Apelo ao cavalo

Carlos Chagas

No escândalo do mensalão de Brasília o dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera. As decisões continuam sendo tomadas pelo chefe da quadrilha, o governador José Roberto Arruda. Diante das manifestações de estudantes e sindicalistas pela cassação de seu mandato, primeiro organizou uma caravana de funcionários municipais e de gorilas contratados nos botequins para enfrentarem com slogans e empurrões os grupos adversos. Depois, como na quarta-feira, mobilizou a Polícia Militar, com cavalaria à frente, para espancar mais de dois mil e quinhentos jovens  em atitude de protesto. Foi uma cena digna daquele clássico dos anos trinta, a “Carga da Brigada Ligeira”.

Alguns  ingênuos supõem que mais alguns dias de agitação nas ruas terminarão  por levar os policiais militares a caírem em si e até das montarias, cruzando os braços e negando-se a agredir a população. A última vez que isso aconteceu foi em 1917, em Petrogrado. A tropa a serviço do governador é a mais bem paga de todos os estados, só deve obediência ao seu pagador e continuará investindo sobre a multidão.

Sendo assim, diante de tamanha e tão abominável comportamento, só nos resta apelar aos cavalos para que reajam em nome dos mais elementares princípios humanitários. Neguem-se, os eqüinos, a ceder à imposição das esporas, permanecendo imóveis quando soarem as determinações de avançar e atacar. Pode ser a solução, pelo jeito a única em condições de sensibilizar o presidente Lula a intervir no Distrito Federal, ou a Justiça a punir mais essa leva de ladravazes e  bandidos.

Mais histrionice

Pode parecer brincadeira, mas não é. O presidente Lula anunciou estar enviando ao Congresso mais um projeto de lei transformando em crimes hediondos os atos de corrupção explícita por parte de agentes públicos, contra o erário.   Pelo menos dezesseis projetos iguais ou parecidos encontram-se  nas gavetas da Câmara, sem previsão de votação. Até porque, pouco adiantará a lei determinar penas mais duras para quantos recebem comissões e propinas arrancados de contratos superfaturados de prestação de serviços públicos para irrigar bolsos, bolsas, meias e cuecas de governantes safados.

Quando  a nação espera atitudes veementes do governo federal, seu chefe dá de ombros, evita discutir a intervenção em Brasília e descarrega sua frivolidade nos ombros do Congresso. Mesmo que por milagre o projeto venha a ser aprovado rapidamente, resultará no quê? Na mesma impunidade das quadrilhas formadas cada vez com mais vigor à sombra das administrações municipais, estaduais e federal. O Judiciário carrega sua parcela de culpa, pela morosidade e até a inação, mas, na presente situação, é do Executivo que se devem cobrar providências.

Não demora muito e o palácio do Planalto encaminhará ao Legislativo proposta nos seguintes termos: “Todo brasileiro é obrigado a ser honesto. Revogam-se as disposições em contrário.”

Plebiscito e prorrogação

Mais uma nuvem negra adensa-se no horizonte. Em recente périplo pela Ucrânia, o presidente Lula manifestou-se favorável à convocação de um plebiscito e de uma constituinte exclusiva para  votar a reforma política.

Tem azeitona nessa empada, senão levada ao forno pela ingenuidade do primeiro-companheiro, ao menos por parte dos  malandros de sempre, autores da proposta. Porque não terá limites  uma constituinte exclusiva funcionando ano que vem, em pleno processo eleitoral, com poderes para mudar tudo o que bem entender. Não faltará um  energúmeno para propor a prorrogação de todos os mandatos por dois anos, até que as modificações institucionais se acomodem.

A divulgação dos altos índices de rejeição da candidata Dilma Rousseff começou a gerar armações variadas, todas objetivando a permanência do poder nas mãos de seus atuais detentores. Entre tantos absurdos, um deles acabará prevalecendo, quando menos se esperar.

A festa neoliberal

Ataca outra vez a equipe econômica,  anunciando a destinação de mais 80 bilhões de reais para o BNDES emprestar a investimentos ditos produtivos.  Além disso, haverá a renúncia fiscal de 3,2 bilhões da arrecadação para estimular a venda de computadores no varejo. Ganha a indústria de informática, até mais do que outras, mas a pergunta que se faz é quando o governo vai olhar para o cidadão comum, aquele que paga impostos cada vez mais altos. Porque renúncias fiscais vão beneficiar  os mesmos de sempre, assim como as operações do BNDES continuarão passando ao largo dos assalariados,  proibidos de declarar a própria falência e jamais socorridos pelos condutores da política econômica.

Mantega, Meirelles e companhia permanecem no comando de fato da nação, ao tempo em que o presidente da República viaja e colhe os louros da estratégia responsável por fazer a festa das elites.

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