Ary Barroso, Francisco Alves e Tom Jobim continuam vivos na eternidade

Tom homenageado na abertura da Olimpíada, sem Vinicius

Pedro do Coutto

A arte, de fato é algo eterno, criativo e parte de uma sensibilidade que poucos possuem para projetar suas obras, que através dos tempos permanecem admiradas e revividas. Foi o que aconteceu no esplendor do Maracanã no espetáculo de abertura da Olimpíada Rio-2016.

Francisco Alves morreu em 1952, Ary Barroso em 1964 e Tom Jobim em 1994. Portanto são décadas que separam sua existência na Terra  e as repetições que suas obras motivam e emocionam. Ao som de Aquarela do Brasil, na voz de Francisco Alves, o samba exaltação que Ari Barroso compôs em 1940 poderia ter sido composto hoje, tal sua atualidade emocionante e de musicalidade fantástica.

Foi importante a escolha dos organizadores da noite esplêndida em recorrer à voz do passado de Francisco Alves para interpretá-la sem o intervalo das décadas que marcaram sua criação. Foi igualmente fundamental a reapresentação da Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes para passar o sentimento de uma atmosfera carioca do passado recente e que levou a uma gravação de Frank Sinatra.

A ARTE É ETERNA – A arte, na realidade não tem tempo marcado, mas pertence a todos os tempos enquanto existir o sentimento humano e a forma de apreciá-la. É o caso de Ari Barroso, Francisco Alves e Tom Jobim, além de muitos outros que assinalaram sua passagem focalizando a poesia na vida indispensável ao sentimento humano.

Todos eles, portanto, não se podendo deixar de incluir Noel Rosa, Cartola, Orlando Silva, Silvio Caldas e tantos outros assinalaram momentos de rara beleza e os deixaram à disposição de todos nós, que amamos a arte e nos emocionamos com suas interpretações.

Falei na Aquarela do Brasil como samba exaltação, esta era a opinião dos críticos da obra musical brasileira inesquecível e inultrapassável. Mas, acredito que, além de um samba exaltação, trata-se de uma verdadeira sinfonia.

Por que, mesmo sem conhecer música, digo isso? Porque há mais de 50 anos jantando com meu amigo José Lino Grunewald no antigo Parque Recreio, então na Praça José de Alencar, estávamos numa mesa próxima àquela em que se encontravam Ary Barroso, Dorival Caymmi, Haroldo Barbosa, Chico Anísio e a atriz Nanci Wanderley, e ouvimos Ary Barroso dizer a Dorival Caymmi: “A Dora que você compôs não devia ser uma peça só. É uma beleza, você deveria aproveitá-la para transformar em uma sinfonia”.

Se Dora, Rainha do Frevo e do Maracatu, deveria ser uma peça sinfônica quanto mais a própria Aquarela do Brasil. Daí porque achei perfeito o aproveitamento da voz de Francisco Alves que proporcionou ao mesmo tempo o tom sinfônico da obra, sem prejudicar a grande batucada contida na inspiração monumental do compositor.

EM HOLLYWOOD – O sucesso da Aquarela do Brasil chegou a tal ponto que na década de 40, e lá se vão 76 anos, levou Ary Barroso a Hollywood. Foi uma consagração intencional e inesquecível, como inesquecíveis também são as interpretações de Chico Alves e Tom Jobim. Pois a arte não pertence a um só período da história, mas a todos os espaços de tempo do presente e do futuro.

Acertou a atriz Sarah Bernard quando, no início do século XX, no surgimento do cinema ao filmar a Dama das Camélias, que já a consagrara no teatro afirmou que “agora sim, ingresso na imortalidade”. Com base na bela frase do passado, afirmo agora que Ary, Francisco Alves e Tom Jobim ingressaram nessa mesma eternidade e continuam vivos nas canções que deixaram no passado para todos nós no presente e no futuro.

Para nós e para aqueles, como definiu Bertold Brecht, que vierem depois de nós.

