Angelina Jolie e as mulheres pobres do mundo

Sandra Starling

Há quase 20 anos, recebi a terrível notícia: um carcinoma na mama direita. Graças a um diagnóstico preciso, realizado em tempo hábil pelo dr. Salvador Silva e por seu filho Henrique, além do competente apoio da equipe do Hospital Mater Dei, é que ainda estou viva. Com monitoramento a cada seis meses (que me testemunhe o cuidadoso dr. Jairo).

Não precisei reconstruir a mama, pois fiz apenas uma quadrantectomia. Quando assaltada pela ideia da reconstituição do seio, sempre me lembrava da estatuazinha de gesso do poema de Manuel Bandeira. Depois que ela foi inadvertidamente derrubada e estilhaçada, conta-nos o poeta, ele recolheu os fragmentos e recompôs a “figurinha que chorava”. “E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo mordente da pátina”. E concluiu Bandeira que a estatuazinha, então, passou a ser tocante e viva, fazendo-o refletir “que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu”.

A dor de quem já passou por isso pôde ser aquilatada pelo depoimento de uma mulher quando, certa vez, entreguei-lhe um panfleto de advertência sobre a importância da prevenção. Disse-me ela que não precisava mais daquilo, pois não era mais mulher, já que tivera que retirar o útero e as duas mamas.

EXEMPLO DE ANGELINA

Ao tempo em que já se noticiam as dificuldades de implementação da lei que dispõe sobre o prazo de 60 dias para o início de tratamento no SUS de pacientes acometidos de câncer, somos informados de que a bela Angelina Jolie se submeteu a uma mastectomia preventiva para a retirada dos dois seios e que, brevemente, removerá também o útero. Dada sua condição financeira, pôde fazer o rastreamento genético, ser tratada em hospital de referência por especialistas e, certamente, contará com esmerado apoio psicológico para ultrapassar esses tempos tormentosos.

Eu mesma não posso me queixar. Contei e conto, como disse, com os melhores recursos que a medicina privada pode oferecer ao tratamento das neoplasias malignas. Mas o chamamento de Angelina Jolie, pelas páginas do “The New York Times”, no sentido de que as mulheres não se esqueçam de fazer exames preventivos e que se submetam ao mapeamento genético, parece algo surrealista diante da realidade de exclusão e pobreza de bilhões de mulheres ao redor do mundo. Estranha porque sabemos todos do engajamento da esposa de Brad Pitt em causas sociais.

Apenas no plano da prevenção, só 20% das mulheres brasileiras têm acesso, pelo SUS, à mamografia com regularidade. Se dermos por certo que os diagnósticos são feitos com qualidade, ainda assim, a carência de assistência adequada é assustadora. E, em caso de confirmação da doença, o que nos garante que o prazo legal de tratamento será cumprido? E os casos que exigirem cirurgia, quimioterapia ou radioterapia imediatas? Serão atendidas a contento?

E o pior é que as estatísticas de mulheres atingidas pelo câncer de mama só aumentam, incluindo agora também as mulheres pobres.

Tudo isso me faz lembrar a canção de John Lennon: “A mulher é o pretume do mundo”. Pense nisso! (Artigo transcrito de O Tempo)

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3 thoughts on “Angelina Jolie e as mulheres pobres do mundo

  1. Respeitosamente vou pedir às mulheres licença para tecer um comentário sobre este mal que as aflige de várias maneiras: o câncer.
    A minha mãe morreu em 1971, aos 42 anos, vítima de câncer em uma de suas mamas.
    À época não havia quimioterapia ou tratamento neo-adjuvante como hoje em dia, ou seja, diminui-se o tamanho do tumor à base de vários medicamentos , caso der resultado, óbvio, e então se faz a cirurgia à sua extirpação e posterior quimioterapia e radioterapia, de modo a não se deixar qualquer resquício que venha se transformar em metástase lá adiante.
    A minha mãe foi alvo da mastectomia radical (a mama sendo retirada completamente) e, mesmo, assim, veio a falecer um ano depois, vítima de tumores e disseminação de metástases por vários órgãos.
    Atualmente existem meios de prevenção e exames que detectam o cãncer em seu estágio inicial (estadiamento da doença), facilitando o diagnóstico e sua cura, contribuindo para índices melhores de preservação de vidas importantes e insubstituíveis de mulheres mundo afora.
    Claro, não é somente a mama que tem levado mulheres a óbitos pelo cãncer. Existem o Melanoma, Colo de Útero, Linfático, enfim, uma doença que precisa ser combatida por exames periódicos e assistência médica à altura da gravidade deste mal, que, me parece, o Brasil não oferece à população feminina o devido respeito nesta área, de pronto atendimento diante da ameaça de suas vidas.
    Vale o esforço em denunciar o descaso e a demora no atendimento pelo SUS, e rezar para que as mulheres se conscientizem em se deixar examinar periodicamente e, assim, evitarem reviravoltas em suas existências caso cuidassem mais de si mesmas, de seus corpos, da sua saúde.
    A medicina preventiva é a natural defesa e prevenção neste particular, fundamentalmente o médico de família, cuja função muitos postos de saúde a exercem em visitas costumeiras a lares de difícil acesso, por consequência, impedindo que as mulheres visitem os postos de saúde regularmente, serviço que, então, compensa esta ausência indo ao encontro delas.
    O meu carinho e solidariedade às mulheres que um dia tiveram de ouvir dos médicos que eram portadoras de neoplasias, e o terror que se apossou delas após o diagnóstico.

  2. Parabéns, professora Sandra Starling. Você, como sempre, indignada e endereçando sua indignação à conscientização das pessoas. Abs. Marco Antônio.

  3. Está circulando na intenet um texto terrível. Informa que a famosa atriz, com sua atitude, faz parte de um esquema publicitário da indústria farmacêutica, uma jogada de trilhões de dólares. Sugiro, respeitosamente, à digníssima jornalista investigar. Se for verdade… é o fim dos absurdos ou do mundo, até com a saúde, com a vida humana eles faturam.

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