Amador, o governador

Sebastião Nery

Quando Jânio Quadros, em 62, se candidatou pela segunda vez ao governo de São Paulo contra Ademar de Barros, seu vice era o brigadeiro Faria Lima. Laudo Natel saiu candidato sozinho, pelo PR, em faixa própria. No último mês da campanha, estava clara a vitória de Jânio.

Amador Aguiar, o homem do Bradesco, telefonou para o ex-presidente e marcou encontro na casa de um funcionário do banco. Jânio foi com José Aparecido. Amador queria que Jânio retirasse a candidatura Faria Lima para apoiar Laudo, diretor do Bradesco e presidente do SPFC:

– Dr. Jânio, sei que sua campanha está com muitas dificuldades financeiras. Poderia resolver o assunto e assim seriam eleitos o senhor e o Laudo, que eu trouxe comigo para o senhor conhecer pessoalmente.

– Meu caro, estou eleito. O povo já manifestou sua preferência. Mais uma vez, doutor Amador, vou ganhar em São Paulo e em todas as grandes cidades. Nem vou mais às pequenas, porque não precisa. Está na hora de ver quem é ou quem não é meu amigo, para não haver queixas depois.

– Mas, presidente, o Laudo está mais forte do que o Faria Lima. Juntos, daremos uma surra no Ademar.

– Não posso, meu caro. Não posso trair o Faria, que é meu amigo dileto. Dileto. Di-le-to, entendido?

***
LAUDO NATEL

Na ponta da mesa, pequenininho, baixinho, calado, Laudo não tugia nem mugia. Jânio chamou-o para sentar-se mais perto:

– Doutor Laudo, o senhor já foi candidato antes a alguma coisa?

– Não, presidente. Não gosto de política. Foi seu Amador quem mandou. Abaixo de Deus, é o pai que eu conheci.

– Mas de futebol o senhor gosta. É presidente do São Paulo.

– Também não gostava. Foi o seu Amador que mandou. Abaixo de Deus, foi o pai que conheci. O senhor não imagina o homem bom que ele é.

O acordo não foi feito. Jânio perdeu por 123 mil votos (das pequenas cidades, que menosprezou). E Laudo (quer dizer, seu Amador, o pai) ganhou.

***
PAULO EGYDIO

Estranha, misteriosa a imprensa paulista. Paulo Egydio, ex-ministro, ex-governador de São Paulo, dos mais importantes líderes do estado no último meio século, fez um longo, minucioso, forte e histórico depoimento, de 45 horas gravadas, a uma consagrada equipe de pesquisadores do Cpdoc da Fundação Getulio Vargas (Verena Alberti, Ignez Cordeiro de Farias e Dora Rocha), editado em um livro de 600 páginas: “Paulo Egydio conta”.

Os jornalões paulistas, a quem Paulo Egydio sempre foi tão ligado, esnobaram o livro e não lhe deram a repercussão que merece, certamente pela maneira corajosa e precisa de contar histórias de que eles talvez se envergonhem, como a forma humilhante com que os militares tratavam o orgulhoso estado e a brutalidade das violências e torturas da ditadura.

Quando, há 40 anos, no fim da década de 60, contei essa história do Jânio com Laudo Natel e Amador Aguiar, alguém escreveu que não podia ser verdade. E eu estava impedido de citar a fonte, que era o Zé Aparecido. Agora, vem o Paulo Egydio e confirma tudo, citando situações piores.

***
ADEMAR

1 – “Sábado (5.6.66), às 9 da manhã, fui ao palácio (das Laranjeiras, no Rio) e recebi (era ministro da Indústria e Comércio) a comunicação da cassação de Ademar. Castelo me recebeu, expôs a razão e disse que estava estudando o nome de um interventor, porque o vice-governador, Laudo Natel, segundo informações, não merecia confiança para assumir o cargo.

– Presidente, o senhor não faça isso, porque São Paulo ainda está extremamente sensível à intervenção do Getulio em 30. Se o senhor fizer isso, vai unir São Paulo contra seu governo.

– Mas as informações que eu tenho não são boas.

– Presidente, embora não conheça muito bem o Laudo Natel, não vejo muito problema. Mas chamo sua atenção para o lado político, porque é muito sério o que estou lhe dizendo”.

***
CASTELO

2 – “Aí, ele mandou chamar Golbery (chefe do SNI) e Geisel (chefe da Casa Militar). A reunião passou a contar com a presença dos dois. Voltei a expor que achava um erro muito sério intervir no estado e impedir que o vice assumisse. Afinal, Castelo interrompeu a reunião e disse:

– O senhor está trazendo um fato novo, que vamos ter que repensar. Quero que o senhor permaneça aqui no palácio até uma nova convocação”.

3 – “À tarde, mandou me chamar, na presença de Golbery e Geisel:

– Ministro, estivemos ponderando suas objeções e decidimos acatá-las.

Aceitamos a substituição do governador Ademar pelo vice Natel. Mas com condições, e o senhor vai ficar encarregado de fazer com que elas sejam cumpridas. Primeiro: nós vamos indicar quem vai ser o secretário da Fazenda (foi Delfim). Segundo: nós vamos indicar quem vai ser o secretário de Segurança (foi o general Fragoso). Terceiro: quem vai assumir o comando da Polícia Militar é o coronel João Batista Figueiredo”.

4 – “Amador Aguiar era um excêntrico para todos nós. A presença dele na minha primeira reunião com o Laudo me causou certa estranheza. Mas todas as minhas reuniões com o Laudo contaram com a presença dele. Em algumas ocasiões, Laudo reagiu ao recado que eu trazia e o elemento de equilíbrio sempre foi o Amador”.

Amador, o banqueiro, era o governador.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *