Após décadas liderando a América do Sul, o Brasil é um estranho no continente

Samuel Guimarães: Ernesto Araújo é “ridículo” e “um louco” e Bolsonaro não deve passar de julho | Revista Fórum

Guimarães destacou com Darc Costa a política continental

Pedro Silva Barros
Folha

O escritor mexicano Carlos Fuentes, quando perguntado se língua portuguesa não era parte do futuro da “hispanidade”, respondeu que o Brasil é um continente em si mesmo. Considerava o país um caso especial dentro da América Latina pela particularidade de ter obtido sua independência pelas mãos do colonizador e de ter sido um império.

O Brasil esteve distante do conceito de América Latina pelo menos durante todo o primeiro século de sua independência, que completará 200 anos em onze meses. O primeiro livro de história geral da América Latina que incluiu o Brasil na análise da região foi escrito pelo escocês William Spence Robertson, professor da Universidade de Illinois, em 1922.

GERADOR DE CONSENSOS – Na política recente, Ernesto Samper, ex-presidente da Colômbia e ex-secretário geral da Unasul, caracterizava o Brasil como um transatlântico gerador de consensos entre as diferentes posições da região. Mas ele entende que o país abandonou a América Latina nos últimos anos.

O maior país latino-americano é o único que não esteve representado na reunião de líderes de 32 nações da América Latina e do Caribe no último dia 18 de setembro no México. O evento foi a retomada da diplomacia presidencial presencial multilateral na América Latina, cuja paralisia havia começado antes da pandemia.

No Brasil de Lula de 2008, pela primeira vez na história, os mandatários dos 33 países da América Latina e Caribe se reuniram sem a presença dos Estados Unidos, Canadá ou qualquer potencial extrarregional. A Cúpula ocorreu na Bahia, estabeleceu uma agenda comum de integração e desenvolvimento e, dois anos depois, ao ser fusionada com o Grupo do Rio, deu origem à Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

TUDO AO CONTRÁRIO – A ausência do Brasil em 2021 contrasta com o comunicado à imprensa da chancelaria brasileira sobre a participação de Dilma Rousseff na Cúpula da Celac de 2011, que destacava que o Brasil possuía embaixadas residentes em todos os países representados na Celac, que a corrente de comércio do Brasil com os países da região havia crescido cerca de quatro vezes em oito anos, entre 2002 e 2010, chegando a 78 bilhões de dólares.

Dez anos depois vemos um Brasil autoisolado. A falta de concertação regional nos últimos anos fez da América Latina uma região mais polarizada e fragmentada politicamente e mais desintegrada comercialmente.

Ao não participar do esforço de reaproximação regional, o Brasil, além de renunciar à sua liderança política, perde economicamente. A corrente de comércio do Brasil com a América Latina tem despencado nos últimos anos. Em 2017 estava em 70 bilhões de dólares e fechou o ano de 2020 em 52 bilhões de dólares.

SALDO DESPENCA – A queda do saldo favorável ao Brasil foi ainda mais significativa, de 17 para 6,5 bilhões de dólares no mesmo período. A corrente de comércio do Brasil com os 32 países da região em 2020 foi 33% menor do que era em 2010, auge da liderança política brasileira na América Latina e Caribe.

Em janeiro de 2020, o Brasil suspendeu sua participação na Celac. O Itamaraty publicou que “não considera estarem dadas as condições para a atuação da Celac no atual contexto de crise regional”. Incomodado por participar de uma instância com Cuba e com o governo Maduro, a resposta brasileira foi o abandono.

Diferentemente da grande maioria dos países da América Latina, o Brasil mantém fechadas sua embaixada e consulados na Venezuela desde abril de 2020. No mês seguinte, o Brasil fechou cinco embaixadas no Caribe. Como era de se esperar, as exportações do Brasil caíram para todos estes países em 2020. A queda média foi de 13% se comparado ao ano anterior, sendo de 38% no caso de Dominica. As exportações do Brasil para o conjunto dos países do Caribe em 2020 foram 10% menores do que em 2019.

CELAC VINHA BEM – ​Diferentemente do Mercosul, da Comunidade Andina ou da Unasul, a Celac não chegou a ter um tratado constitutivo aprovado pelos parlamentos da região ou uma burocracia própria. A diplomacia latino-americana de Cúpulas funcionou relativamente bem entre 2008 e 2016. Acordos eram alcançados a despeito das diferenças ideológicas e manteve um diálogo conjunto do bloco com a União Europeia e com a China. Em ambos os casos seria inadequado realizá-los em conjunto com OEA ou sem o respaldo de um agrupamento regional.

Nesse período a presidência pro tempore da Celac foi exercida por mandatários de diferentes colorações partidárias como o chileno Sebastián Piñera (2013), de centro-direita, a costarriquense Laura Chinchilla (2014), de centro, e o equatoriano Rafael Correa (2016), de centro-esquerda. Eles ilustram a diversidade e pluralidade de líderes da região que apoiaram e fortaleceram a Celac.

