Artur da Távola e suas músicas clássicas que faziam bem à alma

Carmen Lins

Eu gostava e gosto muito do Artur da Távola.  Não perdia o programa que ele apresentava na TV Educativa, “Quem tem medo de música clássica”?  Ele escolhia músicas lindíssimas, explicava   a composição,  comentava a entrada dos  instrumentos e depois  colocava de novo para tocar sem falação alguma. Eram músicas que faziam bem à alma.

“DESPEDIDA”
Artur da T
ávola

Nunca se sabe onde está uma despedida. Até no afã do até logo pode esconder-se um nunca mais. Na frase infeliz, na simples conversa, algo pode estar morrendo, do amor ou da amizade.

Há despedidas que não são patentes. Não se lhes percebe o estalo do afastamento, que pode estar no instante de mau humor, na resposta infeliz, na alegria que não se repete ou na palavra que deixamos de dar e receber. Às vezes, está na palavra que dizemos.

Nem sempre as pessoas se separam: esgarçam-se às vezes. Viver esgarça. É algo que se afasta sem romper completamente. Também no que esgarça pode haver despedida pois, embora não haja perda de matéria, nunca mais será como antes.

Despedir-se é sutil, nem sempre aparece. Seres em mutação, vivemos a mudar sem saber. Na mudança, transforma-se em recordação o que antes era união e vontade, amizade ou convivência. Tudo faz-se retrato, álbum, caderno, poema, carta, saudade ou memória. A despedida não é por querer: acontece a despeito. Um simples “até já” pode conter inimagináveis nuncas. Ou sempres.

Maravilhosa e cruel a vida! Tudo pode acontecer. As ligações, salvo poucas, fazem-se precárias e falíveis. Nosso destino é preso a acontecimentos semicontroláveis. Ou impulsos, cansaços, e as discordâncias, são imprevisíveis. E geram despedidas antes insuperáveis.

Ninguém sabe de quem se afastará. Nem quais as amizades e amores de toda a vida, nada obstante existam. Raros captam a dor que estala em cada hipótese de despedida. Separar-se contém sempre a hipótese da despedida. Por isso, uma dor sempre se infiltra em cada afastamento. Algo se assusta, escondido em tudo o que se separa. Ainda que para ir ali pertinho e logo voltar.

Quem viaja ameaça a despedida. “Partir é morrer um pouco”. Dizem os franceses, e com razão. Ainda que para encontrar-se depois, quem parte arrisca despedidas. Por isso, a emoção subjacente percorre-lhe o mistério e a “região das certezas absolutas”.

As grandes despedidas dão-se – contudo – sem que o percebamos. As que sabemos e sofremos não são despedidas completas, pois a saudade e a memória hão de trazer de volta o sentimento genuíno que agora causa dor. As grandes despedidas infiltram-se no cotidiano e nos atos corriqueiros de cada dia sem ser percebidas. Muitos anos depois, vamos verificar que disfarçado em dia-a-dia ali estavam e estalavam saudades antecipadas, vários nuncas dos quais jamais suspeitamos. Nunca se sabe onde está uma despedida. A não ser muito depois.

8 thoughts on “Artur da Távola e suas músicas clássicas que faziam bem à alma

  1. “Nunca se sabe onde está uma despedida. A não ser muito depois”.

    Foi o que aconteceu com meu pai. Era fevereiro, estava muito quente. O ar da casa dele não refrigerava bem. Eu o chamei pra dormir na minha casa. E ele disse: “Então arruma lá”.

    Arrumei, ele veio. No meio da noite acordou e derrubou o pires com o qual eu cobria seu copo. Acordei assustada, Gritei: “Pai?” E então ele me disse que estava estranhando a ‘cama nova’, que não havia dormido até àquela hora. Perguntei se ele queria trocar de lugar comigo, ele disse que não, e ainda comentou como deveriam estar sofrendo as criancinhas com aquele tempo quente.

    Antes que eu voltasse a dormir ele falou, como se me avisasse e eu nada percebi. “Amanhã é dia da Sonia (a moça que trabalhava conosco), você vai deixar o ar ligado até de manhã?”
    “Vou, pai”, respondi.

