As contradições de Barroso, ainda ministro sem toga. A sinceridade de Chinaglia, revelando os que não votam com o governo. Cabral insiste em ser embaixador, antes da reeleição. Dona Dilma na televisão, só falta aparecer nas novelas.

Helio Fernandes

A sabatina de Luís Roberto Barroso no Senado teve enorme repercussão entre os ministros. Até os que saudaram a indicação dele fizeram restrições às suas afirmações. A palavra mais ousada foi a que utilizei aqui na sexta-feira: arrogância. Sua suficiência, até mesmo em tom de bravata, não cabe no plenário do Supremo, não deixa o ministro confortável, na toga que ainda vai usar.

Três pontos comentados, em tom negativo: 1 – “Vou participar do julgamento do mensalão, ninguém vai me impedir”. Análise geral: ninguém vai impedi-lo. Se a Constituição e consequentemente o Regimento Interno determinarem, ele vota.

2 – Criticou o próprio plenário do Supremo: “Não deveria votar matéria penal, apenas constitucional”. Isso seria o ideal e o sonho geral, mas ninguém consegue. O Supremo já julgou milhares e milhares de processo penais, só não lembro se algum deles tinha Luiz Roberto Barroso como defensor.

(O Supremo sempre julgou ação penal. Este repórter foi apresentado preso ao Supremo. Fui julgado por ação penal. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional por ter publicado um documento “sigiloso e confidencial”, pediram 15 anos de prisão para mim. Isso foi antes do golpe. Preso em 24 de julho de 1963, julgado e absolvido em 31 desse mesmo julho. Meus advogados Sobral Pinto, Adauto Cardoso, Prado Kelly e Prudente de Moraes neto, grandes defensores. Enquanto existirem cidadão com foro privilegiado, o Supremo tem que julgá-los).

3 – “O julgamento do Supremo fez uma curva”. Não explicou se essa curva era ascendente ou descendente. Pelo menos este repórter esperava que Luís Roberto Barroso fizesse um libelo contra o julgamento SEM PROVAS. Estas, indispensáveis e irrecuperáveis, foram substituídas pelo DOMÍNIO do FATO, nenhuma palavra dele comentando o que aconteceu.

Poderia ter se baseado no julgamento do ex-presidente Collor. Foi “absolvido por falta de provas”. Se naquela época já se condenasse ou se absolvesse com base no “domínio do fato”, diferente.

Barroso, em 7 horas de sabatina, usou inúmeras vezes a palavra mensalão. Ora, esse julgamento começou como “mensalão”. A pedido dos advogados, passou a Ação 470. A partir daí não existiu mais “mensalão”, agora ressuscitado por um advogado.

A PRESSÃO DEPOIS DO VOTO

De qualquer maneira, vote como votar (“não sofro pressão da imprensa, do governo, da opinião pública, de ninguém”) terá que conviver com a essência e a jurisprudência do próprio voto. Que logicamente provocará concordância e discordância.

Finalmente, por hoje, com suas declarações audaciosas, contraditórias e desnecessárias, abriu caminho para o próximo procurador-geral, substituto de Roberto Gurgel. Já disse aqui: o mandato do procurador termina em agosto. Ficarei totalmente surpreso se o julgamento da Ação 470 terminar este ano. Sem contar o recesso de todo o mês de julho.

A SINCERIDADE DE CHINAGLIA

Líder do governo na Câmara, ninguém perguntou, mas ele resolveu responder em entrevista à Folha: “Só 150 deputados dos 381 da base são fieis ao governo”. Rigorosamente verdadeiro e todos sabem disso.

HENRIQUE EDUARDO ALVES,
PRESIDENTE DA REPÚBLICA

O vice Michel Temer está articulando esse “mimo” ao presidente da Câmara. Renan já assumiu por um dia, Alves ficará dois ou três. Na viagem de Dona Dilma, Temer também viaja, seria a vez do Rio Grande do Norte ter um presidente.

ATO PATRIÓTICO

Serve para tudo, desde o combate ao terrorismo (ou o que os governos chamam de terrorismo), passando pelas torturas em Guantánamo e agora pela vigilância a milhões de americanos.

Esses milhões de “vigiados” não saberiam de nada, não fossem as denúncias do jornal britânico The Guardian. O secretário de Justiça de Obama “admitiu”, mas não explicou o absurdo.

Quem condenou o fato foi Al Gore, que nunca se livrou de não ter sido presidente. Vice de Clinton, ganhou no voto popular, mas foi derrotado pelo governador da Flórida, Jeb Bush, irmão de George W. Bush.

