Ameaça de fortalecimento do “algoz” Sérgio Moro em 2022 levou Centrão a apoiar Bolsonaro

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Rafael Moraes Moura e Daniel Weterman
Estadão

O presidente Jair Bolsonaro adotou uma série de medidas contraditórias com a bandeira do combate à corrupção, construindo o que integrantes do Centrão chamam de “ambientes de garantia” para coibir investigações incômodas aos aliados. Embora não ocupe o espaço que tinha no passado, quando comandava os principais ministérios, o bloco formado por políticos de partidos alvejados pela Lava Jato vê nas ações do presidente o atrativo para se opor a seu impeachment, uma ameaça permanente em um governo que vive em crise.

Mais do que o conhecido apetite por cargos e verbas de emendas ao Orçamento, o interesse do Centrão se volta agora para a sobrevivência política. Sem um candidato de peso para chamar de seu no campo da direita ou mesmo da centro-direita, o grupo teme que um eventual afastamento de Bolsonaro fortaleça a eleição do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro ao Palácio do Planalto, em 2022. Quando era juiz da Lava Jato, Moro foi algoz de vários dirigentes do Centrão.

EM CAMPANHA – Embora Moro diga que não entrará na disputa, seus movimentos são interpretados no Planalto e no Congresso como os de um político em campanha. Diante dessa perspectiva e enquanto não encontra outra alternativa, o Centrão mantém o apoio a Bolsonaro, embora o grupo tenha dado dor de cabeça ao governo em recentes votações no plenário da Câmara, nas quais o Planalto foi derrotado.

Uma das principais medidas do presidente que o aproximaram do Centrão foi tirar o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) das mãos de Moro e transferi-lo para o Banco Central, um órgão técnico. Além disso, Bolsonaro sancionou a Lei de Abuso de Autoridade – com punição para agentes públicos, incluindo juízes e procuradores – e a que prevê a criação do juiz de garantias. Políticos às voltas com tribunais fizeram de tudo para aprovar esse projeto, que divide a análise de processos criminais entre dois juízes.

TRADIÇÃO ROMPIDA – Na outra ponta, Bolsonaro rompeu uma tradição iniciada em 2003, quando ignorou a lista tríplice formada após votação no Ministério Público e escolheu Augusto Aras para comandar a Procuradoria-Geral da República (PGR).

De perfil conservador, alinhado ao governo e em guerra com a força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba, Aras tem protagonizado a mais nova polêmica que reacende a discussão sobre o combate a desvios: quer centralizar em Brasília o comando das forças-tarefa que investigam corrupção.

PRISÃO EM 2ª INSTÂNCIA – Com o argumento de que as atenções do Planalto, neste segundo semestre, estão voltadas para a aprovação de reformas, como a tributária, Bolsonaro também não abraçou a proposta de uma emenda constitucional para resgatar a prisão após condenação em 2.ª instância, uma bandeira da Lava Jato, cujo debate deve ser retomado na Câmara em agosto.

Moro deixou o Ministério da Justiça e Segurança em abril, após abandonar 22 anos de magistratura e ter sucessivos embates com Bolsonaro. Ao sair da equipe acusando o presidente de interferir na PF para proteger filhos e amigos de investigações, o ex-juiz da Lava Jato também considerou que ele havia aposentado o mote anticorrupção.

“Essas ações do presidente da República representam um enfraquecimento dos órgãos de controle e a fragilização do Estado de Direito”, disse Moro ao Estadão. Em novembro de 2018, após ser eleito presidente, Bolsonaro se valeu da imagem de Moro para passar a mensagem de que o ex-juiz teria autonomia no enfrentamento de irregularidades.

RECADO – “Parabéns à Lava Jato. O recado que eu estou dando a vocês é a própria presença do Moro no Ministério da Justiça, com todos os meios, inclusive o Coaf, para combater a corrupção. É integralmente dele o ministério. Sequer influência minha existe em qualquer cargo lá. O compromisso que eu tive com ele é carta branca para o combate à corrupção”, afirmou Bolsonaro.

Desde então, no entanto, o discurso foi um e a prática, outra. Em um dos episódios mais emblemáticos, o Planalto fez acordo com o Centrão para tirar o Coaf de Moro. Na época da votação na Câmara, o deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), líder do Centrão, defendeu a medida. “O Coaf é órgão de Estado. É absolutamente inapropriado você querer dizer que, se não funcionar debaixo do poder do ministro Moro, ele não vai funcionar. Isso não existe”, disse ele.