4 thoughts on “Ary Barroso, Francisco Alves e Tom Jobim continuam vivos na eternidade

  1. Prezado Pedro do Coutto ,

    Você escreveu um artigo memorável , sábio , útil para quem o compreende, e adentra pela compreensão do fazer a Arte , da imortalidade de
    Ary Barroso, Dorival Caymmi, Haroldo Barbosa, Chico Alves , Tom Jobim , Sarah Bernard e Bertold Brecht . O que torna essas pessoas imortais , o mesmo não acontecendo com a imensa maioria da população , que fora a família e amigos, gozam de um tempo de luto , mas depois mergulham no Limbo do esquecimento ?

    Como concordo inteiramente com seu artigo, vou apresentar em adendo minha explicação para este fenômeno : imortalidade versus esquecimento eterno.

    A escritora , pianista e maestrina Chiquinha Gonzaga , com suas marchas de Carnaval e algumas músicas eruditas foi expulsa de casa pelo pai por insistir em aprimorar seus conhecimento de música e piano num Cabaret. Chiquinha foi morar no Cabaret, e lá teve mais instrução musical e companheiros músicos, e foi de lá que criou suas belas canções. Tornou-se imortal , e está presente em todos os nossos carnavais e mesmo nos períodos entre carnavais porque muitos se percebem cantando suas canções espontaneamente nos lugares mais variados.

    Mas ninguém nem sabe o nome do pai de Chiquinha Gonzaga, que era um general , nem o nome de seus irmãos. Estes morreram mesmo. Foram para a eternidade no Limbo do esquecimento. Viraram pó simplesmente.

    Vou, então, publicar um excerto pequeno (pequeno em relação ao artigo que é enorme) de meu trabalho “O Duplo Registro de Memória” , que traz a minha opinião do por quê isso acontece com as pessoas. Quem estiver, depois, interessado em ler todo o artigo é só acessar http://www.pravda.ru não esquecendo de escrever ao lado “em português”, caso contrário o Pravda abrirá em russo. Eis a minha descoberta de porque estes fatos acontecem, porque alguns se tornam imortais e outros vão para o esquecimento eterno:

    Nosso destino é construído no decorrer da ontogênese, como edificação psíquica fantasmática que se inicia no útero com impressões e emoções emanadas do inconsciente materno.

    O destino habita o porão da nossa mente, de tal maneira que cada um de nós, dependendo de como resolve, ou não, o complexo de Édipo, determina para si próprio, sem nunca o saber conscientemente, isto é, com os recursos da memória comum que conhecemos, todo o trajeto de vicissitudes que irá percorrer pela vida afora.

    Não está escrito nos astros, embora muitas vezes possa ser previsto à perfeição por astrólogos, cartomantes, videntes, pais-de-santo: não porque forças do além ou almas do “outro mundo”, que não existem, venham em auxílio para esses maravilhosos paranormais. O que acontece é que estes têm a faculdade, ainda desconhecida da ciência em sua fisiologia, de fazer a leitura direta do inconsciente (do consultado) pelo inconsciente do paranormal.

    Todavia, é de conhecimento público e universal que estas acertadas previsões, acertadíssimas muitas vezes, apenas reportam para o consultado o que vai ocorrer em sua vida, mas exatamente são acertadas porque nunca servem para mudar o curso do destino do consultado ou de sua história. Não há psicoprofilaxia para miríades possíveis de autoconfigurações ontogenéticas da psicogênese de cada um de nós, já que dependem, cada uma, de fatores intrínsecos e ainda imponderados de cada criança que vem ao mundo, parecem depender pouco ou nada do nosso DNA já que gêmeos homozigóticos podem traçar para si destinos completamente diferentes – o que isenta os pais e a família de qualquer responsabilidade.

