mostrou que também sabe se virar muito bem como “consultor”. Questionado sobre o rendimento da P21 nesse período, o ministro desconversou. “Foi um rendimento compatível com a atividade dela, não foi nada extraordinário”, disse.

Uma “empresa de informática pequeninha”, nas palavras do próprio ministro da Indústria, Desenvolvimento e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (PT), pagou R$ 400 mil pelos serviços da P-21 Consultoria e Projetos Ltda, empresa mantida pelo petista entre sua saída do comando da prefeitura de Belo Horizonte, em 2009, e a chegada ao governo federal, em 2011. Firma especializada em “cabeamento estruturado para rede de computadores”, a QA Consulting Ltda pertence a Alexandre Allan, de 36 anos, e Gustavo Prado, de 35, filho de Otílio Prado, sócio minoritário de Pimentel na P-21 Consultoria. E o ministro esqueceu de mencionar que a firma prestava serviços à Prefeitura, vejam só como ele anda esquecido.

O pagamento pela consultoria de Pimentel se deu em duas parcelas de R$ 200 mil. A primeira foi paga em 19 de fevereiro de 2011, dois dias antes de a QA Consulting receber R$ 230 mil da construtora HAP Engenharia para prestar serviços de “infraestrutura para soluções de rede”. A título de tributação, o serviço foi declarado como de engenharia civil mas, segundo o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG), não há registro de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) referente ao serviço alegado pela empresa. A segunda parcela foi paga em maio de 2010.

Surge também a informação de que em maio deste ano o ex-prefeito de Belo Horizonte tornou-se réu em ação civil pública ao lado do dono da empresa HAP, Roberto Senna. A construtora é acusada de superfaturar obra da prefeitura de Belo Horizonte em R$ 9,1 milhões e de desviar recursos para a campanha de Pimentel em 2004, quando o petista disputou a reeleição para a prefeitura da capital mineira.

Na época, Pimentel contratou sem licitação a Ação Social Arquidiocesana (ASA), da Arquidiocese de Belo Horizonte, para construir 1,5 mil casas. A entidade subcontratou a HAP, e o custo da obra passou de R$ 12,7 milhões para R$ 26,7 milhões. Segundo o Ministério Público, metade das casas não foi entregue. O processo corre na 4ª Vara da Fazenda Pública Municipal de Belo Horizonte.

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), saiu em defesa do ministro. O petista não vê problema no fato de Pimentel ter recebido R$ 2 milhões por serviços de consultoria realizados em 2009 e 2010. Na avaliação de Vaccarezza, o ministro era uma “pessoa comum” e, portanto, não havia impedimento para exercer o serviço.

“Ele não era ministro. Era um cidadão comum”, afirmou o líder. “Todas as empresas no Brasil tem de alguma forma uma relação com o poder público”. Para o líder governista “é natural que as pessoas trabalhem”. “Não acredito que a oposição vá fazer algo. Não acredito porque não tem base. Foge da razoabilidade”, disse.

Interessante esse novo significado que os políticos brasileiros estão dando à palavra razoabilidade. Ao que parece, eles acham que tudo é razoável e nada é proibido para os homens públicos. O governador Sergio Cabral, aquele que não sabia o que era certo ou errado para um homem público, devia distribuir largamente aquele Código de Conduta Ética que mandou redigir, sob medida, tentando explicar o inexplicável.

Mas que país é esse, Francelino Pereira. “É o país da razoabilidade”, responderia Renato Russo.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *