As chuvas de verão

Roberto Nascimento

Quase sempre, no mês de janeiro chove mais do em qualquer época do ano. Até a década de 70, as chuvas despencavam em março. O poeta e músico Jobim cantou “as águas de março fechando o verão”. Eram verdadeiramente torrenciais. A natureza mudou, então não mais em março acontecem às tragédias, as inundações, as quedas de barreiras, os rios transbordando e as pessoas sem casa, sem roupa, sem móveis e utensílios e sem seus entes queridos.

Os governos estaduais sabem que as chuvas arrasadoras cairão com força no mês de janeiro. Não é novidade, religiosamente a natureza cumpre seu papel. Quem sabe nos próximos 50 anos, as chuvas passem a cair abundantemente em dezembro. Por enquanto, é mesmo neste mês de janeiro que os rios transbordam para valer.

Então, não se pode conceber a inércia dos governantes. Não há planos estratégicos para combater os efeitos das inundações. Desde a última tragédia em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, na cidade de Paraitinga em São Paulo e em Santa Catarina, enfim, a maioria em encostas ocupadas ilegalmente, por moradores pobres e também pela classe média.

Sabe-se, que as camadas de terra sobre as pedras de morros e encostas, quando submetidas às chuvas abundantes e contínuas, vão ficando pesadas e encharcadas, causando o desmoronamento. Há um conjunto de ações que contribuem para o evento, que ora lamentamos e choramos baixinho com o destino cruel das mortes de centenas de pessoas, notadamente na região serrana do Rio de Janeiro.

São essas as condições que geram as causas atuais: a inércia da fiscalização dos órgãos públicos, que permitem a ocupação em área de risco, a imobilidade dos órgãos ambientais, que não impedem os donos de chácaras e sítios de desviarem o curso dos rios; a imprudência da comunidade, que coloca lixo nos rios e córregos; e principalmente a falta de obras de drenagem nos morros e encostas, que facilitem o escoamento das águas de janeiro.

Há também o desmatamento descontrolado, a derrubada de árvores de contenção, para abrir espaço para plantações de laranja, milho, pasto. Logo sem essas árvores para servir de anteparo, as águas descem com mais força morro abaixo.

Os governos estaduais só pensam na próxima eleição, em gastar com propaganda oficial, em liberar o gabarito das cidades para construção de espigões. Enquanto isso, são despejados mais e mais lixo e esgoto não tratado nos rios e lagoas das cidades.

O Rio Tietê que corta a cidade de São Paulo, só não está poluído nas proximidades da nascente em Salesópolis. Ao serpentear as cidades com mais de 400 mil habitantes, vai ganhando toneladas de esgoto in natura e lixo de todo o tipo até alcançar o mar. Uma trajetória que envergonha a sociedade, que paga as tarifas na conta de água e esgoto e não vê resultado nas ações daqueles que elegemos para governar a cidade em nosso nome.

E a terra em transe segue seu inexorável destino, glauberianamente.

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OBS: Este artigo foi escrito por Roberto Nascimento em 12/01/2011. Como de lá para cá as autoridades nada fizeram, continua cada vez mais atual.

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