    .No cume de minha carreira profissional, que se deu no ano de 1991, descobri a “Memória dos Freitas” (e aqueles que ficarem curiosos porque dei à memória que descobri o nome de minha família digo que foi por um imperativo categórico, exaustivo e desnecessário de explicar aqui, mas extensamente explicado no meu livro, constante da bibliografia)4 e a publiquei na terceira edição de meu livro “Psicofarmacologia Aplicada à Clínica”.

    A Memória dos Freitas é uma descoberta psicanalítica e é uma expressão de nosso destino. A imensa maioria das pessoas passa a vida estritamente dentro de seus preceitos e limites, mas uma minoria de pessoas rompe com estes, embora mesmo assim sua influência sobre tais rompedores continue implacável por toda a vida.

    Aqueles que vivem unicamente nos preceitos e limites da Memória dos Freitas são a maioria do povo, os menos inquietos com seus dogmas, os que não sentem necessidade de criar, de procurar um pensar genuíno, inovador ou mesmo revolucionário, nem mesmo alcançam uma diferenciação de self do conjunto simbiótico da horda humana em que vivem. Comportam-se, no mundo, como rebanho.

    Para os que podem usufruir desta benesse, há uma tessitura de vida pronta, aprendida e apreendida na casa parental, no convívio social, e, em geral, podem ter garantido para si uma vida menos atribulada, ou até estável, já pronta -como destino- no porão da mente. Mantêm-se na mediocridade de ser e não precisam transgredir a Memória dos Freitas.

    A Memória dos Freitas é a memória sócio-cultural-inconsciente-familiar-pessoal do indivíduo, sua mitologia, sua religião e crenças, seus ideais a serem perseguidos, dentro de sua tradição e seu folclore. Os transgressores não o fazem por prazer mas por necessidade (inquietação anímica, sensibilidade supra-mediana). A compositora Chiquinha Gonzaga, por exemplo, cuja vida anímica não cabia em sua tradição familiar e cultural rompeu pela esquerda com a Memória dos Freitas.

    Quando há esta ruptura, torna-se impossível regressar a esta memória e viver dentro de seus preceitos, e o indivíduo transgressor é obrigado a criar para si e para o mundo, redesenhar o universo para renominar as coisas, outros meios e métodos, outros paradigmas, outros ideais a serem perseguidos, outra maneira que lhe ajude a não sucumbir ao caos que decorre do abandono de padrões familiares, culturais, sócio-educativos pré-estabelecidos no decorrer e na construção feita por várias gerações suas ancestrais, cujo objetivo é “enquadrar” o rebanho e tornar possível a vida em sociedade (a mediocridade do enquadramento como rebanho é necessária, pois sem as normas inconscientes, as massas promoveriam a barbárie e a autodestruição: a Memória dos Freitas é uma necessidade humana, nesta pré-história do humanismo).

    Para os que rompem pela esquerda, criar passa a ser uma tarefa árdua e compulsória, ah! esses príncipes e pricesas da solidão!, mesmo que aparentemente acompanhados.

    O sujeito bem adaptado à Memória dos Freitas vive, em geral, sem grandes inquietações interiores, e suas ambições coincidem com as de seu meio sócio-cultural, sendo por isso bem aceitos em suas comunidades.Tais pessoas podem enriquecer de dinheiro, tomar postos no grande empresariado, nas lideranças políticas ou religiosas, podem ser excelentes profissionais liberais, como também podem -a maioria- fazer parte da população de baixa renda. São todos estes os indivíduos comuns do povo e sua maioria é aquilo que podemos chamar de “pessoa normal”.

    Para aqueles que rompem pela esquerda com a Memória dos Freitas, surgirá, inexoravelmente, a hostilidade familiar e social: o sujeito passa a ser visto como esquisito, extravagante, ou mesmo “maluco”. Todo este mal-estar que causa à família e ao meio social que freqüenta provoca, nestes últimos, a reação de contrapartida, cujo objetivo (inconsciente) é forçar a volta daquele que rompeu para os cânones da Memória dos Freitas, já que o rompedor questiona dogmas e valores sociais vigentes, ameaçando a homeostase do rebanho.