Em todos esses anos as concorridas reuniões atraíam ao menos 20 mandatários. Mas em janeiro de 2017 apenas quatro chefes de estado compareceram à Cúpula de Punta Cana, ainda que houvesse representantes dos 33 países.

NA ERA TRUMP – No mesmo mês, Donald Trump havia tomado posse como presidente dos EUA e as negociações sobre a abertura cubana, que haviam avançado nos dois últimos anos do segundo governo Obama, foram paralisadas. Passou a ser difundido o discurso de que a Celac e a Unasul, não passavam de clubes bolivarianos de apoio a Cuba e a Nicolás Maduro.

Soava um pouco estranho porque naquele ano o argentino Mauricio Macri assumia a presidência pro tempore da Unasul e apresentou um candidato para a sua Secretaria Geral, defendendo as ideias originais da organização.

Meses depois, em agosto de 2017, foi criado o Grupo de Lima por doze países americanos, incluindo o Canadá. Em sua primeira declaração a agrupação solicitou a suspensão da Cúpula Celac-União Europeia que estava prevista para outubro do mesmo ano, como forma de isolar a Venezuela.

ESVAZIAMENTO – Em janeiro de 2019, o agrupamento reconheceu Juan Guaidó como presidente da Venezuela e passou a deslegitimar Nicolás Maduro.

O México se afastou do Grupo de Lima, mesmo movimento seguido por Argentina e, mais recentemente, Peru. Parece ser evidente que a governança do Grupo de Lima sobre a crise da Venezuela era muito maior antes da criação do agrupamento do que agora. A última declaração do grupo ocorreu em janeiro de 2021, dias antes de Trump deixar a presidência dos EUA.

O vazio político deixado pelo Brasil vem sendo ocupado exitosamente pelo México. A reunião no México com 16 mandatários, entre eles os presidentes de centro-direita do Equador, Paraguai e Uruguai, coroa a diplomacia mexicana e indica que a estratégia de isolar o governo da Venezuela está perdendo fôlego.

UM NOVO LÍDER – O país de López Obrador recebeu recentemente o governo e a oposição da Venezuela para uma rodada de diálogo mediada pela Noruega e se empenhou para a realização de diferentes atividades da Celac no último ano. A agenda incluiu a criação de uma agência espacial latino-americana e a doação de vacinas para países como Belize, Bolívia e Paraguai.

O Brasil, ao manter a posição de não conversar com Cuba ou Venezuela e mostrar-se inapto para apresentar uma agenda positiva para os outros países da região, acabou ficando sozinho em seu próprio continente.

O país caminhou rapidamente de ser o que mais ganhava com a integração para ser o que mais perde com seu autoisolamento. Parece faltar tanto o espelho como a luz para entender seu passado ou projetar seu futuro.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG É errado atribuir a Lula essa política de liderança na América Latina. Os responsáveis foram o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães e o estrategista Darc Costa, então vice-presidente do BNDES. Depois deles, veio o dilúvio… (C.N.)

9 thoughts on “Após décadas liderando a América do Sul, o Brasil é um estranho no continente

  1. VEM comigo Brasil, simbora para o futuro, porque de nada adianta o choro do leite derramado e nem o eterno amaldiçoamento da escuridão. IMPOSSÍVEL ESTANCAR A SANGRIA DA CORRUPÇÃO SEM FECHAR A FÁBRICA DE CORRUPTOS. E a luta continua, 3ªVia de verdade (Evolução), versus 1ª e 2ª Vias do sistema exaurido. No aspecto político, não sei se são de fato todos farinha do mesmo saco, ou sacos da mesma farinha, porém não tenho dúvida de que são todos camaleões ensaboados com índole de escorpião, porque o sistema político apodrecido, necrosado, os fazem assim, por questão de sobrevivência política. PORTANTO, NUNCA FOI PELOS 30 CENTAVOS DO PASSE LIVRE, E MUITO MENOS PELO RETROCESSO, MAS ISTO SIM PELA EVOLUÇÃO que a Democracia Direta com Meritocracia esteve nas ruas do país em Junho de 2013, aos gritos de “sem partidos, sem violência, sem golpe, sem corrupção, vocês não nos representam”. Não existe e nunca existiu na cabeça da Democracia Direta com Meritocracia o antipetismo e nem anti-bolsonarismo, mas sempre existiu isto sim o anti-continuísmo da mesmice do sistema apodrecido imposto pela república do militarismo e do partidarismo, politiqueiro$, e seus tentáculos, velhaco$, que ai estão há 131 anos, dando as cartas e jogando de mão, e que estão levando o Brasil inteiro ao definhamento face à disputa de poder entre os me$mo$ tipo guerra tribal, primitiva, permanente e insana, por poder, dinheiro, vantagens e privilégios, sem limite$, à moda todos os bônus para ele$ e o resto que se dane com os ônus, os quais mantém a memória do conjunto da população estagnada em dois “milagres econômicos” um produzido durante o militarismo, 64/85, sob a batuta de Delfim Neto, o Czar da Economia da época, ora representado por Bolsonaro, e o outro produzido durante o partidarismo, 86/2018, sob a batuta de Henrique Meirelles, o Czar da Economia da época, representando pelo Lula, restando quantificar qual dos dois milagres, tipo voos de galinha, custou mais caro ao Brasil e ao povo brasileiro que, infelizmente, talvez por bloqueio mental e medo de encarar a verdade dos fatos parece ainda não ter condições mentais de fazer esse cálculo, motivos face aos quais prefere manter a memória congelada no passado que se expressa nas pesquisas eleitorais atuais tipo polarização entre Bolsonaro X Lula, que expressam a ditadura militar de 21 anos consecutivos (1ªVia), versus ditadura partidária de 32 anos a fio (2ªVia), considerando apenas o período 1964/2018 (54 anos de perda de tempo versus tempo perdido), face às quais a Democracia Direta com Meritocracia é a Terceira Via de Verdade, porque representa o megaprojeto novo e alternativo de política e de nação, a Nova Política de Verdade, o novo caminho para o novo Brasil de verdade, porque evoluir é preciso, que, desde Junho de 2013, está batendo na porta da velha política tentando abri-la, na boa, na moral e no jogo limpo, para não precisar derrubar o alambrado e arrombá-la, até porque, em sã consciência, ninguém aguenta mais o continuísmo da mesmice do sistema apodrecido, da velha política, que de fato já morreu, e que transpira decadência terminal por todos os seus poros. https://www.brasil247.com/brasil/apesar-do-antipetismo-de-ciro-e-doria-seus-eleitores-preferem-lula-contra-bolsonaro?fbclid=IwAR1Vwwm6DWG_gig5fD4S4Xs0jMFmGB9QhrK6TQeKPY_G_gEHCYLeYo1MrRM

