Antes da fotografia, os pintores garantiram a memória visual do mundo

Pedro do Coutto

É isso. Antes de a fotografia ser inventada, o que aconteceu há menos de duzentos anos, a memória visual do mundo deve-se aos pintores que usaram o dom de sua arte para focalizar a natureza e os acontecimentos.

Reconhecimento, portanto, eterno a todos eles, gênios ou não, como testemunhas dos séculos e tradutores insuperáveis dos costumes e dos modos e condições de viver (e conviver) de todas as épocas. Até hoje, a modernização das roupas, principalmente femininas, vai buscar inspiração nos museus, onde reside o passado.

Esta divagação me ocorreu quando assisti sexta-feira, no espaço de Furnas, a exposição do artista plástico José Arnulfo, que integra a equipe da programação visual da empresa. Aliás, equipe criativa, de alta qualidade. José Arnulfo deu título à mostra: “Prego, Sombra, Carvão”, componentes aos quais recorre para produzir suas obras de arte. Está na faixa, suponho em torno de 50 anos de idade.

A de sexta-feira foi sua segunda exposição em Furnas, mas certamente é muito mais importante do que a primeira. E aí eu pergunto: em qual momento da vida o artista sente a vocação e o impulso que o leva à arte. Uma espécie de chave para um novo horizonte. No caso da pintura, eternamente um gesto solitário do autor, para consigo mesmo, e um ato solidário de sua criação para os outros. Claro. Porque não podemos existir sem os outros.

Na peça Huis Clos, representada no Rio por Paulo Autran, Tônia Carrero e Margarida Rey, Sartre afirma que “o inferno são os outros”. Incompleta. Esqueceu de acrescentar digo eu, que o céu também são os outros. Um absurdo dizer-se por aí que não temos nada com a vida dos outros. Se assim fosse, não haveria teatro, não haveria cinema. São as artes mais populares, exatamente as que se baseiam no comportamento humano.

José Arnulfo, que começou usando o carvão como instrumento de buscar a forma, aperfeiçoou-se e incorporou o prego e as sombras produzidas pelo toque nas telas. Reuniu diversas criações na exposição sob as colunas do coliseu de Botafogo. Uma me chamou especial atenção, pelo impacto que causou. Jesus Cristo na cruz, o trágico desfecho de Jerusalém que implantou uma nova divisão do tempo no planeta: antes e depois dele.

A arte é uma linguagem em si mesma. Como grandes artistas já destacaram, existem os impressionistas, expressionistas, naturalistas, aqueles que se inspiram no corpo humano.

O Cristo na cruz de Arnulfo é um dos exemplos, exatamente uma obra magnífica, forte, criativa.  O autor recorre ao impressionismo, que se baseia, como o nome define, na impressão pessoal do artista. Cristo de Arnulfo tem lugar, a meu ver, entre as imagens que grandes artistas legaram sobre o calvário. E foram dezenas de milhares, já que a imagem da crucificação é, sem dúvida, a mais descrita ao longo dos últimos 1979 anos, já que ele morreu aos 33 anos de idade.

Arnulfo interpreta com intensidade o sofrimento e a angústia entre os pregos romanos de Pôncio Pilatos, do imperador Tibério e da manobra de Caifaz no Sinédrio judaico. Jesus está entre os pregos da morte. À sua volta, a imagem de pontos flutuando no espaço. Símbolos da dor e do sangue do condenado injustamente.  O momento ficou para sempre na consciência e no toque dos artistas. A obra de José Arnulfo o coloca seguramente entre eles.

 

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