    Um artista ou escritor de talento, um compositor ou pintor criativo, irá experimentar estranheza ante aquilo que, antes, lhe era familiar, e passará a questionar e mudar sua visão de mundo. Há, então, de pagar o ônus de ser diferente para conseguir conviver com aceitável harmonia no meio social que o hostilizará. Paradoxalmente, com o passar dos anos (mas às vezes, infelizmente só post-mortem) terá compensações e reconhecimentos, que normalmente tardam. Mas certamente ganham para si próprios os louros de maior riqueza na vida espiritual , além de deixar um legado conceitual enriquecedor para a humanidade.

    A Memória dos Freitas é , também, uma fonte de conhecimento de nossa pré-história, e neste sentido não pode ser desprezada. Por exemplo, nos sonhos, na regressão hipnótica, nas rememorações verdadeiras -embora ainda explicadas com teoria pífia e errônea- ocorridas nas auto-denominadas “terapias-de-vidas-passadas” (que são inócuas exatamente por causa da fundamentação teórica bizarra), em gestos e comportamentos “involuntários” (inconscientes) que o indivíduo reproduz no cotidiano ou em alguma época de sua vida, tais como uma maneira de andar (lembrar a Gradiva, de Jansen, analisada por Freud), ou movimentar coreograficamente as mãos e o corpo ou comportar-se com gestos, temperamento, caráter tal qual um bisavô ou bisavó que nunca conheceu (características muitas vezes atávicas), ou uma compulsão para adoecer das pernas a partir de uma certa idade, na velhice, comum em algumas gerações de famílias que acompanho e anoto o registro4, de tal maneira que o descendente remoto, irmãos e primos param de andar sem razão médica detectável, imitando mesmo que atavicamente seus ancestrais desconhecidos.

    Toda esta constelação de fatos pode nos dar pistas sobre as “vidas passadas”, o destino e a Memória dos Freitas ao sujeito transmitidos por seus antepassados, de forma sub-reptícia, inconsciente, predominantemente averbal, até porque de antepassados que sequer conheceu, às vezes muito remotos no tempo. Esta transmissão inconsciente de códigos comportamentais e de destinos foi, de certo modo, reconhecida por Freud como fenômeno natural da psiquê humana. Disse Freud no Capítulo V10 (vide página na bibliografia) de seu livro “Esboço de Psicanálise”, uma de suas últimas obras, que “os sonhos trazem à luz um material que não pode ter-se originado nem da vida adulta de quem sonha nem de sua infância esquecida. Somos obrigados a considerá-los parte de uma herança arcaica que uma criança traz consigo ao mundo, antes de qualquer experiência própria, influenciada pelas experiências de seus antepassados.

    Descobrimos a contrapartida deste MATERIAL FILOGENÉTICO (o grifo é meu) nas lendas humanas mais antigas e em costumes que sobreviveram. Dessa maneira, os sonhos constituem uma fonte da pré-história humana que não deve ser menosprezada”. Aqui vemos com clareza que Freud reconheceu o fenômeno da transmissão de códigos inconscientes comportamentais, transgeracionais e sócio- culturais entre gerações que sequer tiveram contato temporal, mas também podemos notar, com igual transparência, seu erro teórico crasso, absurdo para os conhecimentos da ciência atual.

    Para Freud, a gravação da memória de costumes, lembranças e códigos comportamentais a nós transmitidos por nossos antepassados seria filogenética, isto é, repassada das vivências de gerações antigas para e pelo DNA.