    Ansioso com a situação diferente, tudo fechado, talvez tivesse tido receio de não ouvir a campainha tocar na casa dele, ao lado da minha. Nem sei se dormiu. Mas na hora eu disse: “Dorme, pai”. Foi nossa última conversa.

    De manhã, quando levantei, ele tinha ido pro ap. dele, ao lado. Falei com a Sonia, ela disse que ele tinha voltado a deitar porque estava muito cansado. Tomei meu café e converse com ela. Meu pai não levantava. Fui até a porta do quarto, Ele estava deitado de costas pra porta, de frente pra janela. Suas costas não se mexiam, Chamei a Sonia, disse pra ela (não sei como consegui) que as costas do meu pai não se mexiam. E ela: “Que isso, dona Ofelia?”
    Ela entrou no quarto (eu na porta, não passei da porta) e mexeu nele. Estava morto.

    Chorei durante um ano. Eu abria o armário dele, abraçava as camisas (vaidoso, ele adorava uma camisa nova) e me deitava na cama dele, abraçado a uma delas. Chorava até dormir.
    Muito de mim morreu com meu pai, meu melhor amigo.

    É. “Nunca se sabe onde está uma despedida. A não ser muito depois”.

  2. Ofélia, você me fez lembrar a poesia de Manuel Bandeira para “Mário de Andrade ausente” da qual coloco uma estrofe
    “Mas agora não sinto a sua falta.

    É sempre assim quando o ausente Partiu sem se despedir:
    (Você não se despediu.)
    Você não morreu: ausentou-se.
    Direi: Faz tempo que êle não escreve.
    Irei a São Paulo: você não virá no meu hotel.

    Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.
    Saberei que não, você ausentou-se.
    Para outra vida?
    A vida é uma só. A sua vida continua
    Na vida que você viveu.
    Por isso não sinto agora sua falta.”

    Imagino como você ficou diante de uma morte tão inesperada; como é dificil dizer adeus a quem partiu sem se despedir. Só o tempo cicatriza a dor da ausência.
    Para mim, a despedida é sempre emocionante. Mesmo quando a gente sabe que se trata de uma viagem de ida e volta. Quando me mudei do Rio para BH foi aquele chororô da familia!
    Essa crônica de Artur da Távola fala muito ao meu coração. Parece que ele conhecia meus sentimentos.

    • Sabe, Carmen? Cicatrizar de todo não cicatriza não, a pele que se forma na alma é tão fina que qualquer coisa a fere de novo, mas nada há a fazer.

      Da minha mãe, que morreu pouco menos de três anos antes dele, me despedi todo dia, por longos anos. Ela teve Alzheimer, disseram os médicos. Deu mais tempo de dizer adeus.

      Seja como for, toda despedida é doída.

      Acompanhei as crônicas do Paulo Alberto Monteiro de Barros – o Artur da Távola – por muitos anos. Ele escrevia no Globo. Fui até a uma noite de autógrafos dele no Largo do Boticário, em Laranjeiras (ou ali é Cosme Velho?).

      Lembro que eu tinha um livro dele, Me Vi Te Vendo. Não lembro é se foi o mesmo que ele autografou. Meus livros estão entocados, não mexo neles. Aliás, mexo em poucos, nos que escaparam do armário-estante e estão em outro móvel.

      Livros são grandes companheiros, mas minha alergia a pó, a cheiro de papel tem me afastado deles.

      Gostei, Carmen, de rever Artur da Távola. Foi uma boa e sensível lembrança a sua. Obrigada.
      Abraço
      Ofelia.

  3. Meu vizinho de prédio em Ipanema, de 58 a 64, quando ainda morava com sua mãe, Dona Magdalena, gauchona simpaticíssima. Àquela época, ainda menino, cheguei a panfletar para ele em sua candidatura a deputado estadual pelo PTN no Estado da Guanabara, se não me engano foi o deputado mais jovem a ser eleito até então.

    Paulo Alberto foi uma das criaturas mais brilhantes que eu conheci. Chegamos a nos encontrar algumas vezes, muito tempo depois, quando ele voltou a morar no mesmo prédio e eu em frente.

    Um doce de pessoa.

  4. Que legal, Ricardo Froes! Você é um privilegiado ter conhecido o grande Artur da Távola. Eu envia-lhe e-mails e ele respondia-os mas nunca o conheci pessoalmente. Livros dele, tenho alguns.

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