Antologia de Balbino

Sebastião Nery

Nereu Ramos assumiu a presidência da República em 11 de novembro de 1955, logo depois da reação do ministro da Guerra, general Lot,t contra a tentativa de golpe da UDN e de Café Filho para impedirem a posse de Juscelino e Jango, eleitos presidente e vice da Republica.

Antonio Balbino, governador da Bahia, foi convidado a indicar um nome para o Ministério da Agricultura. Mandou chamar o deputado Eduardo Catalão, fazendeiro elegante, depois seu suplente no Senado:

– Catalão, indiquei seu nome para representar a Bahia no Ministério da Agricultura. Já dei seu nome ao Nereu, que quer conversar com você.

– Não posso aceitar. A Bahia tem homens mais experientes e mais bem preparados para a função do que eu. Não é justo qeu seja eu o ministro. Além do mais, você sabe que não tenho ambições políticas.

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CATALÃO

– Não é nada disso, Catalão. Você está é com receio da situação nacional. Você sabe que este é um governo eventual, um governo de crise. Se fosse em período normal, um governo tranquilo, você aceitaria. Mas como pode sair do gabinete para ser fuzilado em praça pública, não aceita.

Catalão levantou-se, bateu a mão na mesa e encerrou a conversa:

– Pois se é para ser fuzilado, aceito.

Catalão foi ministro e não foi fuzilado. Balbino era assim. Profundamente inteligente, conhecia a alma dos homens e dos políticos.

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LIMA SANTOS

Henrique Lima Santos (PSD), um dos mais brilhantes deputados que a Bahia mandou para o Congresso antes de 1964, era líder na Faculdade de Direito. Fez prova para motorista, o Detran negou a carteira:

– “Indeferido. O proprietário é fichado como estudante comunista.”

Henrique foi ao secretário de Segurança, o saudoso deputado Lafaiete Coutinho (da UDN e paraibano). Lafaiete achou graça, encaminhou o processo ao governador Antonio Balbino (PSD):

– “Ao sr. Governador, para decidir se o automóvel é de centro, de direita ou de esquerda.” Balbino devolveu o processo:

– “Conceda-se. O automóvel pode ser comunista. Mas a gasolina, com toda a certeza, é americana.”

Henrique sempre dirigiu. Por via das dúvidas, pela pista do centro.

Numa democracia, governar deve ser um exercício de sabedoria.

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VARGAS

Antes de criar a nova Bahia, com um governo revolucionário, Balbino já era nome nacional. Formado em Direito no Rio em 1932, aos 20 anos, orador da turma, com mestrado em economia política pela Sorbonne, em Paris,  jornalista, professor de sociologia, filosofia e finanças,  deputado estadual  e relator da Constituinte baiana de 1934,  em 1950 elege-se deputado federal pelo PSD e, com sua cultura e competência fez tal sucesso na Câmara que, já em 1953, era ministro da Educação.

Em 25 de junho de 1954, manda carta ao presidente Getulio Vargas  demitindo-se do ministério para disputar o governo da Bahia pelo PTB. O final da longa carta de sete laudas é um retrato do caráter de Balbino:

– “Eminente amigo presidente Vargas, consinta-me, ao lhe agradecer tantas e tão reiteradas provas de apreço, consideração e estima com que me distinguiu, quer particularmente quer como seu Ministro, dizer-lhe que lhe desejo de coração todas as venturas pessoais e o mais completo êxito nos seus inexcedíveis e permanentes propósitos de bem servir ao Brasil, mas que se alguma dificuldade surgir nos seus dias futuros – o que Deus evite – dentre os amigos que lhe demonstraram ser certos nas suas horas incertas, por lealdade ao dever de reconhecimento, Vossa Excelência não tenha dúvida de que, na primeira linha, encontrará o Antonio Balbino”.

Dois meses depois, a UDN e os generais tentam tirar Vargas do governo e ele reage ao golpe derrotando a todos – com o suicídio”.

Em campanha na Bahia, mas sempre a seu lado, Balbino.

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TSYLLA

Esse documento e muitos outros (discurso de formatura, de posse no ministério, sobre a Educação e a Cultura nacionais, etc) estão em um belo livro-memória (“Antonio Balbino – Catalogo Comemorativo do Centenário 1912-2012”), que a escritora, professora e neta Tsylla Balbino acaba de publicar, celebrando o centenário do avô, orgulho e sinônimo da Bahia.

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