Arte e política: Nelson Rodrigues, Chaplin, Ezra Pound

Pedro do Coutto

O jornalista Ruy Castro, o grande biógrafo de Nelson Rodrigues e cujo nome brilha entre os colunistas da Folha de São Paulo, com o apoio do Sesi-SP e da Fiesp, organizou e coordena um ciclo de palestras e debates sobre as obras do maior dramaturgo brasileiro, na passagem de seu centenário de nascimento.

Participei do primeiro painel junto com o próprio Ruy Castro e as atrizes Maria Della Costa e Léa Garcia focalizando suas dezenove peças e, através do tempo, as mil e 147 incursões da censura contra elas. Um verdadeiro drama o autor vivia nos bastidores. Superou e se consagrou, depois da odisséia em capítulos. A pesquisa sobre Nelson e a censura foi da USP, publicada na revista Anagrama, levantamento realizado em 2008 e 2009. Rodrigues nasceu em 1912, morreu em 1980.

Ruy Castro me convidou para participar de dois painéis. O primeiro já se realizou, como eu disse. Participaria também do tema Nelson e a política, inicialmente marcado para primeiro de agosto, igualmente no palco da Fiesp. Ao lado de Otávio Frias Filho, diretor editorial da Folha de São Paulo, de Ruy e de Nelson Rodrigues Filho. Mas a pedido de Nelsinho, a apresentação foi transferida para 8 de agosto. Não poderei ir, por motivo de viagem marcada há tempo. Uma pena, lastimo muito.

Entretanto deixei este texto com Ruy Castro que me fará a gentileza de divulgá-lo na noite de 8. Tema dos mais importantes, ainda, a meu ver, não bem dimensionado. O texto está no site da Tribuna Internet, editado por Carlos Newton, na realidade um blog aberto a todos.

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ARTE E POLÍTICA

No título busco uma síntese das convergências e divergências entre arte e política. Ao contrário do que vários intelectuais julgam, nem sempre se distanciam. Às vezes convergem.

Exemplo de convergência, O Grande Ditador, de Charles Chaplin, maior filme político de todos os tempos. O artista projetou a liberdade contra a opressão, a existência humana contra a tirania, a esperança contra a volúpia destruidora.

Esta mensagem, inclusive, está no final da fita quando ele e Paulete Godard caminham por uma estrada em direção ao futuro. Chaplin figura entre os grandes nomes do século vinte. Ezra Pound também, poeta, autor de Os Cantos, traduzido no Brasil por José Lino Grunewald, e teve sua arte reconhecida como entre as maiores do século que passou, aparecendo próximo a James Joyce, Marcel Proust, T.S. Elliot, de quem foi amigo próximo. No entanto, por causa da política encontra-se no lado extremamente oposto ao de Chaplin. Americano de Idaho, apoiou o nazismo de Hitler e, quando da invasão da Normandia, em 44, através de uma rádio italiana, mentiu transformando –se num fanático banal. Afirmou que os aliados estavam sendo dizimados por Rommel. Entrou em conflito com os fatos. Um desastre.

Antes de chegar a Nelson Rodrigues, que foi meu amigo, mas que se engajou errado ao apoiar inteiramente a ditadura militar que se instalou em 64 e acabou em 85, desejo colocar em discussão o silêncio de importantes artistas e intelectuais franceses durante a ocupação de Hitler, de 40 a 44. Não foram molestados pela sombra da suástica, tampouco considerados colaboracionistas após a libertação de Paris.

Em 1942, Marcel Carné dirigiu Les Enfants Du Paradis, maior filme francês de todos os tempos. Em 43, Sartre escreveu O Ser E O Nada, sua maior obra. Em 44, Merleau Ponty concluiu A Fenomenologia Da Percepção, obra importantíssima. Ele e Jean Paul Sartre editaram a revista Tempos Modernos. Sacha Guitry, levou ao palco a comédia Se Versalles Falasse, anos mais tarde transporta para o cinema. Nada sofreram. Sobreviveram com sua arte e o seu talento. Um mistério.

Nelson Rodrigues não teve o mesmo destino. Passou anos no indez dos pensadores reformistas e dos jovens artistas. Nas Confissões de O Globo procurou nublar a visão social do arbítrio e da tortura. Foi seu erro. Sem dúvida. Mas redimido hoje, e para sempre, pela força e presença de sua obra eterna. Não chegou a concluir a que seria sua última peça: O Reacionário. Seria ela uma confissão? Seja como for, foi salvo pelo próprio silêncio e pela voz das gerações, como disse Brecht, que vêm e virão depois de nós.

Nelson Rodrigues será moderno para sempre. Enquanto existir o ser humano. Ele viverá. Assim como Shakespeare.

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