Aliados hoje, adversários de amanhã

Carlos Chagas

Mais realista seria dizer “amigos hoje, inimigos amanhã”. A carta que o Departamento de Estado enviou ao Itamaraty é simplesmente abjeta. Exigem os Estados Unidos que o Brasil acabe com o protecionismo, sob ameaça de retaliações. Pretendem a volta aos tempos em que só produzíamos matéria-prima, importando deles manufaturas ao preço que impusessem. Como nos tornamos um país industrializado, é natural protegermos nossa produção através de barreiras às exportações concorrentes. No mundo inteiro é assim, a começar pelos americanos, que impõem até elevadas taxas a nossos produtos primários. Ganhamos diversas disputas na Organização Mundial de Comércio, a começar pelo algodão, ainda que Washington tivesse dado de ombros, sem cumprir as determinações internacionais.

Fazer o quê, além de repelir essa intromissão indevida? Aguardar a retaliação, preparando-nos para retaliar também, apesar da desproporção de forças. Já não parece tão fácil aos gringos chegar aqui, locupletar-se e sair com o botim.

Explica-se, uma vez mais, a ostentação do poder militar de que se valem nossos irmãos do Norte. Não faz muito tempo recriaram a IV Frota da Marinha de Guerra, com a função de policiar o Caribe e o Atlântico Sul. Um só de seus porta-aviões carrega mais aeronaves de combate do que todas as de nossa Força Aérea. Submarinos nucleares, moderníssimos navios de superfície, fuzileiros navais aos montes e um formidável arsenal ambulante – tudo a poucos quilômetros de nossas costas.

Não terá sido por coincidência que essa frota se organizou depois que os Estados Unidos souberam, talvez antes de nós, da existência das reservas do pré-sal. Cabe-nos defender essa imensa riqueza, mas em quinze minutos ela mudaria de mãos, no caso de apropriação indébita. Em termos de força terrestre, pior ainda. Mesmo sabendo da importância de transformar nossos guerreiros em guerrilheiros, manteríamos a floresta amazônica, mas perderíamos todas as cidades e centros produtivos.

Impossível imaginar um equilíbrio de forças, nem agora nem daqui a cem anos, mas, pelo menos, resta-nos a alternativa de corrigir parte de nossas deficiências. Exército, Marinha e Aeronáutica, se não andam à mingua, é quase isso. Cabe ao governo pelo menos conscientizar-se da importância de nossas Forças Armadas e destinar a elas parte do que dedica ao sistema financeiro.

Em suma, ditos aliados de hoje ameaçam tornar-se adversários de amanhã. Amigos, para virar inimigos, pode ser questão de tempo…

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RESPOSTA NO FÓRUM APROPRIADO

A presidente Dilma embarcou ontem para os Estados Unidos. De um encontro meteórico com Barack Obma, em Washington, espera-se pouco, mas do discurso a ser pronunciado na sessão de abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, algo mais. A diretriz fundamental da política externa brasileira não é espernear, mas resistir. Conquistar o apoio de nações que se encontram na mesma situação que nós, até muito pior.

Dilma, salvo engano, deverá repetir o conceito de que crises econômicas resolvem-se com crescimento, jamais com recessão. Nem os Estados Unidos estão aceitando a receita da Alemanha, que exige redução de salários, demissão de trabalhadores e cortes nos investimentos sociais dos países europeus em dificuldade. Que os chucrutes voltem sua boca para outro lado.

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