Alianças e vergonha

Carla Kreefft (O Tempo)

Parece cada vez mais comum por parte do PT a formação das chamadas alianças envergonhadas. E para justificá-las, os petistas já têm algumas frases prontas sobre a participação do aliado “indesejado” nas polêmicas coligações: “ele não é protagonista”, “ele tem papel secundário”, “ele não faz parte da chapa, não é o candidato principal nem o vice”.

Das três principais capitais do país, em pelo menos duas – São Paulo e Belo Horizonte – o discurso é exatamente esse. É claro que o motivo da vergonha da aliança é diferente de uma cidade para outra. Em São Paulo, a presença de Maluf ao lado dos petistas significa parceria com tudo aquilo que eles criticavam quando eram oposição: a proximidade com os militares que aplicaram o golpe de 64 e sustentaram a ditadura no país, a corrupção, o desvio de recursos públicos, o uso da política para proteção contra eventuais punições legais. Em resumo, Maluf encarna tudo o que o PT condenava até ontem.

Já em Belo Horizonte, a aliança com Marcio Lacerda e o PSB aponta para uma certa coerência política, se não fosse a participação do PSDB. O problema com o PSDB não é relativo às diferenças ideológicas e não diz respeito às questões éticas e morais. A dificuldade de convivência é eleitoral. Tucanos e petistas protagonizam a grande rivalidade da política moderna brasileira, tal como já aconteceu no passado entre Arena e PMDB e entre UDN e PSD.

As duas alianças foram comandas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e renderam protestos das militâncias locais. Mas a cúpula nacional do PT não tem demonstrado nenhuma preocupação com as bases e segue à risca a cartilha de Lula.

Entretanto, a foto de Lula com Maluf tem um simbolismo que vai além de todas as iniciativas que o ex-presidente petista e seus mais próximos já fizeram para conquistas de votos. A imagem, certamente, fala muito mais do que as palavras.

Nesse sentido, posições como as que tomaram Luiza Erundina e Marta Suplicy, em São Paulo, mostram que ainda há quem escolha o ideário e a coerência diante do caminho fácil, na busca das urnas. Foram as mulheres paulistas que disseram “não” a Lula. Certamente, elas pagarão um preço político, como, aliás, já aconteceu com Erundina. Mas, mesmo sabendo das eventuais consequências, fizeram suas opções.

Sem forças capazes de resistir às pressões de Lula, o PT segue fazendo o jogo eleitoral que todos os partidos fazem. Ele deixa pela estrada alguns de seus integrantes e resgata novos adeptos, desde que tenham votos ou tempo de televisão. É a matemática do Lula que parece disposto a todo esforço para a manutenção do poder.

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