NINGUÉM APOIA CESAR MAIA

Os partidos fora da base não querem nada com ele. Estão certos, não tem a menor chance. Só ganha no município, no estado perdeu para governador e senador. Existem apenas dois candidatos, Lindbergh e Garotinho. Se Cabral renunciasse (desincompatibilização), Pezão assumiria, teria possibilidades remotas.

Cabral só passaria o cargo a Pezão, se fosse nomeado embaixador na França. Mas aí o PT é que gritaria, Lindbergh poderia ser prejudicado. Mas Cabral quer ser nomeado antes da reeleição. E se Dona Dilma perder?

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PS – Impressionante e até assustador, o número de vezes que Dona Dilma aparece na televisão d-i-a-r-i-a-m-e-n-t-e. E não é horário eleitoral. É por vontade própria e “colaboração” dos canais.

PS2 – Todos os atos, decretos, vetos, medidas provisórias têm que sair no Diário Oficial, saem mesmo. Mas antes, sem o menor charme ou atração, ela desvenda e revela pela televisão. Nunca vi presença assídua e igual de um presidente.

PS3 – Enquanto isso, depois de uma exposição violenta e também diária, Eduardo Campos desapareceu. Deve ter compreendido ou alguém analisou para ele, que estava se desgastando à toa. Sumiu.

PS4 – Alexandre Schwartsman (ex-diretor do Banco Central) foi taxativo e fulminante na TV (Conta Corrente, Globonews) sobre a inflação: “O Banco Central vem fazendo barbeiragem em cima de barbeiragem. Descobriu muito tarde que a inflação estava subindo”.

PS5 – Continuando: “E o pior é que esse remédio não é mais adequado”. Finalizando: “E ainda haverá mais elevação de juros em 2013”. Quem vai responder a um nome que esteve no próprio BC?

PS6 – Laco Silva, Getulio ia muito no Jóquei Clube, até uma vez em que foi vaiado. Não voltou mais. Na época falavam que saindo das corridas, mudava o trajeto, passava pela casa da vedete Virginia Lane.

PS7 – Quanto a Jurema, Ministro das Justiça, gostava muito de ir, à tarde, a bares de intelectuais, existiam muitos no Centro. Do Pardelas ao Amabassador, no hotel do pai do Marcio Moreira Alves.

PS8 – Um dia, criticado, respondeu: “Vou encontrar com amigos. Nunca vi uma grande amizade que nascesse ou crescesse numa leiteira”.

PS9 – O jornalista Renato Mauricio Prado estreou segunda-feira (na Fox Sports) um programa de entrevistas intitulado “A Última Palavra”. Maravilhoso. Não sei qual será o entrevistado de hoje. Mas se não tiver a versatilidade e a sinceridade e não souber expor e se expor como o entrevistado do primeiro programa, o segundo não terá a mesmo sucesso.

PS10 – O personagem da semana passada foi o goleiro (da seleção) e técnico de muitos clubes, Leão. Que capacidade, quem poderá igualá-lo?

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11 thoughts on “As contradições de Barroso, ainda ministro sem toga. A sinceridade de Chinaglia, revelando os que não votam com o governo. Cabral insiste em ser embaixador, antes da reeleição. Dona Dilma na televisão, só falta aparecer nas novelas.

  1. Volto ao titulo, porque nínguem comentou o golpe de mestre da Presidente DILMA, ao escolher Luis R. Barroso para ministro do Supremo. Só o sr. poderia perceber este golpe de mestre da Presidente.
    O golpe de mestre é ter imobilizado a Globo, visto que o ministro é um grande Constitucionalista e ele também fica impedido
    votar em ação contra Globo [Tv Paulista].
    Este comentário tinha acabo de enviar para outro artigo…

  2. Também, convenhamos, Getulio foi imprudente em comparecer ao Jóquei Club naquele ensolarado primeiro domingo de agosto de 1954, dia do GP Brasil. Os sicários do Gregorio Fortunato, que balearam o Lacerda e mataram o Major Rubens Vaz, já haviam sido identificados e seu desgaste político era tremendo. A propósito de lembranças, quem esteve na pista naquela tarde, para a clássica fotografia da vitória horas antes num dos páreos, foi um velho amigo seu natural de Batatais, SP, chamado José Olympio Pereira Filho.

