Aproxima-se o último ato

Carlos Chagas

Espera-se para esta semana a publicação do acórdão do mensalão no Diário da Justiça, abrindo-se o prazo de cinco dias úteis para os advogados dos réus apresentarem seus embargos, na teoria visando alterar as sentenças. Cada embargo, seja declaratório, seja infringente, precisará ser examinado por um relator designado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal e depois votado pelo plenário.

Há quem julgue possível que o ministro Joaquim Barbosa avoque em bloco as análises e tome a decisão de rejeitar os embargos, ad referendum da maioria dos ministros. Ignora-se quanto tempo levará essa fase final do processo, mas a tendência, na mais alta corte nacional de justiça, é pela rapidez. Sendo assim, o último ato será o recolhimento dos 25 condenados à cadeia, alguns em regime aberto, só para dormir, outros em regime fechado, lá permanecendo o tempo todo.

Perceberam os integrantes do Supremo o prejuízo para a instituição na demora no cumprimento das sentenças, contribuindo para o descrédito popular do Poder Judiciário.

Voltam-se assim as atenções para os condenados. Não deverão cumprir suas penas reunidos num único estabelecimento penal, mas nos presídios mais próximos de seus domicílios. Belo Horizonte, São Paulo, Rio, Brasília e outras capitais acolherão os mensaleiros, sob a supervisão das Varas de Execução Penal de cada cidade. Tudo indica que não terão regalias, como receber visitas fora dos dias estabelecidos, refeições de fora, dispor de telefones celulares e de aparelhos eletrônicos, inclusive televisão. Poderão ficar em celas isoladas ou em coletivos, na companhia de outros presos.

Em suma, haverá ampla curiosidade a respeito deles nas primeiras semanas, mas, com o tempo estarão transformados em presos comuns. Certamente escreverão suas experiências, quem sabe iluminando pontos ainda obscuros das ações praticadas, insistindo em sua inocência.

NA TOCA DA RAPOSA

A presidente Dilma e o ex-presidente Lula deverão estar hoje em Belo Horizonte, para atividades ligadas ao PT e a apresentação de ações sociais do governo. Prevenindo-se, o senador Aécio Neves já concedeu entrevista criticando aspectos do programa federal em Minas. Perto de ser eleito presidente nacional do PSDB, o ex-governador ainda enfrenta a má vontade de alguns tucanos paulistas, mas dificilmente deixará de ser apresentado candidato ao palácio do Planalto.

Ainda possui, como raposa, uma espécie de pulo do gato, que seria concorrer ao governo mineiro diante da hipótese de uma vitória insofismável da reeleição de Dilma. Nesse caso, os paulistas que selecionem alguém condenado ao sacrifício.

DO OUTRO LADO DO MURO

Tudo indica uma pequena alta nos juros, amanhã, quando o Copom se reunir. A decisão foi adotada, ou engolida, pela própria presidente Dilma, diante de um exagerado pânico pela perda de controle do governo no combate à inflação. Talvez não seja bem assim, mas essa é a oportunidade que os bancos esperavam para compensar o prejuízo causado pelas sucessivas quedas nos juros. Quem vai lucrar com o aumento? Ora, os bancos. Quem insuflou a imprensa amiga a produzir matérias alarmantes e inoculou o restante das elites e parte da classe média com o germe da volta ao passado? Eles, é óbvio.

Pode tratar-se de um recuo tático da equipe econômica, pode ser a aceitação de conselhos dados à presidente por Delfim Netto e Luis Gonzaga Belluso, mas a verdade é que o governo cedeu e aceitou parte da doutrina de que crises se combatem com contenção, não com desenvolvimento. O crédito ficará mais difícil mesmo se a elevação dos juros ficar entre 0,25 e 0,50%.

A esperança é de que a moda não pegue e logo sobrevenham aumentos de impostos e cortes nos investimentos sociais. Porque o reflexo no desemprego já começou.

CORRENDO POR FORA

Não se espere até o segundo semestre, do ministro da Pesca, Marcelo Crivella, qualquer propaganda ou sinal ostensivo dos projetos e realizações feitas em seu setor. Sensíveis aumentos se registraram em termos de consumo do pescado no país, mas o objetivo do senador fluminense é atacar de frente os preços do produto. Se conseguir sucesso, estará posicionado para a sucessão no Rio, preparando-se para atropelar o Pezão e o Lindbergh. Aliás, a respeito da pesca, fica a centenária questão: com um dos maiores litorais do mundo e uma fartura inigualável de rios, porque o brasileiro come muito menos peixe do que as populações da China e do Japão? Atacar os pontos de estrangulamento dessa incongruência está nas metas do ministro. Mesmo que dê cadeia para os atravessadores.

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