Aposenta-se o magistrado libertador do Judiciário baiano

Hugo Gomes de Almeida

Publicada no dia 23 do fluente mês a aposentadoria do desembargador Carlos Alberto Dultra Cintra. Pela sua altivez, por haver-se comportado conforme as aspirações do povo baiano por um Poder Judiciário independente, vem recebendo,  anos a fio, aclamação de todas as classes sociais.

Embora tenha procurado demover Antônio Carlos Magalhães de mais uma imposição ditatorial, que diminuía o Tribunal de Justiça no conceito público, não conseguiu que o velho cacique aceitasse as sensatas ponderações.

Antônio Carlos Magalhães pretendia, à oportunidade, eleger presidente, do mais alto órgão da Justiça estadual, o desembargador Amadiz Barreto, colocado no colegiado como representante do quinto constitucional — advogado que era.

Dultra Cintra também integrou o tribunal pelo quinto constitucional, após cumprir carreira no Ministério Público, a contar da peregrinação por comarcas da hinterlândia e atingir a chefia da instituição.

No episódio em que veio a tornar-se presidente do sodalício da justiça, não conseguindo aclarar as idéias do conhecido régulo, tampouco enriquecê-las de racionalidade, resolveu, a pedido da maioria dos confrades, contrapor-se à candidatura do desembargador Amadiz Barreto.  Apurada a eleição, venceu-o por expressiva maioria. Nessa altura, Dultra Cintra já era o desembargador mais antigo.

IDOLATRIA

Ao pôr fim ao domínio de Antonio Carlos Magalhães na justiça da Bahia e à medida que desfrutava de natural exposição pública, o desembargador Dultra Cintra passou a receber a idolatria da maioria do povo baiano.

Seu ato intrépido foi determinante para que as esquerdas passassem a vencer as eleições na Bahia. Antes, Waldir Pires ganhara a eleição senatorial nas urnas e fora derrotado na contagem dos votos pela subserviente justiça eleitoral.

Hélio Fernandes deve conhecer esse fato histórico, na terra de Rui Barbosa, da eleição de Dultra Cintra. Faço essa afirmativa baseado em fato ocorrido há alguns anos. Quando dirigi — ao grande jornalista — mensagem, comunicando-lhe o passamento da advogada baiana Ronilda Noblat, heroína que a ditadura não dobrou, Hélio Fernandes discorreu sobre a intimorata profissional do Direito, revelando conhecimento de sua vida de lutadora das causas democráticas.

Dultra Cintra e eu fomos colegas de turma, a partir de um curso para o vestibular ministrado pela universidade, e, por um lustro, após ingressarmos na inesquecível Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Ao final do curso jurídico, elegemos paraninfo o professor Marcelo Duarte, cujo discurso foi publicado em página inteira na edição impressa da Tribuna da Imprensa.

NO MESMO CONCURSO

Três meses pós-formatura, disputávamos o mesmo concurso que nos elevou — a ele e a mim — ao Ministério Público da Bahia. Vi-me nomeado para exercer as elevadas funções na Promotoria da Comarca de Prado, extremo-sul da Bahia, comarca continental, onde pululavam os homicídios. Lá, com o meu destemor de jovem, me fora dado viver os dias mais felizes da minha vida funcional, máxime nas refregas do tribunal do Júri, enfrentando o exímio advogado Aquiles Siquara — o maior orador que pude conhecer.

Carlos Alberto Dultra Cintra, nascido em Ipirá, estudou o curso secundário na capital baiana. Cursou o ginasial no Colégio Marista e o clássico no Colégio Estadual da Bahia, Secção Central.

Recebeu aprimorada formação doméstica. Sempre educado e atencioso. Revela elegante simplicidade. Incapaz de descortesias. A fama nunca lhe subira à cabeça. Homem realmente talhado para o exercício de cargos significativos.

Seu maior amigo nos idos estudantis foi o colega de turma João Moacyr da Silva Paranhos, de admirável capacidade oratória, cuja estima me envaidece.

Domina-me a certeza de que Carlos Alberto Dultra Cintra continuará a trajetória de luzes como guia acreditado, mormente nos momentos em que o povo baiano venha precisar de um líder na mais lídima expressão da palavra.

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4 thoughts on “Aposenta-se o magistrado libertador do Judiciário baiano

  1. Meu caro Hugo Gomes de Almeida, mas uma vez te parabenizo pelo que acabei de ler sobre o Desembargador Cintra que você escreveu. Pessoa digna que tive o privilégio de conhecer pessoalmente na posse de Drª Aidil minha grande amiga, como Desembargadora do TJ da Bahia, esposa do também Desembargador Geminiano Conceição. Demoramos num grande e amigável papo. Pessoa extraordinária o Desembargador Carlos Alberto Dultra Cintra, vai deixar uma grande lacuna. Um abração Hugo.

  2. Prezado Hugo de Almeida.
    O Brasil vive hoje uma carência de líderes éticos em todos as atividades. No âmbito do Poder Judiciário ocorre o mesmo fenômeno. No entanto, ao ler o seu arrazoado sobre o nobre desembargador Carlos A. D. Cintra, que ora se aposenta das lides judiciais da nossa querida Bahia, um clarão se abriu no horizonte e percebi que nem tudo está perdido como imaginava. Uma pena realmente, o fato de não ter sido nomeado Ministro do Supremo, assim como a excepcional magistrada do STJ, Eliana Calmon. Você Hugo e a Bahia estão de parabéns.

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