Antes tarde do que nunca

Carlos Chagas

Denúncia profunda acaba de ser publicada em artigo, na Folha de S. Paulo, contra “a avalanche do pensamento único, cujo codinome é neoliberalismo, apoiado por Estados corrompidos pelo sistema financeiro internacional”. Idéia-base calcada em Marx? Lênin? Luiz Carlos Prestes ou Leonel Brizola?

Nada feito. O autor é o professor Delfim Netto, na sua colaboração semanal. Fica desmentida a falácia de que todo mundo é esquerdista na juventude e acaba como adepto do mercado, na velhice. O vetusto mestre, entrado nos oitenta anos, vem demonstrar o oposto. Depois de chefiar a política econômica e a própria economia nacional por duas décadas, com essa simples frase Delfim rende-se à evidência do breve desaparecimento desse pernicioso modelo que por tanto tempo assolou o planeta. Felizmente, agora em vias de escoar pelo ralo.

A crise econômica na Europa não deixa outra alternativa. Os corruptos chegaram ao limite da prática de sustentar o aumento de impostos, a redução de salários, os cortes nos programas sociais e o incentivo ao desemprego como forma de as nações saírem da crise. Quem rasga a cartilha do sistema financeiro internacional é um de seus antigos leitores. Não estamos perdidos, muito pelo contrário…

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A LÓGICA LUSITANA

Faz tempo que deixaram de circular entre nós as célebres “piadas de português”, que denegriam nossos avozinhos. Em vez delas ouve-se até hoje, nos dois lados do Atlântico, histórias que só fazem justiça à lógica, ao tirocínio e ao valor do povo lusitano, nem tanto quanto o nosso. De vez em quando, porém, assistem-se bissextas recaídas daquela moda ultrapassada.

Não apenas quem tem voltado de Lisboa, mas quantos aqui acessam essa imensidão de canais a cabo de televisão, estranham que em todos os programas portugueses, dos jornalísticos aos de auditório, os de humor e os de esporte, sem exceção, vê-se num dos cantos das telinhas o refrão “Não Há Crise”. Trata-se de um incentivo ao ânimo da população, mas não dá para esconder ser a crise palpável, em Portugal. Como coisa parecida o governo brasileiro adotou nos anos bicudos da ditadura, com o abominável “Brasil, Ame-o ou Deixe-o”, é melhor calar…

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FILHA ENJEITADA

Até hoje é assim, mas quando do advento da Nova República era pior. Ninguém queria a Funai. Refugavam todos os futuros ministros do presidente Tancredo Neves. Já convidado para o ministério do Interior, num despacho com o presidente eleito, Ronaldo Costa Couto sugeriu descartar-se da Funai, opinando que ela fosse deslocada para o novo ministério da Cultura. Afinal, índios e antropólogos seriam bem acolhidos por José Aparecido de Oliveira.

Tancredo não vacilou um minuto, recusando a proposta com uma observação: “Se eu fizer isso, no dia seguinte o Aparecido estará promovendo um desfile de índios brasileiros pelo Champs-Elissés…

Outra envolvendo a Funai e Tancredo aconteceu quando, às vésperas da posse que não houve, um senador pelo Rio Grande do Sul sugeriu ao presidente eleito um nome para a entidade. Ficando de estudar, como sempre fazia, ao despedir-se Tancredo indagou do senador: “O que você tem contra esse seu indicado?”

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NOME MAL ESCOLHIDO

Houve tempo em que sempre que um governo não queria resolver determinado problema, criava para enfrentá-lo uma “força-tarefa”. Era um bate-cabeça e uma confusão de ministros, funcionários, acadêmicos e diletantes reunidos semanas a fio. Nenhum resultado prático surgia, mas as reuniões geravam notícias, até manchetes, como se estivesse sendo resolvida a grave questão, logo esquecida.

Precisa cuidar-se a presidente Dilma, ao menos com a denominação de “força-tarefa”, escolhida para designar o grupo de seis ministros e montes de altos funcionários com a missão de remediar os efeitos das chuvas que assolam o país. Eles tem todas as chances de não resolver nada, por conta da superposição de tarefas entre vários ministérios, sem falar no ego de cada um. Melhor faria a presidente se definisse apenas um encarregado, ou uma encarregada para o trabalho. O risco é de não haver nem força nem tarefa.

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