  3. “ “O julgamento do Supremo fez uma curva”. Não explicou se essa curva era ascendente ou descendente. Pelo menos este repórter esperava que Luís Roberto Barroso fizesse um libelo contra o julgamento SEM PROVAS. Estas, indispensáveis e irrecuperáveis, foram substituídas pelo DOMÍNIO do FATO, nenhuma palavra dele comentando o que aconteceu.”

    Prezado Mestre Helio Fernandes

    Lugar de ladrão é na cadeia, principalmente os grandes e poderosos. Assim deveria ser. Mas, infelizmente não é. Nem nunca será por conta da gigantesca injustiça do sistema. Portanto, o inédito e impensável julgamento mensalão, tendo em conta a nova era política no Brasil e na América Latina, o passado político de muitos envolvidos, formatação processual, rito transcorrido de gigante espetáculo expresso na “mídia livre”, jamais visto, sequer imaginado, resultando tudo, em pesadas, fulminantes e inacreditáveis sentenças, pairou no ar uma grande angustia. Uma terrível indagação. A quem interessa tudo isso?

    Após o trágico desmantelamento econômico do Brasil decorrente das privatizações FHC/PSDB, nossa economia começou a se erguer, as duras penas, em novos rumos, construídos por Lula/PT e Dilma/PT. Justo numa hora dessas, para piorar, quando a economia do primeiro mundo prossegue desabando, surge o julgamento mensalão. Como se marco fosse, de súbita virada da justiça brasileira, cansada de décadas de imensos escândalos e conhecidas impunidades. Agora, finalmente, nossa Justiça acordou, cheia de forças e determinação para sair em busca do tempo perdido, em julgamentos e condenações, de todos os grandes corruptos, livres ricos e milionários, conhecidos, muitos, eleitos e reeleitos. Quem acreditaria em tamanho disparate? Claro que ninguém.

    Portanto, por tudo que conhecemos, vimos e tomamos conhecimento, o julgamento mensalão, passou para a triste história do Brasil, como um dos maiores escândalos existentes envolvendo a crença na rota justiça dos homens. Pior, de sérias ameaças para os destinos do Brasil. Bem sabemos que o mundo está cada dia mais inseguro e perigoso. Acreditem senhores, o Brasil não sobreviveria a novas devastadoras privatizações, com milhares de falências e desempregados. Seria transformado numa gigantesca favela. Acorda, Brasil.

  4. Prezado Helio,
    Quanto ao novo ministro do STF,suas considerações são irretocáveis.
    Aqueles que esperavam algum tipo de punição para os condenados no processo do Mensalão,podem fazer um estoque de Rivotril,ou de Lexotan,para amenizarem suas frustrações.
    Mais uma vez, o jurisdicionado verá que a sigla PPP é a de maior atualidade em nosso País,ou seja em linguagem prá la de chula:”Cadeia no Brasil só mesmo para PRETO,POBRE E PUTA!”
    Realmente,uma coisa para lá de lamentável,numa hora em que o povo acreditava piamente,que as coisas estavam mudando.
    Quanto a “sabatina” do então indicado para o cargo de ministro do Supremo,perante a Comissão de Constituição de Justiça do Senado,foi uma das maiores decepções de minha carreira jornalística.Assisti ao depoimento do já agora ministro Luís Roberto Barroso,com toda atenção e pleno de esperanças.Quanto ao saber jurídico,nenhum reparo,quanto a futura atuação todos os reparos existentes e todos os temores,que creio é um consenso entre todos os jurisdicionados brasileiros.Não falo isso com orgulho,júbilo ou contentamento.Saí arrasado depois de assistir o depoimento do novo ministro de nossa mais Alta Corte de Justiça.Falo com o coração aberto e a voz embargada.
    Ao final da “sabatina”, minha vontade era fazer,como aquele personagem do imortal Nelson Rodrigues:sentar-me em um meio fio e chorar lágrimas de esguicho!

  5. Werneck, quem cunhou a expressão PRETO, POBRE e PUTA, foi o jurista Heleno Fragoso. Referia-se a Delegacia de Costumes e Diversões que aplicava a “lei de vadiagem” prendendo pretos, pobres e putas. A expressão está imortalizada no Código Penal. Você é do ramo e sabe disso.

  6. Hélio fazes uma pergunta singela, sobre o desejo de Cabral em ser nomeado embaixador da França antes da eleição: E se Dona Dilma perder? Aí está a incógnita nem tão difícil assim: Dona Dilma não ganha nem no primeiro e nem no segundo turno. Hoje é dia 10 de junho de 2013.

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