Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais

O cantor e compositor cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, na letra de “Como Os Nossos Pais”, fala da eterna discussão presente na relação entre pais e filhos, ou seja, quando somos jovens sempre achamos que nossos pais estão errados na educação que recebemos, porém quando crescemos e temos filhos geralmente repetimos o mesmo que nossos pais faziam conosco. “Como Os Nossos Pais” é um hino à juventude que amadurece percebendo que o mundo é uma constante, porque é feito de homens que se acomodam e de outros que lutam por mudanças. A música foi gravada por Belchior no LP Alucinação, em 1976, pela Polygram.

COMO OS NOSSOS PAIS
Belchior

Não quero lhe falar
Meu grande amor
Das coisas que aprendi
Nos discos…

Quero lhe contar
Como eu vivi
E tudo o que
Aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa…

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens…

Para abraçar meu irmão
E beijar minha menina
Na rua
É que se fez o meu lábio
O seu braço
E a minha voz…

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantado
Como uma nova invenção
Vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pr’o sertão
Pois vejo vir vindo no vento
O cheiro da nova estação
E eu sinto tudo
Na ferida viva
Do meu coração…

Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como Os Nossos Pais…

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
As aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu estou por fora
Ou então
Que eu estou enganando…

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem…

E hoje eu sei
Eu sei!
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
Está em casa
Guardado por Deus
Contando seus metais…

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais…

            (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

7 thoughts on “Ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais

  1. Bela canção do Belchior.
    Com licença do Carlos, que gentilmente nos permitiu divulgar aqui, e pedindo licença pela intrusão ao Paulo Peres, quem quiser ler as histórias do Moacir Pimentel de quando deu a volta ao mundo como mochileiro,
    ou as crônicas do Chico Bendl sobre suas conversas com os passageiros quando foi motorista de táxi,
    eles estão escrevendo, junto comigo no “Conversas do Mano” –
    http://www.conversasdomano.blogspot.com

    Um blog que nunca será concorrente da Tribuna, porque nele só é absolutamente proibido falar de política 🙂
    Muito obrigado.

  2. 1) Bom poeta Belchior.

    2) Licença: em 8 de junho de 1914, nasce no RJ, Silveira Sampaio, um dos renovadores do teatro brasileiro. Em 1948 fez muito sucesso com a peça “A Inconveniência de sua Esposa”.

    3) Fonte: Biblioteca Nacional, Agenda, 1993.

  3. É Fim de Mês
    Raul Seixas
    ——————————————-

    É fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês, é fim de mês!

    Eu já paguei a conta do meu telefone,
    eu já paguei por eu falar e já paguei por eu ouvir.
    Eu já paguei a luz, o gás, o apartamento
    Kitnet de um quarto que eu comprei a prestação
    pela Caixa Federal, au, au, au,
    eu não sou cachorro não (não, não, não)!
    Eu liquidei a prestação do paletó, do meu sapato, da camisa
    que eu comprei pra domingar com o meu amor
    lá no Cristo Redentor, ela gostou (oh!) e mergulhou (oh!)
    E o fim de mês vem outra vez!

    Eu já paguei o Peg-Pag, meu pecado,
    mais a conta do rosário que eu comprei pra mim rezar Ave Maria.
    Eu também sou filho de Deus
    Se eu não rezar eu não vou pro céu,
    céu, céu, céu.
    Já fui Pantera, já fui hippie, beatnik,
    tinha o símbolo da paz pendurado no pescoço
    Porque nego disse a mim que era o caminho da salvação.
    Já fui católico, budista, protestante,
    tenho livros na estante, todos tem explicação.
    Mas não achei! Eu procurei!
    Pra você ver que procurei,
    eu procurei fumar cigarro Hollywood,
    que a televisão me diz que é o cigarro do sucesso.
    Eu sou sucesso! Eu sou sucesso!
    No posto Esso encho o tanque do meu carrinho
    Bebo em troca meu cafezinho, cortesia da matriz.
    “There’s a tiger no chassis”…
    Do fim do mês,
    do fim de mês,
    do fim de mês eu já sou freguês!
    Eu já paguei o meu pecado na capela
    sob a luz de sete velas que eu comprei pro meu Senhor
    do Bonfim, olhai por mim!
    Tô terminando a prestação do meu buraco, do
    meu lugar no cemitério pra não me preocupar
    de não mais ter onde morrer.
    Ainda bem que no mês que vem,
    posso morrer, já tenho o meu tumbão, o meu tumbão!

    Eu consultei e acreditei no velho papo do tal psiquiatra
    que te ensina como é que você vive alegremente,
    acomodado e conformado de pagar tudo calado,
    ser bancário ou empregado sem jamais se aborrecer…
    Eu já paguei a prestação da geladeira,
    do açougue fedorento que me vende carne podre
    que eu tenho que comer,
    que engolir sem vomitar,
    quando às vezes desconfio
    se é gato, jegue ou mula
    aquele talho de acém que eu comprei pra minha patroa
    pra ela não me apoquentar,

    E o fim de mês vem outra vez…

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