  2. O comentário político vem de um bolsonarista arrependido.
    Que hoje brada ser terceira via.
    Surrealismo é pouco, pois o candidato do mesmo não tem nome, idéias,plataforma,forma e peso.
    É claro, apoiará o candidato da Globo,por coincidência, de novo.
    Pena que o Lula ganhará no primeiro turno.
    Se sujeitar ao dr.roberto ao menos dava lucro$$$$.
    Aos filhos do mesmo, só derrotas.

  3. “Jair Bolsonaro é uma triste escolha do Brasil”, diz o jornal The New York Times.
    Uma carta aberta ao mundo, a este mundo que está tão preocupado conosco, que até nos comove por tanto amor assim
    O mundo está indignado com o Brasil. O NYT não compreende a insanidade dos brasucas. A The Economist condena a escolha brasileira por uma aventura autoritária. A CNN está com medo do rumo que estamos tomando.
    O jornal El País, da Espanha, aponta o Brasil como um dos países do mundo a caminhar para um regime fascista. Quem mais? Deixe-me ver. Le Monde, The Guardian, Washington Post. Putz! Até o El Clarín!! Nuestros hermanos numa draga de fazer dó e preocupados conosco. Bonitinhos.
    Estou aqui pensando: onde estava o mundo durante estes últimos 15 anos? Onde estavam todos, no Mensalão e no Petrolão? Onde estava o “escritório adjunto do comitê dos direitos humanos da ONU” enquanto Lula financiava clandestinamente o regime de Hugo Chávez e Nicolás Maduro?
    Onde estava o poderoso Barcelona, durante os escândalos de superfaturamento dos estádios da Copa? A CNN, durante a compra das Olimpíadas? E o HuffPost, enquanto Lula, aboletado em um hotel em Brasília, comprava deputados durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff?
    Pois bem. Onde estavam vocês, líderes mundiais, tão preocupados conosco agora? Me engano ou estavam festejando o líder sindical que havia chegado ao poder naquele país simpático, meio exótico da América do Sul, cuja capital é (qual é mesmo?) ah, Buenos Aires? Ops!! Brasília.
    Me engano ou Bono Vox recebia “o cara” do Obama, em uma turnê pela Europa? O mesmo “cara” que hoje está condenado a mais de 12 anos de prisão e é réu em mais seis processos criminais. E o Roger Waters? A Madonna?
    O The Intercept, meu Deus! Será que estava hibernando e não soube da Lava Jato, da Odebrecht e da JBS?
    Sabe, mundo, enquanto você festejava o metalúrgico analfabeto, nós brasileiros estávamos afundados em nossos piores pesadelos, sendo massacrados por uma máquina corrupta que organizou o maior assalto aos cofres de um país na história democrática ocidental.
    Enquanto você, mundo, se divertia com aquela “presidenta” que cantava “happy bordei tu iu“, nós ficávamos sem emprego e sem renda. Sem esperança, tristes, conformados com um destino cada vez mais próximo da Venezuela e cada vez mais distante de vocês.
    Mundo, meu caro. The New York Times e companhia. Líderes mundiais e celebridades globais, por favor aceitem nossa maior gratidão por sua preocupação com nossas eleições. Mas temos de ser bem sinceros com vocês: sabem o que é? We don’t give a damn!
    Traduzindo para o Português: nós não nos importamos; não queremos saber.
    Ricardo Kertzman”

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