Com papel-chave nas investigações de lavagem de dinheiro, o Coaf ganhou projeção nacional após o Estadão revelar que o colegiado havia identificado movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Questionado sobre por que o Centrão decidiu apoiar Bolsonaro, Lira respondeu que foi o presidente quem encontrou no grupo a melhor maneira de dialogar com o Congresso. “Os partidos que formam o Centro sempre atuaram para o equilíbrio e a governabilidade”, ele afirmou ao Estadão.

SINTONIA – O vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira (Republicanos-SP), observou, por sua vez, que a política econômica do governo está em sintonia com a do partido. “Logo, não há por que não apoiar uma política que pode proporcionar reformas estruturantes e melhorar o ambiente de negócios para a geração de empregos”, resumiu. “Os poderes são independentes, mas devem ser harmônicos”.

Por ter hoje muito menos poder do que já tiveram, integrantes do Centrão dizem, com ironia, que deveriam ser chamados de “Centrinho”. Em governos passados, o Centrão ocupava ministérios com os maiores orçamentos da Esplanada, como Minas e Energia, Cidades, Saúde e Educação. Hoje o bloco tem um único – o das Comunicações, dado ao PSD de Gilberto Kassab, que tem só 16 dos 35 parlamentares alinhados a Bolsonaro.

SOB VIGILÂNCIA – Pragmáticos, dirigentes do grupo admitem que cargos nos grotões os ajudam a garantir novos mandatos, mas dizem não ter sido esse o imã que os levou a Bolsonaro. Mesmo porque seus indicados atuam sob vigilância dos militares e da ala ideológica do governo. “Nós temos uma identificação muito grande com o que o presidente defende para o Brasil”, afirma o senador Ciro Nogueira (Progressistas-PI).

Procurado, Bolsonaro informou que não comentaria o assunto. O Coaf disse, por meio de sua assessoria, que atua “de forma autônoma e técnica”. A PGR observou que a escolha de Aras seguiu a Constituição. “Listas tríplices anteriores eram elaboradas a partir de um sistema de votação passível de fraude, porque não auditável, conforme auditoria realizada pela CGU (Controladoria-Geral da União) e pela Sppea (Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise)”, informou a Procuradoria. A Polícia Federal não se manifestou.

MJ NÃO RESPONDE – O Estadão procurou o Ministério da Justiça na última sexta-feira para que se posicione sobre as críticas de que o governo abandonou a bandeira de combate à corrupção, mas a assessoria da pasta informou que o ministro André Mendonça não iria se manifestar sobre o assunto.

Mendonça substituiu Moro na Justiça e é um dos nomes cotados para ser indicado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) durante o mandato do presidente Jair Bolsonaro, que já defendeu a nomeação de um evangélico – como Mendonça – para a Corte.

A reportagem encaminhou as seguintes perguntas ao Ministério, que ficaram sem resposta: 1º) Na opinião de especialistas e atores políticos, o governo está agindo para esvaziar os órgãos de fiscalização, inteligência e controle. O senhor concorda?; 2º) Quando o governo tira o Coaf do Ministério da Justiça, muda a direção-geral da PF e sanciona a Lei de Abuso de Autoridade, não está enfraquecendo esses órgãos?; e 3º) O combate à corrupção é a bandeira número 1 do governo Bolsonaro?

11 thoughts on “Ameaça de fortalecimento do “algoz” Sérgio Moro em 2022 levou Centrão a apoiar Bolsonaro

  1. Em entrevista à emissora (chapa branca) Fox News, Trump se recusa ao compromisso de aceitar o resultado da eleição presidencial, no caso de derrota para Biden…

    Se em 2018 Bolsonaro já insinuava que se não aceitaria outro resultado que não sua vitória, acusando de suscetível à fraude o voto eletrônico em relação ao voto impresso…

    Imagina Bolsonaro em 2022 com FFAA, PM’s, milícia e bolsominios, incluindo grupo 171 e 51…

    • Sr. Leão,
      Se Trump perder, sairá mansamente, não lhe restará alternativa.
      Já o Estrupício será apeado do poder e preso.
      Não lhe restará outra alternativa.
      O brasil não pode mais ficar batendo palmas pra maluco dançar.
      Simples assim.
      Cordialmente.