    O pai da psicanálise não estava sozinho ao pensar assim em sua época (Jung também)4. A Lei da Herança de Caracteres Adquiridos, da Teoria da Evolução de Lamarck3 (na bibliografia) ainda tinha adeptos, incluindo-se a Teoria da Degenerescência, que Freud abraçou em sua obra, embora timidamente; e entre os adeptos de Lamarck estava Freud, que se opunha à Teoria da Evolução de Charles Darwin, jamais abraçada por ele (embora Freud cite Darwin algumas vezes em sua obra, e lhe faça elogios, o que fez com a razão, Freud escreveu o nome de Darwin em sua obra como os católicos escreveram o nome de Pôncio Pilatos no CREDO: o nome está lá mas não tem nenhuma função: não há uma só interpretação nos casos clínicos de Freud ou uma só frase em seu oceano de insights contido em suas obras completas que tenham sido intuídos com matizes subjetivos da teoria darwinista. E isto tem uma explicação. A teoria darwinista jamais foi abraçada por Freud porque supostamente (até hoje) fere as escrituras sagradas judaicas. Freud era ateu, admirava Darwin com sua razão, mas por motivo afetivo jamais conseguiu se distanciar, inconscientemente (Memória dos Freitas) da cultura e da tradição judaicas, às quais foi sempre solidário, nos acertos e nos erros.

    Hoje, nem uma criança de ensino médio ou Freud se permanecesse vivo iriam aceitar explicações lamarckistas. Sou obrigado a abrir um parágrafo aqui porque desde 1991 tenho experimentado oposição na troca verbal de idéias com analistas vários, judeus e não judeus, por causa desta minha afirmação de que Freud abominava emocionalmente Darwin e se apoiava em Lamarck para (inconscientemente) proteger a cultura judaica. Já me chamaram até de anti-semita! Outros, menos radicais, dizem que não é verdade, que Freud adorava Darwin: prezados leitores, é só ler Ernest Jones1 na bibliografia e nas páginas que indico neste trabalho, o insuspeito Ernest Jones, para fazer calar estes insultos que venho recebendo há treze anos.

    Acho que o próprio Freud treme no túmulo cada vez que ouve um psicanalista argumentar estes horrores ortodoxos e dogmáticos contra minha descoberta. A investigação sobre a transmissão de códigos entre gerações, falada por Freud, nunca foi prosseguida (nem se fala nisso) pelos psicanalistas porque há muita ortodoxia e, pior, dogmatismo, mesmo entre os psicanalistas. E logo dogmatismo, lendo como “Bíblia” as palavras do pai da psicanálise, que nunca pediu rebanho e tinha horror de fanáticos-dogmatistas! Ortodoxia psicanalítica ou dogmatismo psicanalítico = Memória dos Freitas dentro da própria Psicanálise.

    Quem foi mais heterodoxo com suas próprias idéias, insatisfeito com a primeira criou a segunda tópica, entre muitos outros exemplos foi o próprio Freud, o gênio que possibilita eu hoje estar escrevendo este artigo. Mas não imagina o leitor quão difícil é colocar este assunto, quanto sofrimento, quanta incompreensão tenho recebido. Mas não tenho como sucumbir ao dogma. Minha teoria pode ser refutada (e espero que seja) pelos critérios de Popper, epistemologicamente. Mas na base da ortodoxia psicanalítica, não. Até porque este não é o critério de refutar teorias.

    E estou convencido de estar com a razão. Por outro lado, no vácuo teórico deixado por Freud, os espíritas passaram a “explicar” esta “memória-de-vidas-passadas” com uma teoria tão absurda quanto a de Freud. A teoria dos espíritas é consensual, hoje, entre os “terapeutas-de-vidas-passadas” no mundo todo, e se alastram tanto quanto as diferentes seitas evangélicas Brasil afora, fazendo vítimas. Acreditam estes “terapeutas”, todos espíritas, que no setting da seção de “terapia-de-vida-passada” almas do “outro mundo” encarnam-se no paciente, hipnotizado ou não, o que, então, para estes, explicaria suas lembranças de épocas remotas, anteriores ao seu nascimento. Claro, assim também não dá.

