Ao rebater Dilma, Michel Temer acabou respondendo ao PSDB

Charge do Bier, reprodução do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Rebatendo declarações da ex-presidente Dilma Rousseff sobre cortes de direitos sociais e trabalhistas, o presidente Michel Temer, na realidade, no fundo da questão, respondeu ao PSDB, que vinha exigindo a remessa, ainda este ano do projeto de emenda constitucional restringindo aposentadorias e de projeto de lei modificando pontos básicos da CLT.

Não sou idiota – disse Michel Temer – para cortar direitos dos trabalhadores. Reportagem de Eduardo Barreto e Carolina Brígido, edição de quinta-feira de O Globo, destaca o episódio. No seu pronunciamento, o presidente da República referiu-se também aos cortes que incidiriam sobre os setores da Saúde e Educação.

Michel Temer foi hábil nos esclarecimentos. Inspirou-se num algo aparente para atingir um objetivo indireto oculto pelas palavras para os que não possuem afinidade com o universo político. E reforçou seu pronunciamento com o limite das despesas públicas com base nos índices de inflação registrados pelo IBGE no exercício anterior.

LIMITE DOS GASTOS – Por exemplo: a taxa inflacionária de 2015 foi de 10,6 por cento. Portanto as despesas para 2016, incluindo os salários, não podem crescer mais que 10,6 por cento. O argumento é claro. Incontestável sob o exercício da lógica.

Da mesma forma que os juros reais pagos pelo governo para rolar a dívida interna da ordem de 2,9 trilhões são de 4 por cento, uma vez que passam da inflação de 2015, as despesas oficiais, isso sim, não podem superar o índice do IBGE, Claro. Porque se os juros reais não fossem de 4 por cento (em números redondos), ninguém compraria as Notas do Tesouro, que lastreiam o endividamento. Os investidores maiores optariam por outros papeis.

ÂNGULO POLÍTICO – Mas esta é a face econômica da questão. Retornando ao ângulo político, certamente o PSDB de Aécio Neves entendeu bem claramente a resposta indireta de Michel Temer. Política é assim. Em muitas situações dizer aquilo que os lábios não pronunciam, como assinalava um antigo provérbio mineiro. Efetivamente, sobretudo num ano eleitoral, propor cortar direitos trabalhistas só um idiota poderia supor. Porque nisso se esconde uma armadilha, não para 2016, mas para as urnas de 2018.

Ao tentar impor uma pauta impopular ao presidente da República, o PSDB, de fato, deseja afastá-lo do quadro sucessório, mas obrigando-o a mobilizar o peso de sua administração em favor de um candidato tucano. Que, em tal hipótese, pode não vir a ser Aécio Neves, caso Geraldo Alckmin consiga eleger João Dória prefeito da cidade de São Paulo em outubro próximo. E José Serra? Também é um candidato potencial, mas sua posição, como ministro do Exterior, encontra-se vinculada ao êxito popular da administração.

PELO VOTO – Afinal de contas, o poder se alcança pelo voto. E governos impopulares distanciam-se do Planalto, como reflexo da vontade expressa nas ruas. Como apoiar um governo que diminuiu direitos adquiridos, ou pelo menos, tenta reduzi-los? Impossível. Nada melhor para as oposições, a começar pelo combalido PT, do que esse caminho. Difícil e destacado por seu caráter opressor. Porque, para reabilitar o processo econômico brasileiro, não será cortando direitos previdenciários e trabalhistas.

Tal projeto levará o governo ao fracasso. Michel Temer sabe disso muito bem. Por isso, aproveitou acusações de Dilma Rousseff para responder ao PSDB. Sinal de que assegurou o apoio de seu partido, o PMDB. Caso contrário, sua resposta seria menos direta.

One thought on “Ao rebater Dilma, Michel Temer acabou respondendo ao PSDB

  1. O grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO como sempre faz elegante e compreensiva análise da estratégia do Governo TEMER ( 75) PMDB, em relação ao seu aliado PSDB.
    O PSDB pede com urgência que o Governo TEMER faça logo o “serviço pesado de começar a arrumar a casa”, o que é “impopular”, impopularidade essa que em +- 95% cairia sobre os ombros do Governo TEMER, PMDB, para em 2018/Out o PSDB, depois da casa +- arrumada, se apresentar como o Campeão do crescimento sustentável cada vez mais acelerado.
    Os raposões Políticos do PMDB não cairão nessa armadilha assim tão simplória.
    É muito mais provável que o Governo TEMER aprove a “Lei do Teto de Despesas Públicas”, que é realmente fundamental, ainda este ano, faça a Economia voltar a crescer, e deixe as “Reformas” para depois de 2018/Out.
    Haverá muito barulho e pouca Ação.

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