  2. No Brasil, existe uma questão, que não sei se pode ser tipificada como dilema ou dicotomia:
    1- A maioria da nossa população não presta;
    2- Existe uma minoria podre, a qual conta com a cobertura do Poder Constituído e/ou nele se faz representar;
    3- São verdadeiras as duas hipóteses acima. Pois, ocasionalmente, qualquer cidadão pode-se inserir na situação 1 ou na 2.
    Quando um policial perpetra um crime, lá vem um superior hierárquico justificar a ação execrável: “Trata-se de um fato isolado, que não representa a conduta da nossa Instituição Polícial!” Tudo bem, acontece que o agente comete o delito como um bandido, mas se defende em nome de uma Corporação Legalista com: advogado patrocinado, cumplicidade de outros entes policiais e mais o corporativismo pandemônico dos seus comparsas e companheiros.
    Aqui, podemos fazer a seguinte analogia: num veículo com 6 ocupantes, o motorista vacilou e passou por cima dum pedestre que veio a óbito. A grosso modo, a culpa foi do condutor. Mas que peso o veículo deveria ter para levar o transeunte à morte? Tu também eras um passageiro? Pois eu descobri agora: se não fosse o teu peso somado aos demais, a pressão do carro sobre o corpo que tombou, não seria suficiente para romper aquela artéria, a qual ocasionou a hemorragia interna, fatal! Qual é o tamanho do teu remorso agora?

  3. E por falar em Sergio Moro, em Centrão e Bolsonaro, uma questão está em aberto desde a deserção de Sergio Moro do Governo Bolsonaro.

    Porque até hoje, nenhum órgão da imprensa nacional (em especial das Organizações Globo, com destaque negativo pela falta de interesse em particular dos jornalistas Andréa Sadi e Gerson Camarotti) se interessou em entrevistar e desenvolver o tema das denúncias e deserção do ex juiz e ex ministro Sergio Moro com o até ontem sumido ministro Onyx Lorenzoni?

    Certamente a opinião do ministro Onyx acerca destes temas será relevante.

  4. Li na imprensa digital?

    1. “Governo quer criar duas gratificações para militares e elevar remuneração a até R$ 7 mil.”
    – Desse jeito tenta evitar ser cassado.

    2. “Bolsonaro defende uso de medicamentos ‘off label’, sem precisar seguir a bula.”
    – E ainda continua à solta!

  5. O presidente prometeu ser diferente dos anteriores. E foi. Os anteriores não disseram e nem se comprometeram a fazer diferente!
    Ele prometeu e não cumpriu!
    Ao aproximar o “centrão” do governo, para os eleitores inteligentes, o presidente assinou o termo de capitulação.
    Para quem pensa, somados todos os erros que já cometeu, deve ter perdido votos em torno de 40-45% dos que recebeu.
    Sem a esquerda no 2º turno, sua chance de reeleição é zero! Até os petraljhas votarão contra ele.
    Moro, em sendo candidato, já tem plataforma pronta! Engana-se quem acha que ele está com globo e tucanos. Que canal de tv aberta tem mais assistência? Seria burro se fosse aparecer na TVE!
    Fallavena

  6. “Ao aproximar o “centrão” do governo, para os eleitores inteligentes, o presidente assinou o termo de capitulação.”

    Parabéns Fallavena, síntese analítica perfeita.

  7. Moro já é presidente.
    Basta ficar calado, e confirmar tudo o que fez pelo Brasil em seus 22 anos de carreira limpa.
    Nenhum outro candidato poderá concorrer com ele, com exceção de Álvaro Dias que pode ser muito bem o seu você, e aí levarão de barbada.
    Algo que nunca aconteceu antes na historia eleitoral brasileira, pois todos os candidatos anteriores, inclusive Carga e Brizola, tiveram oponentes à altura moral, mas agora nada se compara à envergadura de Moro.
    Vão aparecer os pais mandados tipo fhc, Luiz Inácio, Dilma, cinema
    Ciro e outros que gostam de uma ponta de pau para gritarem como gralhas que pereceram seus pinhões roubados dos indefesos.
    Porém, todos sucumbirão com a firmeza de.quem colocou o maior ladrão da história na cadeia com maestria de um gato que pega o rato aos poucos, e vai lhe torcendo os ossos até para sempre.

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