    Todavia o fenômeno, já notado por Freud, de reminiscências que o sujeito tem de fatos que antecederam a seu nascimento é um fato da natureza humana e tudo que é fato da natureza insiste em acontecer e reclama uma explicação. O que fiz ao nominar (criar) a noção de Memória dos Freitas foi refutar, de acordo com os critérios epistemológicos de refutação de Karl Popper, as duas teorias acima descritas, a de Freud e a dos espíritas, trazendo uma nova teoria que contradiz aquelas e oferecendo ao leitor os meios de refutar a minha própria teoria.

    O conceito e a constelação de proposições que compõem a Memória dos Freitas, porém, não se esgota aqui. Na verdade, coloquei à frente este assunto da memória entre gerações não conviventes por seu apelo à atenção pública, mas este é apenas um assunto um tanto periférico de minha descoberta.

    Outros aspectos mais relevantes e mais importantes da Memória dos Freitas vou abordar no capítulo 2 deste ensaio, para dar uma folga ao leitor para respirar. Todavia, acrescento que as lembranças de fatos que ultrapassam no tempo a época do nascimento de pacientes, pelo que observo em minha clínica, não se referem somente a parentes ancestrais consangüíneos: podem ser do ambiente de uma família adotiva, o que sepulta de vez a hipótese de transmissão pelo DNA.

    E, ainda, estas lembranças podem ser interpretadas e decodificadas no setting da psicanálise4. A psicanálise, ao decodificar e interpretar a Memória dos Freitas, muda o destino, e não há cartomante ou vidente paranormal que possa prever o que virá a acontecer no futuro de um paciente bem analisado.

    Outras conseqüências de minhas descobertas, em parte publicadas neste primeiro capítulo e aqui em primeira mão, já que quando publiquei a 3° edição de meu livro4 ainda não havia percebido isso, é que só há indicação de psicanálise para aqueles que rompem pela esquerda com a Memória dos Freitas.

    É crueldade psicanalisar um paciente, mesmo neurótico, bem adaptado à Memória dos Freitas porque a psicanálise (se for bem feita) irá fazê-lo romper com a Memória e trará sofrimento para o paciente, muitas vezes sem a força criativa necessária para reordenar o caos que daí decorre, mesmo com auxílio do analista.

    A pobreza de espírito, a adaptação à mediocridade são, portanto, contra-indicações absolutas de psicanálise. Já os que rompem pela direita com a Memória dos Freitas – psicopatas, dementes, esquizofrenias com sintomas negativos (a hebefrênica especialmente), esquizofênicos cronificados, deficiência mental- a psicanálise é uma hipótese que deve ser definitivamente afastada: nessas pessoas não há como criar e reordenar o caos pelo insight e interpretações, provocando uma ruptura impossível pela esquerda com a Memória dos Freitas. See more at: http://port.pravda.ru/news/sociedade/cultura/08-11-2004/6449-0/#sthash.lFEVFKw0.dpuf

    • A voz de Francisco Alves abriu a cortina do passado. Eu a ouvi apenas na infância. Que me lembre. E mexeu muito comigo porque sou do tempo do rádio.

      Os mais jovens podem ter perguntado de quem era a voz, nunca negá-la, desprezá-la. Era o Rei da Voz quem cantava.

      Aquarela do Brasil é a única música que conheço com a palavra ‘merencória’. Isolada, a palavra parece não caber em samba nenhum. E coube, Lindamente.

      Significa melancólica, triste.

  2. Ô abre alas para Chiquinha Gonzaga cantar a sua “Lua Branca” tão bem interpretada por cantores atuais, como Maria Bethânia e outros(as).
    Ary Barroso também foi apresentador de programas de calouros e qual um deles foi cantar “Brasil/meu Brasil brasileiro…..vou cantar-te nos meus velsos – Ary não aguentou, gongou o rapaz e disse vá cantar nos seus velsos nourtro lugar. nos meus versos não. Aquarela virou um Hino Brasileiro também. Dorival, o poeta do mar, embala a gente. Chico Alves era o Rei Voz, lembro-me do dia do seu falecimento. Tom Jobim foi um expoente da MPB – cantor, compositor, violonista e pianista. Era completo.

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