Aprovar MP dos Portos é mais difícil que articular a sucessão

Pedro do Coutto

Em sua coluna de O Globo, edição de terça-feira 14, o jornalista Merval Pereira analisou bem, sob vários ângulos, a dificuldade que o governo encontrou (escrevo na tarde de terça antes da votação) para aprovar a Medida Provisória que, transformada em lei, implanta um novo sistema portuário no país. Um dos ângulos é a atuação de setores do próprio PMDB, que integra a base do Planalto, colocando pedras no caminho num dia para valorizar seu apoio nos bastidores e seu voto, no plenário, no dia seguinte. Mas, seja como for, a presidente Dilma Rousseff encontrou fortes obstáculos. A não aprovação da matéria será uma derrota política com reflexos no processo da sucessão de 2014. Implantar a reforma por decreto deixará no ar a indagação de que, se isso era possível, porque recorrer a um projeto de lei?
Interesses econômicos e financeiros muito acentuados em jogo, o reflexo de tal realidade no Congresso seria inevitável. Interesses setoriais. Deixam claro, como está no título deste artigo, que é maias fácil, para a presidente articular sua candidatura à reeleição do que aprovar um texto legal de reflexos tão profundos no meio empresarial. Inclusive até a Federação das Indústrias de São Paulo, a FIESP, se mobilizou a favor da aprovação. O presidente da entidade, Paulo Skaf, aparece em filme de propaganda institucional. Os gastos com os espaços publicitários foram bastante elevados. A propaganda foi exibida num dos intervalos da novela Salve Jorge, da Rede Globo.
O episódio, seja qual for o desfecho final, deixou claro que o governo necessita mais de apoio parlamentar e político do que provavelmente poderia supor. Uma prévia de um elenco de dificuldades que vão aparecer nas articulações para um novo voo ao Planalto, quatro anos depois da vitória de 2010, quando, no segundo turno, Dilma Rousseff alcançou 56% dos votos. Mas se alternativas para o embate nas urnas são mais restritas do que as que envolvem a matéria da nova lei dos portos. Nesta surgem armadilhas a cada passo. Disfarces também.
PREOCUPAÇÕES
Seja como for, o novo confronto preocupa as bases governistas. Tanto assim que se voltam equivocadamente para tentar impedir o surgimento de um novo partido capaz de fornecer legenda à ex-senadora Marina Silva. Mas esta é outra questão. Embora reflita o temor do Executivo de se deparar com a disputa em provável segundo turno se a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente vier a disputar o pleito. Ela poderia acrescentar o seu nome aos de Aécio Neves e Eduardo Campos, fechando o círculo oposicionista. Mas a permanência de Eduardo Campos na oposição é incerta. Vai depender do que revelarem as pesquisas do IBOPE e Datafolha.
Se os números ajudarem, poderá lançar-se, apesar de não obter a unidade do PSB, seu partido. O governador Cid Gomes, e seu irmão, Ciro Gomes, que também governou o Ceará e foi ministro do primeiro governo Lula se declararam contrários a seu nome. Um complicador para o atual governador de Pernambuco. Mas Aécio Neves também não une o PSDB. José Serra claramente se opõe a ele na busca de espaço para si próprio. Dificilmente Serra conseguirá o intento. No entanto, pode contribuir para abalar Aécio. Seja de qualquer ângulo que se veja a questão sucessória, ela, no fundo, é menos complicada que a lei dos Portos.
Esta, no fundo, não deixa hoje de ser um termômetro para amanhã.
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