‘Armar a população é desqualificar as Forças Armadas’, diz ex-ministro da Defesa

Jugmann diz que dar armas à sociedade é uma política contra a vida

Ricardo Brandt
Estadão

Ministro da Defesa em 2016, quando o governo federal elaborou a mais recente Política Nacional de Defesa (PND), Raul Jungmann diz que o presidente Jair Bolsonaro promove um contrassenso com sua política armamentista: “Propor o armamento da população é desqualificar o papel das Forças Armadas”.

Ao avaliar a PND que o governo deve entregar nesta quarta-feira, dia 22, ao Congresso, Jungmann afirma que o poder político tem se esquivado desse debate e lembra que o texto elaborado no governo Michel Temer nunca foi sancionado – o projeto passou dois anos praticamente parado na Câmara e no Senado, foi aprovadas em dezembro de 2018, mas nunca sancionado.  

ALIENAÇÃO – “É a demonstração conclusiva e cabal de que o Poder Político se aliena das suas responsabilidades de definir os rumos, ou seja, as políticas para a Defesa e as Forças Armadas.” Além da PND, o governo deve entregar nesta quarta-feira a Estratégia Nacional de Defesa (END) e o Livro Branco de Defesa, que traçam diretrizes para a Defesa e o papel das Forças Armadas. Por lei, tem que ser revisados a cada quatro anos.

No documento, o governo Bolsonaro aponta que a América do Sul não é mais considerada “área livre” de conflitos, como revelou o Estadão, no dia 16. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

O fato de ter militares no governo significa que as Forças Armadas estão com Bolsonaro?
É só o uso político e simbólico das Forças Armadas. Elas não estão com Bolsonaro, assim como não estavam com Lula, nem com Dilma, nem com Fernando Henrique, nem com o Itamar. As Forças Armadas estão com a Constituição. E o problema é que, como tem um grande número de militares (no governo), a fala deles é tomada como (se fosse) da instituição. Mas não é. O presidente nunca contou e tenho certeza de que nunca contará com as Forças Armadas para a hipótese dele, ou outro, buscar um atalho autoritário.

O governo tem criado cargos exclusivos para militares no Executivo, tem elevado valores de adicionais pagos a militares. Isso é um problema, necessidade ou só política de governo?
Militares sofreram durante muito tempo defasagem salarial. A necessidade de recomposição salarial dos militares era reconhecida, era algo de direito. Precisamos olhar o momento fiscal e econômico do País, tem a questão da pandemia. Então talvez não seja o momento mais adequado, mas é preciso observar os direitos e as condições.

Qual a importância da Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa?
O grande problema é que o Congresso se aliena dessa responsabilidade, porque não tem dado a atenção, não tem debatido, não tem dialogado com os militares e trazido a sociedade para essa discussão que é vital para a soberania e para a sobrevivência de uma nação e do próprio Brasil. A expectativa é de que essa alienação seja revertida. 

O que o senhor destaca da atual PND?
Em política de Estado não se pode dar cavalo de pau. Aproximadamente 90% do que ali está é continuidade e manutenção do plano em curso, áreas estratégicas, os eixos, os objetivos nacionais de Defesa, as ações estratégicas que são mais de 100, elas têm mudanças, mas têm muito mais continuidade. O que chamou atenção foi exatamente a percepção de maior tensão na América do Sul. É verdade que o Brasil não se envolve há mais de um século e meio em conflitos interestatais. Temos que ter Forças Armadas preparadas, balanceadas e modernizadas.

Como o senhor vê a política armamentista do governo?
Infelizmente, recentemente, a divisão de produtos controlados emitiu três portarias fundamentais para o rastreamento de armas, para o controle de armas, para elucidação de crimes e de combate ao contrabando de armas a facções criminosas que foram derrubadas. Isso é um caso clássico, como também se propor o armamento para a população. Ora, qualquer Estado para se constituir tem que ter o monopólio da violência. Da violência legal. E esse monopólio vem exatamente das Forças Armadas. Então propor o armamento da população é desqualificar o papel das nossas Forças Armadas, em relação ao pilar da capacidade posta de defesa da soberania.

9 thoughts on “‘Armar a população é desqualificar as Forças Armadas’, diz ex-ministro da Defesa

  1. Comunista assumido, companheiro disfarçado, nunca escondeu o seu perfil esquerdista, manipula de acordo com os seus propósitos e ideais. Não apita mais, mas gosta de estar no centro das atenções. Se faz de bom moço, mas no fundo é maquiavélico, muito bom estrategista. Bom de conversa e exímio influenciador dos dogmas por ele difundidos. Conclusão: dissimulado. Fica o registro.

  2. A entrevista do Jungmann foi perfeita até ao final quando sofismou…“Propor o armamento da população é desqualificar o papel das Forças Armadas”.
    A defesa institucional é uma e a pessoal é outra coisa. Não há como confundir as duas. Não há como ter defesa pessoal para cada indivíduo em regime democrático,
    As forças armadas fazem a DEFESA NACIONAL, sabe muito bem o ex-Ministro.

  3. Os quase 60 mil mortos anuais, vítimas das armas dos criminosos, seus parentes também pensam assim.
    O último a ser desarmado deve ser o cidadão que tem arma legalizada. Enquanto bandido tiver arma, todo cidadão tem o direito inalienável de possuir uma arma.
    Quem não tiver coragem de usar uma arma, que não o faça, mas também não pode proibir os que tem coragem de se defender.

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