Ambições e cotoveladas reais no reino do ‘faz de conta’

Sandra Starling

Nos idos dos anos de 1990, acompanhei de perto problemas do Partido Socialista Português (PSP). Deparei-me com uma questão que jamais me ocorrera, sendo, então, partidária, sem questionamentos, a adoção das “listas fechadas” para as eleições parlamentares. À época, verdadeiro fosso se abrira entre o eleitorado e o PSP, devido à imposição, pela burocracia interna, dos nomes a disputarem as eleições. Lideranças reconhecidas eram deixadas de fora porque não faziam parte da panelinha da direção do partido.

 

Recentemente, acompanhei a convenção que, na Alemanha, indicou o candidato a primeiro-ministro pelo Partido Socialista Alemão (SPD), que escolheu um moderado, Peter Steinbrücke, para ter chances de conquistar o eleitorado de centro. Para compensar seus fiéis eleitores esquerdistas, adotou-se um programa de governo bastante avançado, gerando comentários sarcásticos dos adversários desse malabarismo político.

 

Escrevo isso para dizer que, se tais situações soem acontecer em partidos com perfis programáticos mais definidos, o que dizer da barafunda em que se encontra a política brasileira, na qual os partidos – na opinião do ministro Joaquim Barbosa – são todos “de mentirinha”?

 

Os relatos vazados pela imprensa dão conta da situação hilária, mas previsível, em que se meteu o PT nessa aventureira aliança prioritária com o PMDB. Se o PMDB, de há muito, nem sequer consegue unir-se para lançar candidato próprio à Presidência da República, como esperar dele posição uníssona de apoio inconteste à reeleição de Dilma Rousseff?! Ela própria, useira e vezeira em acotovelar adversários – que o diga o discreto Luiz Pinguelli Rosa, ex-futuro ministro de Minas e Energia do primeiro governo Lula –, não poderia estar agora espantada com as ameaças de Sérgio Cabral, dizendo-se aparentado com Aécio Neves para tentar evitar o lançamento da candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Estado do Rio. Ou a lamúria de André Puccinelli, do Mato Grosso do Sul, com relação à possível ou provável candidatura de Delcídio Amaral, batendo de frente com ele.


INTRIGALHADA

 

A intriga come solta de norte a sul do país, misturando tudo e todos, inclusive Michel Temer, recusando ajuda do Sarney num jantar, quando aquele pediu que todos “pensassem no Temer”. Este, segundo a imprensa, delicadamente declinou para dizer que todos têm que cuidar dos interesses do partido.

 

Conhecendo essa turma, ouso escrever que o único a dizer a verdade nessa história toda tem sido o Lula. Num dia, ele lança Lindbergh no Rio e, no outro, se nega a dizer quem vai apoiar. “Macaco velho”, sapateia sobre sua afilhada ao dizer: “A presidente tem tanta gente que a apoia, tanto partido político, tanto líder. Acho que a presidente, depois de dois anos e meio, já sabe tranquilamente cuidar da política”.

 

Recado mais curto e grosso que esse não existe. Detalhe sutil: ele não a chamou de “presidenta”. Há momentos em que um “a” vale por uma frase inteira. (artigo transcrito de O Tempo)

 

 

 

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One thought on “Ambições e cotoveladas reais no reino do ‘faz de conta’

  1. O PT, a Dilma, e o Lula, dão as cartas. Eles é que tem a popularidade e consequentemente os votos. Todos os demais, são coadjuvantes, tipo papagaio de pirata. Sabem que uma foto ao lado da Dilma ou do Lula, vale mais do que discursos e promessas. Logo qualquer aliança só vai acontecer caso eles que tem a faca e o queijo nas mãos aprovarem.

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